quinta-feira

Reformar o "Deus mortal" - por Viriato Soromenho Marques -


VIRIATO SOROMENHO-MARQUES
Era assim que Hobbes chamava ao Estado: o "Deus mortal" (mortal God). Deus, porque só o Estado permite aos homens, frágeis e efémeros na sua solidão individual, reunirem as suas energias numa sociedade civilizada. Mortal, pois o Estado é obra humana e imperfeita, condenada, pela lei invencível da vida, a perecer. Quarenta anos depois, a nossa III República - o primeiro regime em quase seis séculos (de 1415 a 1974) a ser erguido num país despido de império - agoniza numa espécie de senilidade precoce. A miséria moral, que o poder judicial vai destapando, enquanto o deixarem trabalhar com alguma liberdade e no quadro da sempre débil separação de poderes, é apenas o reflexo da miséria política que se vem arrastando desde há pelo menos duas décadas. Portugal apostou tudo numa via europeia, movido por uma fé irracional e sem precaver um cenário de recuo. Fê-lo, citando Maurice Duverger, como um país que quisesse assegurar a sua reforma.[...]

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Obs: Medite-se no poderoso legado de Hobbes - aqui ressaltado por Soromonho Marques - e na importância mais contemporânea de Duverger, que ora partiu. O problema nacional, em larga medida, encontra-se no núcleo da própria classe política e, dentro desta, na impreparação cíclica do escol dirigente que, a cada momento, ocupar o poder (inúmeras vezes apenas com um projecto de poder pelo poder, mas sem um projecto para o país e uma ideia reformista de Estado) e, por outro lado, na desorganização económica e num fraco empresariado que ainda vive demasiado encostado ao Estado, esperando que este se solidarize com ele em detrimento dos funcionários do Estado e dos quadros e trabalhadores do sector privado. Se a este duplo défice somarmos a fragmentação do projecto europeu, pelo directório e hegemonia alemã, identificamos o quadro político e mental da nossa própria regressão, decadência e caminho antecipado para a extrema dependência.

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