quarta-feira

Presidente da Câmara de Elvas retira pelouros ao seu histórico antecessor. Drama político em Elvas



Presidente da Câmara de Elvas retira pelouros ao seu histórico antecessor






Aconteceu o que já se previa desde que o executivo da Câmara de Elvas tomou posse. O actual presidente da Câmara de Elvas, Nuno Mocinha (PS), anunciou nesta terça-feira, no decorrer de uma reunião extraordinária do executivo elvense,que iria retirar os pelouros a Rondão de Almeida, (anterior presidente e agora vereador) e Elsa Grilo, ambos eleitos na lista do PS.

“Esta equipa não é leal ao presidente, é leal a Rondão Almeida. Ou me demitia, ou optava por retirar pelouros aos dois vereadores”, explicou Nuno Mocinha, em conferência de imprensa. Mas ainda antes da comunicação do autarca, Rondão Almeida e Elsa Grilo já tinham chamado os jornalistas para um encontro onde estiveram presentes os outros três vereadores socialistas (Manuel Valério, Vitória Branco e Tiago Afonso) que acusaram o presidente de lhes ter “espetado uma faca nas costas”, ao pretender retirar pelouros a dois e ameaçar outro que o “punha no desemprego”.
Rondão Almeida, que presidiu consecutivamente durante cinco mandatos (20 anos) ao executivo da Câmara de Elvas, e sempre assumiu a sua contrariedade por não poder liderar um sexto, acabou por ser eleito vereador, facto que suscitou desde logo a suspeição que o “presidente faria o que Rondão impunha”.
O visado disse na conferência de imprensa que “em nenhuma posição da câmara" foi ouvido, acusando Nuno Mocinha de, ao longo de nove meses, “nunca ter reunido com os restantes colegas” apesar de durante a campanha eleitoral se ter comprometido a dar “continuidade ao projecto de Rondão Almeida”.
O ponto de ruptura que já era aguardado desde a tomada de posse aconteceu na última reunião ordinária da câmara. Rondão de Almeida questionou o presidente sobre uma proposta que facultava graciosamente aos trabalhadores da autarquia a utilização do ginásio municipal da cidade e o parque de estacionamento subterrâneo, que tinha apresentado em Abril e que continuava sem ser aprovada.
“Solicitei que este ponto fosse agendado mas o presidente não gostou e saiu da reunião”, explica o vereador socialista, acrescentando que a direcção do executivo foi assegurada então pela vereadora Elsa Grilo e a proposta foi aprovada.
Nuno Mocinha não gostou da atitude tomada pelos cinco vereadores socialistas e nesta terça-feira anunciou que iria retirar os pelouros atribuídos a Rondão de Almeida e Elsa Grilo.
Se o presidente da Câmara não se retratar e insistir na falta de diálogo e entendimento, Rondão Almeida diz que os restantes três vereadores eleitos pelo PS (Vitória Branco, Manuel Valério e Tiago Afonso) irão entregar os seus pelouros, ficando Nuno Mocinha com toda a gestão da autarquia.
A vereadora Elsa Grilo foi a que revelou mais dificuldade em superar o contencioso com Nuno Mocinha, não conseguindo esconder as lágrimas e o choro durante a conferência de imprensa.
“Já sofro muito mais do que uma pessoa pode sofrer, mas agora estou a sofrer muito mais do que nas sessões de quimioterapia a que tenho de me sujeitar”, confidenciou a vereadora, frisando que é o trabalho autárquico que lhe “dá força para viver”.
A autarca não entende como é que “um amigo [Nuno Mocinha] lhes espeta uma faca nas costas”, lembrando: "Trata-se de uma pessoa a quem nós demos a mão [para ser presidente de câmara] e que agora nos atira pela escada abaixo pondo em causa um projecto que iniciámos há 20 anos”.
Perante o cenário traçado, Rondão Almeida admite como possível a demissão de Nuno Mocinha e a subida da vice-presidente Elsa Grilo à presidência da Câmara Municipal de Elvas. Outra possibilidade “bastante provável” é a realização de eleições intercalares, com Elsa Grilo como cabeça de lista.
Na resposta, também em conferência de imprensa, Nuno Mocinha começou por enaltecer o trabalho do “comendador Rondão Almeida”, mas acrescenta: "Nos últimos nove meses tentei levar por diante um trabalho de equipa que de equipa pouco se mostrou”.
E prossegue o autarca: “Fui surpreendido pela existência de projectos, proposta e acções tornadas públicas sem o meu conhecimento e muito menos ouvida a minha opinião”, uma atitude reveladora de “falta de consideração” pelo presidente da câmara.
A falta de sintonia no executivo municipal era de tal ordem que Nuno Mocinha via-se forçado a “pedir” aos vereadores socialistas que o informassem das decisões que tomavam para não ser surpreendido pela comunicação social e pela população sobre projectos e eventos que iam sendo divulgados “sem o seu conhecimento”.
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Obs: Duas legitimidades em confronto - uma histórica que vive da glória do passado e que deseja comprar o futuro (Rondão); a outra, decorre da legitimidade popular recentemente sufragada no voto. Ambas oriundas do mesmo partido, o PS -  que, doravante, se converteu num "saco de gatos" denunciando o confronto quase edipiano entre aquelas duas legitimidades - uma fresca/recente; e outra histórica, feita de 20 anos de exercício do poder autárquico. 
O presidente de câmara em exercício percebeu que para se manter activo politicamente teria que "matar o pai", no sentido freudiano; e o "pai" - compreendeu que ainda tem capital político, histórico e que pode racionalizar uma ofensiva visando a destituição do autarca em exercício, como forma de punição política resultante da ingratidão e rebeldia reveladas.
Temos aqui um case study para a Ciência Política estudar e analisar, mas este parece mais ser o momento da guerra que irá desenvolver-se até à destituição do presidente em exercício e à identificação de pretextos, situações,  mecanismos e expedientes vários que contribuam para demonstrar o irregular funcionamento do Executivo autárquico e, consequentemente, a convocação de eleições intercalares a fim de restabelecer a normalidade no Executivo, já com outro presidente, naturalmente.
Um assunto a acompanhar, até pelo drama político que encerra. E pelos contornos da situação, a natureza das personalidades envolvidas não me surpreenderia que o drama se convertesse em tragédia. 
Neste Portugal camiliano não se mata apenas porque uma simples árvore fazer sombra no terreno do vizinho; mata-se, por maioria de razão, por questões de Poder. E este parece ser o perfil de situação que encaixa nesse mais do que previsível puzzle de política local, agora com uma expressão universal pelo reconhecimento dado a Elvas pela UNESCO. 
Situação que confere ao drama em curso uma dimensão ainda maior, até pelo volume dos recursos financeiros cabimentados para projectos futuros. 
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