sábado

Cavaco: o grande (di)simulador ressentido

O drama de Cavaco reside em não estar a conseguir impor Manuela Ferreira Leite a S. Bento. Cavaco, no decurso do último ano, tem apostado todos os seus recursos pessoais e políticos em ajudar a líder da oposição, sua ex-pupila, a ganhar alguma relevância política nacional capaz de ombrear com Sócrates na disputa pelo cadeirão de S. Bento. No fundo, Cavaco, ao fazer o que faz, ainda que de forma dissimulada, espelha o sonho político da sua vida: ser PR e, ao mesmo tempo, ter em S. Bento alguém teleguiado por si, no caso Manuela Ferreira Leite, que sabe de finanças e mal, a avaliar pelos dislates que vai cometendo ao falar de impostos e quando tenta dissertar sobre política geral.
É obvio que Cavaco denega estes factos, a fim de projectar uma imagem política que Ferreira Leite que, de facto, ela não tem. Mas Cavaco, como se vê mesmo em campanha eleitoral, não desiste de a ajudar. Como?! Inscrevendo temas-quentes na agenda político-mediática capaz de chamar a atenção da opinião pública e que sirva, ao mesmo tempo, para dramatizar e vitimizar a figura do Chefe de Estado – que agora, alegadamente, anda a ser espiado por um pobre assessor de Sócrates que se sentou à mesa por ocasião duma deslocação oficial de Cavaco à Madeira. Aí sim, vigora uma democracia musculada onde impera a vontade soberana de Alberto João, que viola todas as regras concursais em matéria de adjudicação de obras públicas preterindo, desse modo, todas as empresas que não contribuam para os cofres do PSD do Alberto João.
Ao denegar a realidade, Cavaco visa manter o poder que tem de forma oculta, a ilusão faz o resto. No fundo, Cavaco recorre à insinuação em contexto eleitoral para tirar votos ao PS de Sócrates procurando transferi-los para o decadente PSD da sua amiga Ferreira Leite.
Cavaco diz que faz silêncio sobre a questão das escutas, que já tem um ano, mas não desiste de, cirurgicamente, fazer o seu enunciado público, conhecendo-se agora que foi o seu assessor, Fernando Lima, quem esteve na origem dessa fuga de Belém.
Este método da insinuação de fazer política é lamentável, evolui para a própria mentira política e para a falsificação dos factos e das evidências, procedimentos que Cavaco bem conhece quando foi PM durante uma década, e em que Portugal viveu o tempo das "vacas gordas". Então, sim, era fácil governar. E foi assim que Cavaco efectivamente governou, com a ajuda preciosa dos milhões de euros que cá chegava por dia de Bruxelas.
Em rigor, Cavaco está ressentido pela derrota humilhante que sofreu por ocasião do célebre Estatuto dos Açores, em que era suposto o PR ter enviado o documento para o Tribunal Constitucional e aí serem expurgadas as alegadas normas inconstitucionais, e não mandar do pobre jornalista e seu assessor, Fernando Lima, fazer fugas de informação para o Público do Sr. Fernandes, o único que teve acesso a essa informação.
Um Cavaco ressentido e humilhado politicamente tem como resultado um Cavaco dramático, simulador, agitando o papão da perseguição política assente nas alegadas escutas que ninguém conhece. Nem o SIS que era suposto informar o PM e o PR, mas parece que nem o SIS sabe dessas alegadas escutas, só na cabeça delirante de Cavaco e, pelos vistos, do jornalista da Sonae, o Sr. Zé Fernades. Aqui a sincronia parece ser grande.
Com isto fica provado como funciona a psique política de Cavaco: engendra relações insólitas, paradoxais, perversas, que tendem a dominar a agenda mediática, e por via dela tenta condicionar o próprio funcionamento do sistema político-partidário a fim de ajudar a sua amiga Manuela Ferreira Leite a ser alguém na vida pública nacional. Não o conseguirá.
Infelizmente, é assim que Cavaco hoje preside ao país, criando ilusões nos portugueses, mistificando assuntos sérios em chicana política, prolongando falsas questões alegadamente inventadas no seio do Palácio de Belém, como o DN ontem provou. Tudo isto mistura realidade com fantasia, o que são desejos políticos pessoais (eleger Ferreira Leite a PM) com intenções e mentiras, tudo para fragilizar Sócrates numa guerra surda que já dura há uns largos meses, e que se agravou substancialmente após a polémica em torno do Estatuto dos Açores.
Com isto Cavaco perde o prestígio que tinha, e muitos dos portugueses que nele votaram pela imagem de seriedade que antes apresentava anda hoje pelas ruas da amargura. Conheço dezenas de pessoas que pensam como eu, as mesmas que não votariam Cavaco para Belém numas próximas eleições presidenciais. Pela simples razão de que Cavaco tem vindo a violar sistematicamente os princípios e os valores (da insenção e da imparcialidade) que jurou defender quando foi designado PR. Cavaco não é, definitivamente, o presidente de todos os portugueses, mas é, seguramente, o presidente e amiguinho da Srª Ferreira Leite, que é o maior acidente político pós-25 de Abril que assaltou o partido fundado por Francisco Sá Carneiro.
E isto já não é só dramático, é também trágico.
A GRANDE QUESTÃO NÃO É SABER SE CAVACO SE RECANDIDATA A BELÉM, MAS DETERMINAR A FORMA COMO SÓCRATES O IRÁ AJUDAR A TERMINAR O ACTUAL MANDATO COM UM PINGO DE VERGONHA. OU MELHOR, SEM VERGONHA.
Imagem Jumento