sábado

As motivações de António Costa para S. Bento - perdida a oportunidade de Belém. A variável Guterres.





António Costa, ainda autarca em Lisboa, e na sequência dos magros resultados das eleições europeias que colocaram o PS quase ao nível desta coligação ultra-liberal que tem afundado Portugal, olhou para o seu futuro político e perguntou-se: 

- "Guterres fez o seu pré-anuncio para Belém, cargo que desejo a partir do Largo do Município. Excluída essa oportunidade, o cargo de relevo nacional que me resta, após sair da liderança da autarquia, é mesmo o Palácio de S. Bento. Mas, para isso, terei de voltar a ser candidato à liderança do PS, conquistar o partido, derrotar Seguro e, de seguida, ser o candidato do PS a Primeiro Ministro e derrotar Passos Coelho nas legislativas de 2015".

Creio ter sido este o cálculo político que António Costa fez para consigo próprio na noite das eleições europeias, em que o PS, sociologicamente, se distancia pouco do PSD e CDS, facto que deixou os militantes e simpatizantes socialistas frustrados. 

Neste quadro, António Costa, especialmente nesta fase da sua vida e da vida conturbada e recessiva do país, não queria ser candidato a SG do PS, nem candidato a PM, já que a sua mira política estava apontada para a sua candidatura a Belém, em 2016. Um cálculo e um desejo cilindrados por duas palavras de António Guterres, admitindo, em tese, a possibilidade de assumir essa candidatura, federando toda a esquerda, e entrando até no eleitorado mais conservador do centro e da direita. 

Se este cálculo estiver correcto, somos também forçados a admitir que esta última candidatura de Costa à CML, foi idealizada como um trampolim para Belém, à semelhança, aliás, do que fizera Jorge Sampaio em 1996 - quando abandona a autarquia e se candidata a Belém, deixando pregado ao chão o seu rival, Cavaco Silva. O mesmo fez Jacques Chirac, em França. Talvez esta intenção oculta de António Costa ajude hoje a compreender por que razão ele nunca quis avançar nas duas últimas oportunidades no passado recente, deixando sempre o caminho aberto a António José Seguro. Por esta razão, a questão da liderança no PS também nunca se colocou verdadeiramente, ainda que espicaçada pelos socráticos que passaram, naturalmente, a apoiar António Costa.

Neste contexto, os resultados das europeias constituíram apenas o pretexto para Costa irromper contra Seguro e mobilizar o partido em seu torno para derrotar o PSD em 2015. Por outro lado, a certeza que Costa passou a ter relativamente à forte possibilidade de Guterres avançar para Belém, foi a pedra de toque que fez o autarca repensar toda a sua vida e carreira política. Ou seja, António Costa sabia, para já, que Belém era ainda um lugar inalcançável, mas S. Bento podia estar ali, ao dobrar da esquina no Largo do Município. Se Costa não avançasse nesta concreta fase, tudo ficaria comprometido na sua vida política: Belém para Guterres, S. Bento para quem ganhasse as legislativas  em 2015, e Costa ficaria sem um lugar de relevo nacional para exercer após o seu mandato na autarquia da capital. Perante este deserto de oportunidades, restava-lhe avançar contra Seguro para conquistar o PS, primeiro, e o país, depois. Foi o que fez.

Para facilitar e corporizar esta vontade oculta, António Costa conta com o apoio activo de todos os socráticos, da nova e velha geração, que vai de J. Lello a João Galamba (e outros), deputados esses que nunca se identificaram com a pessoa e o estilo de liderança de A. José Seguro. Aliás, convém dizer que um dos problemas de Seguro na liderança do PS radica no seu grupo parlamentar, o qual nunca o apoiou, facto que foi paralisando a acção de Seguro no Parlamento, principal base de apoio político a um líder na oposição. Especialmente, nestas circunstâncias excepcionais em que o país está intervencionado pela troika, privado de soberania e de autonomia política e financeira que o impede de gizar políticas públicas libertas daquele jugo do FMI, BCE e CE. 

Seguro foi, assim, apanhado neste vendaval de forças e contra-forças:

- por um lado, o seu grupo parlamentar nunca o apoiou, até sabotou o seu trabalho; 
- por outro lado, a variável Guterres funcionou mais como mola dinamizadora da acção de Costa do que uma vitamina para Seguro;
- e, em terceiro lugar, a envolvente externa, com a troika a ditar as operações nas finanças públicas em Portugal, meteram toda a oposição dentro de um colete-de-forças que, curiosamente, limitou mais a acção do líder do PS do que paralisou o Governo, que ultrapassou as medidas propostas no Memo da troika mediante um plano geral de empobrecimento da economia nacional, plano esse que assentou numa brutal carga fiscal sobre as pessoas e empresas, o qual fez disparar a pobreza, o desemprego e a emigração. Eis os "activos" de Passos Coelho.

Ainda que Seguro tivesse ganho dois actos eleitorais, as autárquicas e as europeias, a margem estreita que o separa da coligação PSD-CDS, serviu de pretexto para Costa avançar e preparar o PS e a liderança para o próximo embate nas legislativas de 2015. 

Resta agora a Seguro lutar e resistir, mas com uma grande diferença relativamente ao passado recente, certo de que nunca foi apoiante de Sócrates. Seguro goza agora de toda a liberdade do mundo para criticar o consulado de Sócrates e, através dele, procurar atingir Costa e todos aqueles que o apoiam. Importa é saber se essa será a melhor estratégia para tentar impedir um velho pretendente à sucessão natural da liderança do PS e, ao mesmo tempo, reconquistar o partido e, mais difícil, o país.

Quanto a António Costa, importa dizer que nem tempo terá de fazer o seu mea culpa por ter decidido romper o contrato social que fez com os lisboetas que o elegeram para a CML. Mas como os portugueses já estão habituados a estas deslealdades, admito que, desta vez, também não estranhem. 

O povo português faz lembrar aqueles maridos que são sempre os últimos a saber: adoram ser enganados. 

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