domingo

O salazarismo nunca existiu - Filipe Ribeiro Menezes -

Filipe Ribeiro de Meneses

O salazarismo nunca existiu

Historiador, dedicou sete anos à investigação e escrita da biografia de Salazar, onde, ao longo de 800 páginas, esmiúça a sua atração pelo poder.

Salazar no Forte de Santo António do Estoril, fotografado pelo inspetor da PIDE Rosa Casaco, o “menino bonito” do ditador e autor dos seus retratos mais íntimos



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Após 40 anos de ditadura, Salazar deixa um país pobre, rural, analfabeto, subdesenvolvido, submetido a um violento aparelho repressivo, com o país mergulhado numa guerra que não conseguia custear e a população a emigrar em massa. Desse ponto de vista, foi um falhado?
Foi. O Portugal que Marcello Caetano herda é bem diferente do que Salazar herdou em 1928, mas são 40 anos, e o que é incrível é a transformação da Europa Ocidental a partir de 1945. É o reerguer das cinzas, que Portugal não acompanha. Nesse sentido, há uma série de oportunidades que estão abertas ao regime e a Salazar a partir de 1945 que ele não aproveita e que contribuem para esses atrasos.

No pós-guerra, Salazar não acompanha o movimento de construção da democracia, mas também as democracias europeias nada fazem para forçar essa mudança. Porquê?
Aí temos de recuar até à Primeira República. A reputação internacional do país é tão má que há o receio de que o Portugal democrático se transforme rapidamente num Portugal revolucionário e comunista. A Guerra Fria tem um papel importante. E temem também que, por contágio, esse sentimento revolucionário se transmita à Espanha. O mal menor em relação à Península Ibérica, sente-se no resto da Europa e nos EUA, é não forçar o regresso a uma democracia, para a qual estes dois países não estão supostamente preparados. [...]

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Obs: Citados aqui apenas dois parágrafos do artigo que revelam mais um subsídio para aquilo que foi quase meio século de regime de ditadura conservadora comandada por Salazar, demonstrando que a história é de tal modo flexível que permite rever sempre uns aspectos e retocar outros. E assim vamos alterando - para pior ou menos mal - a imagem fixada do regime. 

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