quinta-feira

Subdesenvolvimento político em Portugal. Evocação de Samuel Huntington. Os cravos negros

Foi com o desaparecido politólogo, Samuel Huntington, que aprendi que a mobilização de um povo requer efectiva autoridade política, o que pressupõe agentes políticos competentes e não rapazes impreparados que nunca fizeram nada na vida, nem sequer gerir uma autarquia dos arredores de Lisboa, mas que conseguiram captar o poder político nacional em Portugal, no caso com a ajuda pro-activa do actual locatário de Belém. O resultado económico, financeiro e social dessa devastação, desde o verão de 2011, está bem à vista de todos, por cá e na Europa, onde também existem "restos políticos" dessa ambição desmedida - com barroso na CE - cuja acção se traduziu num enfraquecimento global do poder, influência e autoridade da União Europeia no mundo. 

Vem isto a propósito da comemoração dos 40 anos da democracia pluralista em Portugal. Estamos a uma semana e meia desse importante evento e o Governo não tem um programa à altura para comemorar esse importante marco fundacional da nossa 3.ª República - que bem poderia significar a criação e institucionalização de uma nova ordem política, pois uma revolução bem sucedida interliga a mobilização política rápida e a institucionalização política rápida. Essa relação é o que nos permite avaliar a qualidade da nossa revolução e quão rápida e abrangente ela foi, permitindo a participação política dos cidadãos, criando uma nova ordem. 

Ou seja, o êxito duma revolução mede-se pelo grau de autoridade e de estabilidade política das instituições que faz nascer, como ensinou S. Huntington, no seu interessante livro - Political Order in Changing Societies

Foi  isso que se viu em Portugal?!

O autor vai mais longe na definição do que é o desenvolvimento político, e remete a discussão para a institucionalização de organizações e de procedimentos políticos caracterizados pela estabilidade. 

Atentas as mentiras sistemáticas do ainda primeiro ministro, e dos seus colaboradores que andam de cabeça perdida, será que foi isso que se verificou? basta pensar no esbulho cumulativo aos salários dos funcionários públicos e aos pensionistas, que não contribuíram para a dívida, e o governo em funções entende que deve ser esse grupo socioprofissional a pagar os erros e vícios cometidos por outros. Daí este governo ser composto de gente iníqua e imoral. 


Por outro lado, Cavaco, almofada do governo, fala na necessidade do consenso para gerar estabilidade (interna e perante a troika). Mas será esse o ambiente que temos hoje em Portugal, conduzido por uma maioria do centro-direita que, a escassos dias da comemoração dos 40 anos de democracia representativa, que já tem mais tempo do que o tempo que a ditadura conservadora de Salazar durou - para garantir tal desiderato político?! Não creio.

Sabe-se que essa coisa esfarrapada que dá pelo nome de XIX Governo (in)Constitucional quer impedir que os militares de Abril, que estiveram na base da transição da ditadura para a democracia (e da descolonização), possam expressar os seus pontos de vista acerca das condições de vida em Portugal. A presidente da AR, que não tem sido mais do que um apêndice de luxo do Governo que a nomeou, faz panelinha com o governo, não vá o diabo tecê-las, e esses mesmos militares afirmarem verdades que choquem os portugueses e criem uma nova dinâmica revolucionária capaz de depor o poder que sequestrou as instituições políticas democráticas em Portugal onde a Srª Assunção Esteves está sentada.

O facto de ter havido meia dúzia de militares, Otelo incluído, que estiveram associados a crimes de sangue verdadeiramente lamentáveis no período pós-revolucionário, não justifica esta lei da rolha que Assunção Esteves quer impor ao país e à liberdade de expressão daqueles que, ou de muitos desses militares, deram a vida pela criação de um regime democrático e pluralista em Portugal. 

Colocar a tónica acerca da questão de saber se um determinado grupo fala ou não fala na AR, revela bem o grau de subdesenvolvimento político das nossas instituições e, acima de tudo, espelha a pobreza de carácter e até de cultura política dos agentes que hoje estão no poder, que são precisamente os mesmos que sequestraram o normal funcionamento das instituições políticas em Portugal.Tudo sob o olhar conivente de Cavaco que, consabidamente, nunca gostou da democracia representativa e do rule of law..., e detesta cravos vermelhos.

O Tribunal Constitucional, e bem, ainda é o único bastião que respira por um balão de Oxigénio próprio, ainda não dependente do governo, o qual não desiste de o asfixiar.

Eis as intenções da infra-gente que hoje está à frente das principais instituições políticas em Portugal e ocupam os principais lugares de representação política no aparelho de Estado. 

Conhecemos alguma industrialização, modernização cultural e administrativa, mormente após a nossa entrada na então CEE, em 1986, méritos de Sá Carneiro e de Mário Soares (e muitos outros), mas deixámos para trás a libertação do conceito de desenvolvimento político, e é isso, em larga medida, que explica a natureza das nossas discussões, o tema dos nossos fóruns e, por extensão, a conduta lamentável dos nossos agentes políticos.

Em face deste contexto e do actual circunstancialismo político em Portugal, sou de parecer que deveríamos todos comemorar este ano a efeméride dos 40 anos de Abril com cravos negros, como sinal de reprovação pelo escol político impreparado que tem destruído Portugal e os portugueses, e nos tem afastado dos principais indicadores de desenvolvimento económico e social dos países mais desenvolvidos da Europa - para onde seria suposto convergirmos. 


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