domingo

Re-Evocação de Raul Brandão (1867-1930)

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Como clássico que é Raul Brandão nunca sai do tempo nem do espaço que habita a nossa circunstância, que é o lugar onde as coisas se desenrolam, como diria Sto Agostinho. 

Numa das passagens de Húmus, Raul Brandão afirma: a vida é fictícia, as palavras perderam a realidade. E no entanto esta vida fictícia é a única que podemos suportar. Estamos aqui como peixes num aquário. E sentindo que há outra vida ao nosso lado, vamos até à cova sem dar por ela. (...) Estamos aqui a representar, remata RB, (Húmus, pág. 15).

No fundo, o autor sabia que construímos realidades paralelas, ao lado da vida real concebemos uma vida real alternativa mas que não pode ser vivida, senão pontualmente, fugazmente. No final, há que fazer a contabilidade do deve e haver dessa complexa conta de somar, subtrair, multiplicar e dividir. 

Em rigor, de que nos valerá fazer afirmações de princípio de que vamos conquistar o céu quando, na prática, não conseguimos usar da liberdade básica que queremos dispor para ser e estar com quem nos apetece. As cerimónias, os hábitos, o status quo acabam por impor o ritmo da vida, seguramente para proteger direitos e interesses adquiridos, não afectar a estabilidade sentimental ou emocional de terceiros.

Aquilo que é verdadeiramente alucinante em Raul Brandão, além da qualidade global da sua obra e enquanto pensador-escritor, é que ele compreendeu com tremenda lucidez que a vida é um simulacro. Parece até que sobre cada um de nós caiu uma camada de pó, como diz (pág. 20), e é isso que paralisa o homem à acção de molde a romper com rotinas, forças e experiências anteriores.

Por outro lado, a obra de Raul Brandão encerra uma outra grande vantagem (hermenêutica ou metodológica), que é a importância que ele concede aos mortos, como se entre os vivos e aqueles houvesse um fio contínuo, inquebrantável; como se os mortos fossem mais vivos do que os vivos, especialmente pela consciência de que o autor tem (à semelhança de Almada..) de que as palavras são ilusórias, vazias de sentido, gastas. E é nessa tomada de consciência que a vida na terra só ganhará algum sentido se olharmos para o céu. Mas também este é inalcançável. 

Em suma: estamos aqui todos à espera da morte!

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