segunda-feira

Eduardo Lourenço fala-nos da invasão de VAMPIROS

Nota prévia: Eduardo Lourenço é um dos únicos ensaístas, pensadores e filósofos portugueses vivos do nosso tempo. Conhece, como ninguém, o mundo que o rodeia, insere nele o Portugal do seu tempo nesta Europa miserável e extrai a conclusão que se impõe: somos governados por vampiros. Diz depois umas verdades sobre a espécie de "comentadeiros" que hoje vão fazer análise às TVs, alguns dos quais são verdadeiramente deprimentes - quer na linguagem utilizada, quer nas conclusões a que chegam. Aliás, esse filão foi, com mais propriedade intelectual desenvolvido por Jean Baudrillard - que explicou com mais sofisticação o mundo do simulacro em que vivemos, e de como a virtualidade é hoje mais relevante do que a própria realidade. Como nota final, e dentro da linha de pensamento português, alinharia aqui - ao lado de Eduardo Lourenço - uma obra pequena, mas relevante de José Gil, Portugal, Hoje, O Medo de existir.  

Eduardo Lourenço: «Fomos invadidos por uma espécie de vampiros»

O ensaísta Eduardo Lourenço disse hoje que houve uma invasão por «uma espécie de vampiros», que são quem controla o sistema inventado pela modernidade, vivendo-se agora um «apocalipse indireto» em «estado de guerra permanente».


O autor, que disse não acreditar que o tempo desta «espécie de submissão mansa» vá perdurar, ressalvou não querer contribuir para algo como uma «depressão de segundo grau, por conta dos outros».
«Não sei se é um comportamento muito português dormir em cima daquilo que nos ameaça profundamente e nos põe problemas que não podemos resolver esperando que, com o tempo, com um pouco de sorte, acabemos por sair desta espécie de atoleiro em que estamos mergulhados», acrescentou.
«Os vampiros não são tão vampiros como isso, são pessoas reais. São as pessoas que controlam o sistema que a modernidade foi inventando pouco a pouco, com os seus novos meios de produção, que aumentaram efetivamente de maneira fantástica a possibilidade que os homens têm de aceder a um certo número de coisas que são importantes», disse Eduardo Lourenço, já em resposta a questões do público.
O autor declarou que a televisão é hoje «o objeto mais importante», tendo o «espaço público desaparecido», o que deu origem a um momento em que «tudo se passa na televisão, as intervenções dos comentadores na televisão são mais importantes do que a realidade».
Eduardo Lourenço lamentou que a política já não seja uma «política real».
«Passámos […] para um tempo em que aparentemente as guerras já não têm lugar ou são guerras de uma outra espécie, são quase guerras virtuais como se fossem cinema puro, embora os mortos não sejam cinema nenhum. Passámos para um tempo em que estamos - não parece à primeira vista - num mundo em estado de guerra permanente no interior do sistema, não há nenhuma grande produção que não esteja em guerra com uma outra ao lado», afirmou o vencedor do prémio Camões de 1996.
Eduardo Lourenço disse ainda não pensar nada sobre o futuro, uma vez que «se pensasse no futuro era o dono do futuro».
Assim, o ensaísta, que constatou saber o que é estar «à beira do abismo» por estar próximo do seu próprio, apelou a que se tenha paciência, antes de entrar «enfim na terra da promissão».
A 15.ª edição do festival literário Correntes d´Escritas decorre entre hoje e sábado.
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Obs: Medite-se naquilo que já todos sabemos. 
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