segunda-feira

O Banqueiro Anarquista - por Ricardo Salgado -

O sonho de Ricardo era continuar a ser muito rico. Não ser visível. E ser indetetável.Só perdeu uma condição...



Toda esta problemática de fraude, burla, crime económico, compra de poder e corrupção ao mais alto nível da Administração do Estado reflecte, afinal, uma concepção muito própria de Ricardo Salgado de que ele foi, e é, se calhar, um banqueiro anarquista, para retomar a célebre expressão de Fernando Pessoa, pedindo desde desculpa a este por o misturar com a canalha da bancocracia que tem minado o regime político em Portugal desde 1974.

No fundo, a ideia do banqueiro anarquista é a de que todos devem trabalhar para um mesmo fim: o enriquecimento do Salgado. Ainda que, como metafísica orientadora daquele labor, o objectivo supremo seja impedir a sujeição à pressão social dos media, e ao aparelho de justiça, que é mais espectacular do que punitivo, e, ao mesmo tempo, fazer com que as pessoas se libertem do dinheiro e da sua influência e força. 

Crucial aqui é que essa libertação do dinheiro e da sua força só se consuma quando o homem consegue adquirir uma soma considerável do dito vil metal, a ponto de libertar-se de tudo e de todos. Eis a condição pretérita, actual e futura de Ricardo Salgado: nasceu rico e irá morrer ainda mais rico. Muito provavelmente, no seu património PESSOAL, que não responde perante as dívidas do GES/BES, ninguém tocará, e esse deverá ascender às centenas de milhões de €uros.

Mas isso agora pouco interessa, o que importa é que Salgado, com algumas chatices de ter o passaporte caçado e de ser obrigado a apresentar-se às autoridades judiciais de Renault Clio uma vez por trimestre para prestar declarações que vão encher as primeiras páginas dos jornais, é já um homem rico, liberto de qualquer constrangimento ou influência. Ou melhor, o regime continua a depender dele, pois enquanto gozar de memória os agentes políticos dos últimos 30 anos em Portugal estão reféns dessa sua memória e das ligações sórdidas que prendem a política à banca, a que é corrupta e de trazer por casa. 


No fundo, para Salgado o Banqueiro Anarquista é o repositório de algumas pedradas no charco na vida pública portuguesa, criando nela o desassossego junto dos depositantes, que agora veem as suas economias por um canudo; revelando o laxismo e total incompetência e inoperância do Regulador, em particular do Governador do BdP, considerado uma espécie de xerife corrupto a quem alguns banqueiros pagaram em troca de silêncio cúmplice (seguindo a lei da  omerta siciliana); e, por fim, um detonador que veio mostrar as ligações perigosas entre a alta finança, a política, o mundo dos negócios e, por extensão, as relações financeiras internacionais que envolvem as ligações a Angola e ao BESA...

Ricardo era o nervo desse furacão que hoje se desmoronou, ficando mal na fotografia, já em plena reforma dourada (de 1 ME/mês). Contudo, essa ascensão e queda de um Santo não deixa de ter uma finalidade pedagógica para os cultores da política, já que se aprende mais com a ascensão e queda deste importante grupo económico - o GES -  do que estudando as sebentas plagiadas e balofas dos lentes de Coimbra e de Lisboa acerca do tema. 

Em síntese: com muita pose, delicadamente construída ao longo das décadas, com muito gel no cabelo alguns portugueses mitificaram este pérfido gestor que penalizou milhares de clientes particulares, milhares de empresas/PMEs e o Estado - no seu conjunto. 

Salgado, diante do seu mundo e do seu umbigo, que era a mesma coisa, demonstrou que apenas conhecia uma lei: o seu capricho e a sua vontade. Em certos países civilizados, como os EUA, por exemplo, estes caprichos dão cadeia. 


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