segunda-feira

Cuidado com o euro

Cuidado com o euro (in Público)
A cotação do euro está no máximo de sempre. Só quem andar distraído se espantará, pois o dólar tende a cair há muito. A surpresa é que o dólar não haja ainda baixado mais, face ao défice externo dos Estados Unidos. Mas os perigos para o euro vêm de outro lado. Vêm de França.
Sem franceses como Jean Monnet, Robert Schuman ou Jacques Delors a integração europeia não teria chegado onde chegou. Mas em França sempre houve, também, reacções anti-comunitárias.
A tradição francesa de dirigismo económico quadra mal com a concorrência e o mercado único. E o nacionalismo do general de Gaulle provocou, em 1965, a primeira crise grave na CEE, quando recusou votações por maioria no Conselho, já previstas no Tratado de Roma.
A ambivalência francesa não desapareceu. A moeda única europeia foi uma aspiração da França, para se livrar da hegemonia do marco alemão e do Bundesbank. Agora, é um francês, Sarkozy, quem ameaça a credibilidade do euro.
Tal como Ségolène Royale, durante a campanha eleitoral Sarkozy criticou a independência do Banco Central Europeu. O presidente francês quer que os governos da zona euro tenham uma palavra a dizer na fixação das taxas de juro e no câmbio do euro.
Mas a independência do BCE em relação ao poder político é uma garantia, que os alemães não dispensam, de que o euro não perderá valor (através da inflação) por causa do despesismo eleitoralista dos governos. A independência do Bundesbank esteve na base do marco forte. Independente é também a Reserva Federal americana. E a primeira medida de Gordon Brown, como ministro das Finanças, foi em 1997 tornar o Banco de Inglaterra independente do seu próprio governo.
Outra exigência alemã para trocar o marco pelo euro foi obrigar os países a uma disciplina orçamental para entrarem na moeda única, os chamados critérios de Maastricht, e para lá permanecerem, o Pacto de Estabilidade. A própria Alemanha violou depois o Pacto, impunemente, mas agora cumpre as regras. E o Pacto foi há dois anos flexibilizado. Hoje, Sarkozy ameaça dar nova machadada naquela disciplina, não garantindo cumprir o compromisso francês de equilibrar as contas públicas até 2010.
O Presidente francês tem ainda a pretensão, razoável, de criar um “governo económico” na zona euro. Esta ideia, há décadas defendida pela França e consagrada no Tratado de Maastricht, continua por concretizar. Só que o orçamento comunitário (1% do PIB da União) não dá para políticas fiscais compensatórias da política monetária do BCE.
Resta a possibilidade de coordenar as políticas económicas dos governos da zona euro. Mas tal não é compatível com o patriotismo empresarial que anima Sarkozy, defensor dos “campeões nacionais” contra a concorrência, que ele despreza.
E Sarkozy precisa, ainda, de mostrar que o seu protesto contra o BCE não é a habitual desculpa dos políticos: estes não fazem as reformas necessárias e precisam de um bode expiatório para arcar com as culpas do marasmo económico. Aqui, dê-se o benefício da dúvida a Sarkozy. Talvez ele concretize autênticas reformas, o que seria uma novidade em França.
O euro já ultrapassou o dólar na emissão de obrigações nos mercados internacionais. E aumentam as reservas em euros nos bancos centrais. Nem por isso, porém, está assegurado o futuro do euro.
Não é uma moeda popular em vários países que a adoptaram. Na Alemanha há quem levante a hipótese de um regresso ao marco. E algumas economias da zona euro estão a divergir, tornando problemática uma política monetária única. Ou seja, importa ter cuidado com esta jovem moeda, cuidado que não parece existir em Paris.
Para nós, portugueses, acabar o euro seria uma tragédia económica. Não só a nossa dívida externa aumentaria astronomicamente, expressa numa moeda nacional a desvalorizar-se, como perderíamos o actual acesso fácil ao crédito internacional. Voltaríamos ao ciclo das crises cambiais, da inflação e das desvalorizações (sempre um empobrecimento para o país). E perderíamos a disciplina externa para conter o desequilíbrio das contas do Estado, que, em Portugal, sempre existiu em democracia.
Por isso, e porque reduzir o défice orçamental é indispensável para Portugal independentemente das regras do euro, foi positiva a recusa de Teixeira dos Santos de aproveitar o “golpe” de Sarkozy para tentar um calendário mais longo nessa redução.
Francisco Sarsfield Cabral
Jornalista
Obs: divulgue-se.