terça-feira

Rússia expulsa jornalista americano

David Satter
David SatterFotografia © Radio Free Europe


David Satter, de 66 anos, já trabalhou como correspondente do Finantial Times e é autor de três livros sobre a União Soviética e a Rússia, encontrava-se na capital russa desde setembro do ano passado e trabalhava para a Radio Free Europe.
Segundo explica Satter na sua página pessoal, no mês passado, o jornalista viajou até Kiev, a capital da Ucrânia, para uma exibição do seu filme 'Age of Delirium' (um documentário sobre o declínio da União Soviética), e foi abordado por um diplomata da embaixada russa, Alexy Gruby, que lhe leu um comunicado que dizia: "Os órgãos competentes decidiram que a sua presença no território da Federação Russa não é desejada. Está proibido de entrar na Rússia." Os "órgãos competentes" são os Serviços Secretos.
"Esta é a forma como são geralmente expulsos os espiões", explicou o jornalista americano ao jornal inglês The Guardian. "Em quatro décadas de trabalho na Rússia nunca tinha visto esta fórmula aplicada a um jornalista. Isto significa que, por alguma razão maluca, me consideram uma ameaça à segurança."
O embaixador norte-americano em Moscovo, Michael McFaul, levou o caso de Satter ao gabinete do ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergei Rybakov, exigindo uma explicação. Mas não foi dada qualquer justificação.
Apesar de as expulsões de cidadãos ocidentais ser uma prática corrente durante a Guerra Fria, a última vez que um jornalista foi obrigado a deixar o país foi em 1982: foi Andrei Nagorski, da revista Newsweek. Depois disso, houve o caso de um jornalista, Nicholas Daniloff, que esteve preso em 1986 como represália pelo facto de o FBI ter detido um espião russo em Nova Iorque. Mas a expulsão de Satter é uma surpresa.
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Obs: Mais um fragmento da Guerra Fria que transpunha para as relações do Estado com os "cidadãos especiais" de outro Estado a operar no seu território - um tipo de postura dura que, no limite, conduzia à morte ou à troca de reféns a meio duma ponte. Como já não vivemos no regime de duopólio nuclear - diz-se que o cidadão "X" é personna non grata e a intelligence indígena conduz o sujeito ao aeroporto e ponto final. 
Sucede, porém, que, por vezes, as coisas são mais complicadas do que aparentam ser, e sob a capa de um empresário, de um jornalista, de um professor, de um médico estão pessoas afectas aos serviços de inteligência de outro país. E quando descobertas são expulsas. Pode não ser o caso, mas se for não será o primeiro nem o último. 
Aliás, a história das relações internacionais está pejada de toupeiras infiltradas no quintal do vizinho, e isto é tanto uma evidência como referir que os desertos estão repletos de areia.
Pode tratar-se de um caso de puro delírio, e com o presidente actualmente existente na Rússia tudo é possível. 

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  • Escutas - por Luís Menezes Leitão 

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