segunda-feira

Da (i)responsabilidade e da patologia política em Passos Coelho



Ontem, estupefacto, o país deparou-se com uma tirada do alegado PM, Passos Coelho, mais uma segundo a qual a culpa não pode morrer solteira, reportando-se, obviamente ao seu predecessor, José Sócrates agora detido. 

Isto dito por um PM que tem problemas com a Justiça, que nunca foram aprofundados e esclarecidos é, no mínimo, tão estranho quanto caricato. Passos está envolvido num caso de "sacagem" de fundos comunitários para uma empresa - a Tecnoforma - para a qual trabalhava e que lhe pagava um vencimento (alegadamente de cinco mil €uros/mês) enquanto aquele era deputado em exclusividade de funções.

Portanto, Passos Coelho tem um passado político de obscura legalidade e lamentável imoralidade, mas arroga-se o direito de fazer aquele tipo de comentários. Isto diz bem do que é a sua forma de ser e estar na vida pública. Além disso, da sua desgovernação o endividamento do país subiu 30%, a pobreza agravou-se entre os portugueses, o desemprego subiu em flecha, a classe média foi literalmente trucidada pela carga fiscal que impôs aos portugueses, etc, etc... O país, no seu conjunto, empobreceu estruturalmente. A culpa, nestes últimos 4 anos de desgovernação é, "obviamente", do engº Sócrates!!! 

Não houve uma única política pública do XIX Governo Constitucional que mereça nota de crédito diante dos portugueses. Tudo foi péssimo desde 2011, porque tudo se agravou desde então: preços dos bens e serviços, qualidade de vida, criação de oportunidades, as falências das empresas sucederam-se, a qualidade dos serviços de saúde e de educação pioraram. O Estado-social foi-se esboroando, deliberadamente, uma acção que tem sido conduzida por uma obsessão com a ideologia ultra-liberal e com a forma de organizar a economia e a sociedade. No plano político, funcionam as vendettas pessoais, e é só nesse plano que devem ser lidas as declarações de Passos Coelho quando afirma que a culpa (até 2011) não deve morrer solteira.

Passos Coelho esquece-se do essencial: ele ganhou as eleições legislativas em 2011, e é PM desde então. À sua disposição tem todas as alavancas do poder para mudar o país: por a economia a crescer, modernizar o Estado, aliviar a carga fiscal às empresas e às famílias, adoptar políticas públicas realistas e úteis ao bem comum, utilização mais racional dos fundos comunitários, etc. Sucede, porém, que Passos Coelho não tem conseguido fazer nada disso. A sua noção de responsabilidade política está, obsessivamente, virada para o passado de Sócrates querendo, com isso, atingir a actual liderança do PS, que sobe nas intenções de voto, conduzida por António Costa. 

Aquela sua preocupação revela, afinal, e mesmo com o seu predecessor preso em Évora, que Coelho tem medo do presente e do futuro. O seu MEDO é duplo: um medo interno à coligação, que emana da autonomia e do erratismo político de Paulo Portas; e medo dum PS que se está a consolidar na sociedade portuguesa e começa a ser percepcionado perante os eleitores como uma credível alternativa democrática e de governo. É disto que Passos Coelho tem medo.

Mas Passos Coelho também tem um outro medo: o de, quando for corrido do poder, já em 2015, lhe suceder o que aconteceu a Sócrates, e em que o aparelho de Justiça, algo politizado e corporativamente instrumentalizado, poderá querer aprofundar certas ligações decorrentes da confusão da política com os negócios (e a que Miguel Relvas sempre esteve demasiado associado e exposto!!!), desenvolver investigações que ficaram subitamente congeladas e, quem sabe, conhecer idêntico destino aquele que o ex-PM está a sofrer, ainda sem culpa formada e sendo diariamente prejudicado pelas múltiplas fugas de informação e de violação ao segredo de justiça, que é crime. 

Um crime a que, curiosamente, a titular da pasta da Justiça nada quer fazer... Percebe-se porquê, neste jogo de dissimulações em que hoje vegeta a sociedade política portuguesa. Mas é assim que Sócrates, detido, está a ser julgado na praça pública, atingindo diariamente pelas fugas de informação e pela violação sistemática ao segredo de justiça, que deveria ser o guardião das informações contidas no processo. Até porque ainda nem sequer houve possibilidade de defesa do detido e deste desenvolver o contraditório. 

Até nisto a actuação do alegado PM é miserável, ou seja, Passos Coelho devia de ir mais além na sua deficiente noção de responsabilidade retrospectiva, uma vez que já é PM de Portugal há 4 anos. Não obstante isso, não consegue delinear um conceito de responsabilidade orientada para o futuro, como responsabilidade de prevenção dos problemas, de antevisão e de configuração. 

Aquilo que preocupa Passos Coelho, em cada comício que faz e onde é vaiado, em cada recanto do Portugal-profundo, como o era o seu amigo dr. Relvas (que foi obrigado a demitir-se!!), é garantir-se que a culpa da governação de Sócrates, até 2011, não vai morrer solteira, e o facto deste estar detido preventivamente também não será suficiente para que o MEDO de Coelho se dissolva no tempo político que tem pela frente. Pois Coelho quer que Sócrates fique preso eternamente, porque assim, no seu miserável juízo de politiqueiro de subúrbio, ele conseguirá colar ao PS de António Costa os alegados crimes de que aquele é acusado, o que facilitaria a sua perpetuação no poder a partir de 2015, segundo a sua percepção.

Eis a forma mentis doentia, obcecada e completamente patológica de um agente político para quem o importante para Portugal não é a definição de boas políticas públicas para responder aos problemas colectivos, mas certificar-se de que com Sócrates na cadeia por mais uns anos - o seu futuro político, quiça ao lado de Portas, estaria assegurado!!! Belém também daria (mais) uma ajudinha na consolidação desse cenário miserabilista do Portugal pós-modernaço. 

Isto não representa apenas o cúmulo da irresponsabilidade política, é, acima de tudo, a denegação da própria responsabilidade e sanidade mental para se estar à frente de uma qualquer instituição onde quer que seja

Em rigor, há gente em Portugal que tem medo e sabe, de antemão, que a cadeia de Évora ainda pode ser o espaço de luxo para albergar mais quadros políticos quando estes cessarem funções.

Viver com este MEDO deve ser terrível!!! E admiti-lo em afirmações públicas é já o sintoma desse reconhecimento. 

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