domingo

A mentira da mentira. O peso da consciência, a denúncia das emoções. Evocação de Frederico Nietzsche e Swift

Nota prévia: O título deste post é nosso
O casal McCann está a equacionar a possibilidade de regressar a Inglaterra. Segundo o porta-voz, o casal quer limpar a sua imagem apesar de não terem sido acusados de qualquer crime. Ainda assim, adiantou o reverendo Hubdard, Gerry e Kate não querem deixar Portugal sem a filha Madeleine. [... in tsf]

Obs:

Ao nível do sistema de condutas e de comportamentos o casal Macann sempre me pareceu demasiado calculista, contido e frio para a natureza do problema que vivem. Para quem não dispunha de mais informação e está em casa a ver a cara deles prestando declarações aos media, julgava estar a ver agentes contidos a sopesar cada palavra para não ser "agarrado" nas malhas da Verdade. Eram, pois, Pais cirúrgicamente contidos, e a tese da PJ de que algo errado fizeram e escapou ao seu domínio que apontava para a ideia de que eles encobriram o corpo da menina até encontrarem a racionalização de toda a história do rapto e de o mesmo ser associado à pedofilia (de que nunca mais ninguém falou) foi um passo. A ter algum fundamento, pode bem ser isto que se passou.

Mas isto envolve um problema mais complexo que é a da mentira, um problema clássico na filosofia. E se há momentos em que dizemos a verdade não é certamente porque Deus nos proibiu de dizer a verdade, mas apenas porque é mais cómodo dizê-la. Porém, outras circunstâncias há em que a mentira é chamada à pedra e aí faz o seu trajecto tentando o ocultar vontades, acções - que, por vezes, configuram crimes. Ora, como já dizia o velhinho Swift: Quem conta uma mentira raramente se apercebe do pesado fardo que toma sobre si; é que, para manter uma mentira, tem de inventar outras vinte.

O que me faz lembrar um "amigo" que dizia a todos quantos conhecia que era Diplomata, e quando esgotava o leque de tretas vinha perguntar aos verdadeiros amigos que "petas" mais deveria meter para sustentar a peta inicial. A dada altura fica-se prisioneiro das estórias que se contam... Mas isso acaba por ser um modus vivendi (doentio), e depois não se consegue viver doutra maneira, e vive-se enredado nas petas que se vão tecendo a teia, e a cada hora, a cada minuto e em quase todas as circunstâncias de vida a teia vai alastrado, até que acaba por tolher os movimentos do seu próprio fautor. É como se fosse uma droga, que vai matando aos poucos..

No caso vertente, em que os pais da criança foram constituídos arguídos e o peso da responsabilidade (e da culpa) sobre eles aumenta exponencialmente, tal circunstância exigiria que permanecessem em Portugal. Por não deixa de ser contraditório o seu desejo de regressar ao seu País, logo agora (o que até poderá prejudicar as investigações da PJ). Quando o podiam fazer em condições "mais limpas" e folgadas não o fizeram - nessa fase andavam por aí arranjando apoios, conquistando almas, visitando o Papa como se fossem mártires vivos, hoje que a alegada verdade começa a ganhar cor a definição resolvem abandonar o país onde o alegado crime foi praticado.

Para sermos cínicos, porque aqui não há espaço para mais (pena tenho eu da Madeleine que já cá não está, mas também me preocupa o Rui Pedro e de outros como ele, esses sim raptados para o crime e as redes da pedofilia) diria que hoje os pais de Mad partiram para o seu País porque foram em busca do verdadeiro assassino. E como descobriram onde ele se encontra, é para lá que vão...

Por vezes, os homens são como as crianças, dizem sempre aquilo que corresponde ao seu interesse. Neste caso a rejeição da mentira, ou mesmo a sua repulsa não tem lugar. São completamente indiferentes, mesmo estando em causa uma vida duma criança inocente, daí o recurso à mentira com toda a inocência. Daí também o recordar de Nietzsche - neste Humano, Demasiado Humano.

Por outro lado, também não esqueço que o homem só fala verdade em três circunstâncias: quando é criança, quando está em guerra e quando está alcoolizado. Mas neste caso a doutrina sofre um rombo, e assim teremos de ser suplementarmente cautelosos e prudentes, e a PJ e as autoridades portuguesas jamais deveriam aceitar este regresso dos pais da menina ao seu país, até para proteger as provas que estão em processo de definição nesta teia de mentiras.

Porque o que se está a passar é demasiado óbvio para ser verdade. Poderá muito bem ser um crime em directo com o mundo inteiro, sob os seus olhos, a sua cumplicidade, e, agora, veremos como é que o mundo os vai esmagar através da sua opinião diária.

Isto já não é um crime acidental, a serem provadas as alegadas hipóteses que estão sobre a mesa (e que me parecem verosímeis), isto já se tornou num problema filosófico, portanto há já aqui uma metafísica do crime que está em andamento e que urge pôr travão sem qualquer receio de problemas ou incidentes diplomáticas entre Portugal e o Reino Unido. E creio que, nesta fase, é esso tipo de considerações que estão a ser praticadas, ainda que de forma não negociada ou implícita, tamanha foi sempre a pressão das autoridades diplomáticas do RU junto das autoridades de investigação portuguesas.