quarta-feira

Aeroporto Internacional da Madeira: do nome e da coisa nomeada

Nota prévia: Todos conhecemos a dificuldade em definir o que é a cultura. Contudo, ela anda associada ao conhecimento, à arte, aos costumes, à lex, aos hábitos e a um conjunto de capacidades e competências que temos em nos adaptar a uma dada sociedade. De facto, capacidade adaptativa o CR/7 tem, mas falta-lhe todas as outras dimensões, apesar de se mostrar sensível a fazer doações para povos em dificuldades, ou, mais pontualmente, ajudar monetariamente crianças com doenças graves. Também aqui há uma dimensão de marketing planetário que o jogador tem sabido aproveitar e capitalizar. 

O que melhor define a cultura portuguesa é, consabidamente, o saudosismo e o fado é, talvez, a dimensão artística e musical que melhor ilustra essa realidade que marca a nossa personalidade colectiva. Alguma personalidade oriundo dessa área, faria jus ao nome do aeroporto internacional da Madeira.

Uma outra vertente ou dimensão da cultura repousa num conjunto de ideias (politicamente relevantes), comportamentos e práticas sociais aprendidos de geração em geração e que se vão integrando nos valores da sociedade, enriquecendo-a. A esta luz, Alberto João Jardim foi aquele que mais se bateu pela criação a autonomia da Madeira (ainda que à custa dos orçamentos nacionais ao longo de décadas); e da sua governação, goste-se ou não dele, os madeirenses viram as suas vidas melhoradas em resultado de décadas de progresso e desenvolvimento e de diminuição da insularidade. 

Pelo que seria mais justo adoptar o seu nome àquela importante infra-estrutura, mas, como sabemos, a política atravessa tudo, por vezes de forma cortante, e as péssimas relações pessoais entre o anterior Presidente do Governo Regional da Madeira e o presidente em funções, Miguel Albuquerque, ajudam a explicar o ponto a que chegámos. Por maioria de razão, João Gonçalves Zarco - até por ter povoado e administrado a ilha - seria uma eficiente opção, em alternativa a João Jardim. Mas a história é o que é, e por vezes sofre dum esquecimento congénito ou duma memória selectiva por parte de quem ocupa o poder a dado momento. 

Em matéria de adaptabilidade, quer João Jardim quer Gonçalves Zarco teriam mais e melhor perfil do que o futebolista que, em rigor, apenas deveria ser comparado com os demais futebolistas para não amalgamar tudo e apoucar as instituições e escavacar o ritmo da história e a própria dimensão da cultura, lato sensu. 

Mas a cultura também é o que é, sub-produto das "elites" que, a dado momento, ocupam o poder e que não hesitam em ceder à tentação da imagem global que CR/7 corporiza, pensando esses agentes políticos que isso dá prestígio, poder e soma influência aos mecanismos decisórios e aos seus promotores. Aqui temos Marcelo, M. Albuquerque e outros players que, assim, um pouco cínicamente, se associam a este tipo de patrocínio um pouco deslocado no baptismo ao aeroporto internacional da Madeira. 


Podemos sempre dizer que o futebolista representa uma das dimensões da cultura, mediante a prática de desporto/futebol de alta competição, e que essa dimensão alcançou uma escala planetária. Mas não podemos esquecer que daí não decorre um conceito de cultura associada a um conceito de desenvolvimento, progresso económico e social, e até disseminar na sociedade novas formas de pensar e de viver inerentes ao desenvolvimento da condição humana.

Em suma: é bom repor as coisas no seu devido lugar. Cristiano Ronaldo dá xutos na bola, com isso ganha milhões, mas daí a empolar esse fenómeno a uma questão de cultura - em sentido amplo - é uma tremendo exagero. É como forçar uma couve a gerar uma rosa. 

Quanto à estátua que lhe fizeram, certamente por maldade (ou incompetência), ela mais parece ter saído do crematório do Alto de São João. Até nisso este episódio de cultura paroquial foi infeliz.

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É uma escolha arriscada, corajosa e excecional"








O Presidente da República considerou, esta quarta-feira, que a atribuição do nome de Cristiano Ronaldo ao aeroporto da Madeira foi uma "escolha arriscada", "corajosa". "É uma escolha excecional para uma personalidade excecional que temos a certeza que nunca nos desiludirá", declarou.
A cerimónia de alteração do nome do aeroporto contou com a presença de centenas de pessoas para "homenagear um concidadão admirado por milhões de portugueses e de estrangeiros", indicou o chefe de Estado.
Marcelo Rebelo de Sousa afirmou que quando "a Região Autónoma da Madeira decidiu dar o nome de Cristiano Ronaldo a este aeroporto, fê-lo pela mão do presidente do Governo Regional, legitimado pelo voto dos madeirenses" e salientou que "o poder político nacional todo ele respeitou essa manifestação de autonomia regional", atendendo à articulação com o "Estado Nação".
O chefe de Estado destacou também que "a excelência alimenta o orgulho nacional", projetando Portugal no mundo, porque Cristiano Ronaldo é "um exemplo", visto que a título individual é o "melhor jogador de futebol do mundo" e a título coletivo é o capitão da seleção nacional que é a campeã da Europa. Marcelo Rebelo de Sousa vincou que Cristiano Ronaldo também "projeta a Madeira e todo o Portugal de longe como mais ninguém nos cinco cantos do universo".
Sobre a escolha do nome, sustentou que "muita gente prefere atribuir a obras desta envergadura o nome de personalidades que já não pertencem ao mundo dos vivos, cujo percurso inteiro pode ser avaliado com distância e menor peso das inclinações de cada momento".
Marcelo Rebelo de Sousa realçou que, neste caso, a escolha foi feita "pelo caráter muitíssimo raro, para não dizer quase único" do internacional português, e sabendo dos "riscos" que a imprevisibilidade do futuro pode trazer. Para o chefe de Estado, esta é uma homenagem merecida e "a gratidão devida, certamente a pensar em duas razões determinantes: a responsabilidade de Cristiano Ronaldo e a confiança ilimitada que a Madeira e todo o Portugal nele depositam".
O Presidente da República considerou ainda que o futebolista é um exemplo para as crianças que "o admiram com gratidão e carinho sem limite, a começar naqueles miúdos que com bolas feitas de pouca coisa jogam nas vielas dos bairros mais pobres e todos eles sonham poderem vir a ser um dia Cristiano Ronaldo".
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