terça-feira

Gaspar associa saída do Governo a Paulo Portas

"A capacidade de julgamento do negociador português e a sua autoridade foram claramente postos em dúvida" com o adiamento da 7ª avaliação. Vítor Gaspar diz que "não podia continuar nesse papel". Sem nunca criticar diretamente Paulo Portas, com quem diz ter uma boa relação pessoal, e sem querer contar o que se passou ente ambos - "pode-me perguntar 500 vezes que não vai ter uma resposta " -, o ex-ministro refere-se ao atual vice primeiro-ministro como um político "paradigmático".
Gaspar define o paradigma do político - "procurar chegar ao poder e mantê-lo". "Eu estava mais preocupado com a manutenção da credibilidade externa", diz. Nunca assume que a sua política estava errada - "Não usaria a expressão engano, nem a expressão erro" - apenas que não conseguiu os objetivos que se tinha proposto alcançar no que toca as metas do défice para 2011 e 2012. Mas nada que o impeça de concluir: "o Programa de Ajustamento português, de modo geral, foi, em meu entender, muito bem sucedido".
A ideia da TSU foi sua - "o autor da medida fui eu" - em partilha com Maria Luís Albuquerque. O ex-ministro das Finanças diz que a sua sucessora "é única" - "alguém que combina uma grande determinação e capacidade profissional com uma capacidade de comunicação convicta e de empatia. Na minha perspetiva, esta combinacao torna-a única".
Gaspar também elogia abundamente as qualidades de liderança do primeiro-ministro, a quem conta ter mostrado a carta de demissão antes de a tornar pública.
O livro, que será apresentado em Lisboa, no dia 18, pelo socialista António Vitorino, é prefaciado pelo presidente do Tribunal de Contas. Guilherme de Oliveira Martins diz tratar-se de "um testemunho necessário" sobre o período que antecedeu e traduziu o essencial do resgate português.
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Obs: Em meados do verão de 2013 tornou-se por demais evidente que se estava a abrir uma cisão na estrutura de comando do governo que fazia perigar a sua hierarquia, não direi autoridade .., porque o XIX Governo (in)Constitucional tem vindo a perder esse ingrediente do poder que, em condições normais, assentaria em políticas públicas assertivas, justas e amigas do cidadão/contribuinte, que é o que não tem acontecido desde 2011.
Por outro lado, tornou-se igualmente evidente que Passos Coelho já não conseguia acomodar "dois galos na mesma capoeira", visto que o espaço vital de que o governo dispunha para planear e executar políticas públicas impostas pela troika (no quadro das sucessivas avaliações) era escasso, portanto ou saía Gaspar ou Portas, ou saíam ambos. 
E foi neste psicodrama em que Portas apostou, jogando o "tudo ou nada", posto que a sua saída foi táctica, instrumental e nada genuína como, de resto, tudo aquilo que emana do ex-director do Indy. Ou seja, Portas ao aperceber-se da demissão de Gaspar - faz o seu role playing e demite-se também, com isso ganha espaço político em resultado da sua dramaticidade junto do PM para que este o convide para um cargo de maior relevo no aparelho de Estado. Foi o que sucedeu: Portas cavalgou a onda da abrangente área da Economia (nomeando o seu amigo de sempre, Pires de Lima -  o qual se revelou um soldadinho de chumbo), se bem que, na prática, agora como vice-PM - é ele  quem faz Diplomacia económica na esfera das relações internacionais.
É Portas que vai à China e leva consigo os empresários e as empresas portuguesas; é Portas quem aparece nas negociações com os chineses na fabulosa privatização parcial da EDP; é Portas quem apresenta o pacote dos Golden visa para atrair IDE de gama alta; Portas é, de facto, quem representa externamente o Estado português perante um primeiro ministro nominal (Passos coelho) cada vez mais residual, frágil e apagado, até para defender aquele de quem fora sempre mais próximo e confidente: Vitor Gaspar.
Numa palavra: Portas faz xeque-mate a Passos Coelho, e o mais grave é que o fez lançando a economia nacional numa perda de milhões de euros pela crise de confiança gerada nos mercados financeiros por aquela "irrevogável" demissão em que o seu autor, de forma tão deprimente quanto lamentável, coloca o seu interesse pessoal acima do national interest e, por outro lado, não hesita em pretender alargar a sua quota de poder na composição governamental dessa arrastadeira liderada pela coligação do centro-direita mais contra-natura desde o 25 de Abril. 
A esta luz, talvez faça sentido as palavras de Gaspar quando afirmava ser Portas um político paradigmático, embora o que ele quisesse verdadeiramente afirmar era algo diverso. Bem diverso... 


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