quinta-feira

Breve nota sobre Maurice Duverger

Devo boa parte da minha formação académica a este autor maior das ciências políticas, intelectual de largo espectro cultural, científico e analítico. Postulava que a essência da política, a sua natureza e o seu efectivo significado é ser sempre, e em todo o lado, ambivalente. Daqui decorre a imagem de Jano, esse deus de duas faces encarnando a verdadeira representação dual do Estado. Aquilo que, no plano interpessoal, se pode designar de pura hipocrisia, e destes, dos hipócritas - se diz que pretendem estar de bem com deus e com o diabo. E é nesta dualidade que radica a política, atenta a sua natureza e alcance global. 
O Estado, de modo geral, visto como o poder instituído numa sociedade, é sempre, e em todo o lado, simultaneamente, instrumento de dominação de certas classes sobre outras, utilizado pelas primeiras em seu proveito e em detrimento das segundas, e um meio de garantir uma certa ordem social, uma certa integração de todos na colectividade, tendo em vista o bem comum. 
Estes dois elementos, dominantes e dominados, cuja proporção é variável consoante as épocas, as circunstâncias e os países, coexistem sempre na acção política. E aqui a análise marxista, ainda que não resolva o problema da explicação latente na complexidade social da contemporaneidade, constitui um paradigma importante a ter em linha de conta. Aliás, as tensões entre a luta e a integração são complexas, e toda a contestação da ordem social existente é a imagem e projecto duma ordem superior. Toda a luta é portadora de um sonho de integração numa outra ordem social, que se julga menos imperfeita. 
O exemplo da desconvocação da greve da TAP veio revelar que, nessa luta entre os 12 sindicatos que integravam a plataforma sindical que estava em desacordo com o governo acerca do modo como governar a empresa e traçar para ela o seu rumo próximo - o Estado conseguiu partir a espinha a essa plataforma sindical, colocando nove deles fora desse compromisso sindical, circunstância que deu ao governo uma condição de vantagem negocial para levar por diante o seu objectivo estratégico: partir a espinha aos sindicatos do sector e dar início ao processo de privatização da empresa a 66% de molde a que o Estado, embora imponha um caderno de encargos às entidades que se apresentem a concurso da privatização, se retire da gestão de custos da empresa que hoje é deficitária por manifestos erros de gestão da administração, e de decisões que esta erradamente tomou e que comprometeu o futuro da principal empresa-bandeira de Portugal. 
Vem isto a propósito duma singela evocação de um grande maitre à penser que faleceu, e, de caminho, com este simples exemplo do sector dos transportes aéreos portugueses que entraram em turbulência nas últimas semanas, explicitar como  a lógica da luta e integração não são - como parece - duas faces contrapostas, mas sim um único e mesmo processo de conjunto, do qual resulta uma natural integração, tendendo os antagonismos, pelo seu próprio desenvolvimento, para a supressão dos contrários e a emergência de uma situação mais vantajosa para todos. 
Veremos se no caso da TAP isso se verificará, embora aqui o que se pretenda sublinhar é a importância fecunda de um eminente académico que deixa uma obra brutal entre nós. Uma obra que contém em si os germens da sua própria renovação. 

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