segunda-feira

Uma simples evocação a Boris Vian no Dia Mundial do livro

Um poeta que até engenheiro era, mas não formado pela Uni. Um escritor sensacional, caótico, nem sempre fácil de seguir, mas sempre desafiante utilizando personagens absurdas em cenários poucos lógicos, como absurdo e ilógico é este nosso miserável tempo. A Espuma dos Dias foi considerada a sua obra-prima, fala-nos do Amor e descreve-nos um mundo sob uma perspectiva distorcida. Quiça denunciando o seu próprio inconformismo. Vian dizia coisas destas: (...) As coisas não são vulgares por serem escritas assim. As pessoas é que são vulgares, não o estilo. E digam lá! As pessoas realmente vulgares nem escrevem assim. Cuidam dos floreados que é uma chatice. Escrevem com lâmpadas no rabo (...)."
Mas talvez o mais interessante em Vian, em nosso entender, é que Boris não era de facto um escritor e tinha sempre inúmeras coisas na cabeça. Sem esta multidão de pensamentos nunca passamos o cabo das tormentas da produção de boas ideias, seja para ensaio, romance, ficção e o mais. De trompetista de bandas jazz (sua grande paixão) a engenheiro, inventor e cenarista, de actor a tradutor, Vian foi esse vulcão de energia e criatividade.
Viveu pouco tempo infelizmente: morreu com apenas 39 anos, mas experimentou um pouco de tudo o que lhe apeteceu. Essa vitalidade, essa vontade de viver, reflectem-se na sua escrita impulsiva e ciclónica, emaranhada em enredos caóticos e sem sequência lógica aparente. Mas também aqui acabou por ser um realista, porque assim é o mundo, hoje cada vez mais povoado de surpresas, contingências e incertezas, e muitas delas são perigosas.
Também aprecio Vian porque não segue as regras, não é um homem by the book, por definição essa "virtude" gera sempre ausência de fulgor e de criatividade. Além de hilariante, essencial em que escreve, perturbava-nos sempre com novas ideias, algumas consensuais, outras perversas, mas também é isso a nossa condição humana. Sempre escreveu o que lhe apeteceu, e isso é crucial, mormente nos nossos dias em que proliferam centenas de blogs por dia Em Portugal, alguns dos quais oferecem alguma mais-valia ao nosso quotidiano. Tal faz-me pensar que blog hoje teria Boris Vian... O que nele escreveria, posto que era um homem impulsivo, sempre grávido de ideias, sempre aflito por partilhar histórias?! O que seria dele se tivesse vivido até aos 90 anos e tivesse 5 mãos...
Depois a sua despreocupação relativamente à forma da escrita, com esses florados da tanga, pois como não era um homem by the book, fez com que muitos anormais o considerassem um louco. Mas a questão é que a sua loucura era como a de Erasmo de Roterdão: uma loucura presciente, antecipatória, prospectiva, crísica, luminosa e profundamente enriquecedora e reflexiva.
Ou seja, a despreocupação de Vian em relação à forma não corresponde, de todo, ao cuidado com que o autor trata o conteúdo, mesmo que este pareça a criação de um louco. Mas se atentarmos bem no nosso mundo, nas condições em que vivemos, trabalhamos e nos relacionamos constataremos que Boris Vian era um sábio disfarçado de louco que sabia bem quão disparatado era o mundo. Muitos dos seus leitores, por falta de massa crítica e até dum esprit inventivo altamente criativo - que só décadas depois consolidaram, não tinham os "filtros" certos e as faculdades intelectuais e culturais necessárias para compreender esse génio do séc. XX. De sempre..
Hoje achei interessante um leitor algures evocar este autor, citando uma passagem em que dizia, mais ou menos isto: ela vai para um lado, ele para outro, mas no final passearam juntos. Infelizmente, as pessoas/leitores hoje amarram-se aos best-sellers que em muitos casos não valem uma fava de bolo rei. Também isto é dramático, não apenas pelo dente partido.
PS: Dedicado à memória de Boris Vian