terça-feira

Evocar Ferdinand Tönnies a propósito de Zygmunt Bauman

Nota prévia:

Zygmunt Bauman, um grande sociológo da modernidade e autor duma obra vasta, desenvolvida em torno da elaboração de novos conceitos de identidade, amor líquido, teoria da globalização, cruzando, desse modo, a teoria micro e macro-sociológica contemporânea, deixa-nos aqui um testemunho light - porque demasiado simplista - acerca das ligações interpessoais na época das redes sociais. 

Porventura, a sua explicação é demasiado simplista redutora. Curiosamente, Bauman ainda não se terá apercebido que a história das relações interpessoais - na sociedade de carne e osso, não é, afinal, assim tão distinta das relações rápidas e virtuais tecidas hoje nas redes sociais (!?). Desta arrumação excluem-se, naturalmente, laços tecidos entre as pessoas que se conheceram na escola, no trabalho, na adolescência, fizeram amizade na universidade, estreitaram laços em contexto de guerra e em outros contextos socio-profissionais e de lazer em que os laços se sedimentaram com mais intensidade e firmeza, logo são portadores de maior durabilidade e consistência.

Por outro lado, as ideias simples que aqui nos trás este brilhante polaco são, de certo modo, continuidades de um outro grande sociológo, Ferdinand Tönnies ao equacionar dois conceitos que podem encontrar paralelo com o enunciado de Bauman acerca das amizades no Facebook. 

Trata-se da comunidade (Gemeinschaft) vs sociedade (Gesellschaft): aquela feita de relações típicas de grupos pequenos agrupados em torno da civilização pré-industrial e consolidados pelo parentesco e por costumes e sentimentos religiosos que uniam os pequenos grupos; esta, sedimentada pelos interesses dos grupos urbanos que, no limite, se estruturam nos Estados e organizam as suas vidas em torno da lei e dos contratos e regem as suas vidas através duma complexa divisão do trabalho. São, pois, laços e relações de natureza diferente, mais complexas.

Contudo, a ideia simples que aqui procuro sublinhar é que a propósito de um grande sociólogo é sempre possível evocar outro. Ou seja, no trilho de Bauman não será desajustado evocar Tönnies.
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Leia o trecho:
"Um viciado em facebook me confessou - não confessou, mas de fato gabou-se - que havia feito 500 amigos em um dia. Minha resposta foi: eu tenho 86 anos, mas não tenho 500 amigos. Eu não consegui isso! Então, provavelmente, quando ele diz 'amigo', e eu digo 'amigo', não queremos dizer a mesma coisa, são coisas diferentes. Quando eu era jovem, eu não tinha o conceito de redes, eu tinha o conceito de laços humanos, comunidades... esse tipo de coisa, mas não de redes.
Qual a diferença entre comunidade e rede?
A comunidade precede você. Você nasce em uma comunidade. De outro lado temos a rede, o que é uma rede? Ao contrário da comunidade, a rede é feita e mantida viva por duas atividades diferentes: conectar e desconectar.
o-ZYGMUNT-BAUMAN-facebook.jpgZygmunt Bauman
Eu penso que a atratividade desse novo tipo de amizade, o tipo de amizade de facebook, como eu a chamo, está exatamente aí: que é tão fácil de desconectar. É fácil conectar e fazer amigos, mas o maior atrativo é a facilidade de se desconectar.
Imagine que o que você tem não são amigos online, conexões online, compartilhamento online, mas conexões off-line, conexões reais, frente a frente, corpo a corpo, olho no olho. Assim, romper relações é sempre um evento muito traumático, você tem que encontrar desculpas, tem que se explicar, tem que mentir com frequência, e, mesmo assim, você não se sente seguro, porque seu parceiro diz que você não têm direitos, que você é sujo etc., é difícil.
Na internet é tão fácil, você só pressiona "delete" e pronto, em vez de 500 amigos, você terá 499, mas isso será apenas temporário, porque amanhã você terá outros 500, e isso mina os laços humanos."

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