sábado

A morte - por Phillippe Ariès -

Érico Verissimo (1905-1975) na sua obra Olhai os Lírios do Campo, tem uma passagem em que Eugénio, a personagem principal que era médico, atende um dos seus pacientes e este diz-lhe o seguinte:”O que é a vida, doutor? A vida... a vida... o senhor sabe. Não vale a pena viver... Eu às vezes penso: ora, a gente nasce, vive sofrendo, mas para quê? Ninguém é sincero, os homens são egoístas. As mulheres também. Nós às vezes apaixonamo-nos, fazemo-nos de parvos, mas por quem, doutor? Por uma dessas diabas pintadas e falsas que amanhã a terra come as carnes e elas ficam esqueleto, como qualquer cozinheira. O senhor decerto leu aquele versinho dos dois esqueletos, o do nobre e o do pobre que conversavam debaixo da terra. O pobre ergue-se e pergunta ao nobre: onde estão os teus avós nessa ossada branca? O outro não sabia. Todos na morte somos iguais. Mas o que é a morte? A morte, doutor, pode ser um sono sem sonhos. Ou então a vida é o sonho da morte...” 

A morte tem, de facto, o poder terrível da democratização final. Do mais nobre ao mais pobre todos seguimos o mesmo caminho.

Apesar da morte ter o poder da democratização final, é perante a ameaça da nossa própria morte que tomamos consciência do nosso eu e da nossa singularidade, irrepetível. 

Não podemos substituir ninguém nesse exercício. A morte permanece um MISTÉRIO, pois ninguém sabe, com exactidão, o que ela é, e também não podemos pedir traços da sua descrição a quem já partiu. Ninguém responde. E quando morrermos também não regressaremos para contar o que se passou aos que ficam. 

Seja como for, vale a pena meditar no maior mistério da vida - que é a morte - através do trabalho de Phillippe Ariès. 

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