domingo

A hegemonia geopolítica do pequeno czar: a Rússia de Putin reconstrói as teias do império





Putin actua e manipula as populações russas da península da Crimeia para executar um referendo à media cujo resultado já se antecipara. Por isso, o oligarca russo, que se comporta como um pequeno czar, já interiorizou a convicção de que a Crimeia já é, de iure e de facto, parte integrante da Federação russa. Veremos se, doravante, as ambições do pequeno czar se ficam pela Crimeia, ou se estendem ao leste da Ucrânia até aos Estados bálticos.

Este processo de integração forçada, porque feito sob a vigilância das forças militares russas estacionadas na Crimeia, revela quão dependente está o processo de decisão política das oligarquias corruptas russas e, de certo modo, do enfraquecimento político e económico da União Europeia, hoje refém da dependência energética russa que alimenta boa parte da Europa. 

É, aliás, esta a Europa de Durão Barroso, em profunda agonia e privada de qualquer estatuto internacional, que andou a reboque dos mercados que são, de facto, quem manda nos Estados e impõe aos seus decisores as orientações a seguir que passam a vincular a comunidade internacional. 

Desta relação de tensão entre, por um lado, a agressora Rússia e, por outro, a UE e os EUA no seu conjunto, parece resultar as famosas sanções económicas à Rússia cujo efeito deve ser, previsivelmente, o de lhe fazer cócegas nos pés. 

Entre estes dois mundos, Ocidente e Oriente, aquele parece ainda não ter compreendido que o poder que o novel czar russo tem sobre as elites, os oligarcas da alta finança e os magnates do gás e do petróleo está muito acima do poder que Obama ou os líderes europeus exercem sobre as respectivas elites e populações. 

A Rússia ainda está longe de ser uma democracia pluralista, e nem sequer é um estado de direito, pelo que Putin pode, como e quando quiser, inventar falsas provas contra alguém poderoso de quem ele não goste para o enviar para uma qualquer cadeia da Sibéria; o mesmo já não será aplicável aos regimes do Ocidente, em que as oposições, a sociedade civil, os media e os tribunais asseguram essa vigilância na manutenção dos abusos do Estado em prol da observância do rule of law

Quem não se lembra da forma como foi executada a jornalista de investigação Anna Politkovskaia?!

Neste colete de forças, o que faz a ONU contra Putin a fim de limitar os seus
excessos e refrear a nova doutrina da soberania limitada de Putin no séc. XXI?

O que vale hoje o maquiavélico órgão da ONU, o famoso Conselho de Segurança
- em prol de acções de paz e segurança internacionais? para quando a sua 
reforma?

Neste mundo emergente em que a geografia volta a revestir-se de grande
importância e a história demonstra que não acabou, parece lícito concluirmos
que todas as reformas das grandes Organizações Internacionais estão por fazer,
e é essa lacuna que permite hoje aos oligarcas do costume violarem o Direito
Internacional Público, violarem as fronteiras de outros Estados e fazerem o que
Putin está hoje a fazer na Península da Crimeia sob o olhar atento do
mundo, mas também sob a sua impotência e cobardia. 

Cobardia e importância ocidentais que permitem, objectiva e subjectivamente,
a reconstrução do império russo que desabou com o muro de Berlim em 1989 -
quando alguns vaticinaram o fim da história. 


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