segunda-feira

Cavaco e o seu lugar na história: o trolha ilustrado


Cavaco comportou-se como um trolha ilustrado, que soube construir a casa, mas não a soube mobilar nem decorar... 


Picada aqui

É indiscutível a importância desenvolvimentista de Cavaco na história política dos últimos 30 anos. Primeiro como PM (1985-95), em que obteve duas maiorias absolutas e governou Portugal - essencialmente - como um "trolha ilustrado", ou seja, mandou fazer estradas, hospitais e demais infra-estruturas sociais que eram necessárias ao país e que, de facto, foram realizadas com o dinheiro que jorrava da então CEE. Nesse trajecto, cavaco destruiu a incipiente indústria nacional e exterminou de vez com a frágil frota pesqueira. Em rigor, a sua "ciência" foi utilizar os recursos financeiros provenientes dos Fundos Estruturais e deixar Portugal e os portugueses o país mais atrasado da Europa. 

É, curiosamente, hoje o mesmo cavaco que fala do mar e da afirmação da sua importância e exploração dos seus recursos para projectar a economia do mar e emprestar uma nova imagem de desenvolvimento ao país. Ou seja, se por um lado cavaco ajudou a desenvolver a economia nacional, com ele nascendo uma classe média consumista que passou a passear-se nos hiper-mercados e enriqueceu os Belmiros de Azevedos deste país, ele, por outro lado, também contribuiu para a estagnação, subdesenvolvimento e empobrecimento das pessoas, porquanto não soube apostar numa adequada formação profissional, no ensino politécnico e no ensino superior capaz de fazer a ligação eficiente entre o mundo das empresas e o do ensino e da investigação a fim de por a eceonomia a crescer e, assim, gerar riqueza, emprego e prosperidade. 

Nesse capítulo, cavaco comportou-se como o trolha que construiu bem o edifício, mas não o soube mobilar nem decorar. Não bastava fazer roteiros temáticos e escrever memórias (que ninguém vai ler) e passear pelo Portugal profundo... Assim  era fácil ser PM em Portugal, aplicando os milhões de €uros que entravam no Terreiro do Paço via Bruxelas, e não por um qualquer esforço ou habilidade orçamental e/ou visão estratégica para desenvolver Portugal que, em rigor, Cavaco nunca teve para o país. E a prova disso é que, volvidos mais de 30 anos em que este titular ocupou os mais elevados lugares no aparelho de Estado - Portugal se encontra como o conhecemos: deficitário em todos os indicadores sociais e de desenvolvimento. A cavaco se deve isso, em larga medida. 

Como PR a desgraça social, política e institucional de cavaco agravou-se diante um país que só o queria ver pelas costas. 

- Violou grosseiramente a Constituição que jurou defender, pondo-se do lado do psd, seu partido de sempre, em vez de assegurar a imparcialidade e isenção no jogo político presidindo à república em nome de todos os portugueses; 
- Condicionou o estatuto dos Açores; 
- Não vetou leis que eram inconstitucionais, sobretudo com impacto social grave e que fez disparar a pobreza, a criminalidade e até a emigração (que não foi apenas "obra" do governo de Passos);
- Alheou-se da defesa dos portugueses sem voz, pondo-se do lado do banqueiro, Ricardo Salgado (do BES), de quem foi amigo e beneficiou sempre dos seus apoios financeiros em contexto de campanhas eleitorais; 
- Protegeu a alta corrupção praticada no BPN, de que tinha acções e uma rede de relações pessoais que serviram, essencialmente, para financiar o psd e colocar boys na Administração e fazer negociatas para enriquecer os seus amigos, em que pontifica um seu ex-conselheiro de Estado, dias loreiro, e assim lesar seriamente os interesses do Estado. 

As tropelias que cavaco fez à República, que desconsiderou ao não a representar por ocasião do 5 de Outubro, e aos portugueses foram tantas e de tamanha gravidade que foi a Mãe-Natureza que se foi encarregando de o crucificar e envergonhar diante da opinião pública (e publicada): primeiro desmaiou em público, em Elvas, doença a que os experts designaram de "reacção vagal"; depois, cavaco foi o PR com menos aceitação e de capital de simpatia pelos portugueses do pós-25 de Abril. 

Nem Américo de Tomás foi tão mau...

Tornou-se aquilo que sempre foi: um ser tão arrogante quanto tímido, inculto, impreparado para o diálogo que é a essência da democracia pluralista, verdadeiramente alheado dos problemas dos portugueses, doutro modo uma pessoa com bom senso, que aufere 10-12 mil €uros mês não diz em público que a sua reforma mal chega para pagar as despesas lá de casa... Nem um trolha diz isso!!!

Além da impreparação, ser inculto é também arrogante. O que fica mal a uma pessoa de origens sociais muito humildes, pois importa recordar que cavaco é filho de um gasolineiro algarvio que, malgré tout, soube ser e ter o common sense que o filho nunca teve. 

Por estas razões e factos, conhecidos de todos, é que estou plenamente convencido de que a história terá uma certa duplicidade em julgar cavaco e em o arrumar num dos capítulos da história política contemporânea: por um lado, como PM, contribuiu para desenvolver o país, subtraindo-o à ruralidade e ao marasmo em que Portugal se encontrava nos anos 80 do séc. XX; por outro, foi o mesmo cavaco que - por força da sua ideologia, preconceito e alinhamento partidário, que travou o desenvolvimento de Portugal e dos portugueses, o que explica o défice a múltiplos níveis em que a economia e a sociedade portuguesas ainda hoje se encontram. 

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