quarta-feira

Le style est l´homme - por Vasco Graça Moura -; Olhe que não, olhe que não...

O tempo que Vasco Graça Moura perde a desmontar os argumentos falaciosos de um Zaramago que vive, como narciso, prisioneiro do seu próprio sucessosinho nobilizado. Tanto latim para furar o balão... Mas Vasco é um intelectual denso, e mesmo podendo-se discordar dele em inúmeros aspectos, valerá sempre a pena lê-lo. É um exercício de razão ainda que o objecto seja um absurdo***
LE STYLE EST L'HOMME'
Vasco Graça Moura

escritor
José Saramago propôs recentemente uma união política entre Portugal e Espanha. Não é por considerar que não temos uma identidade nacional, com todos os seus traços característicos no espaço e no tempo, como a história, a geografia, a língua, a cultura, as tradições, a consciência colectiva. Ele mesmo diz que manteríamos todas as nossas especificidades, ressalvadas as alterações decorrentes dos aspectos políticos envolvidos por essa união.
Não é por se filiar no iberismo mais do que ultrapassado do século XIX, e muito menos por nostalgia das veleidades alimentadas pelas coroas de Portugal e da Espanha, entre finais do século XV e meados do século XVI, de cada um dos reinos anexar o outro em razão de alianças matrimoniais com vocação para a sucessão dinástica. Nada disto o impressiona e, que eu saiba, não é entusiasta da dinastia filipina.
Não é por entender que somos mais fracos, mais pequenos, mais pobres, mais atrasados e mais incultos. Se fosse, teríamos de sustentar uma concepção darwiniana baseada na dominação do forte e do poderoso, como facto consumado, sobre o fraco e o desprotegido. Mas isto estaria em flagrante contradição com as posições políticas que ele tem tomado em relação a Cuba, à Palestina, às ex-colónias, etc., etc.
Não é por propugnar um capitalismo apátrida, para o qual não existem povos nem fronteiras, mas apenas lugares onde a mão-de-obra é mais barata e para onde tende a alastrar uma maior exploração dos trabalhadores, com fins de lucro ganancioso por parte das multinacionais intervenientes no processo. Sempre foi contra isso.
Não é por pretender legitimar que o capitalismo e o patronato espanhóis tomem conta de Portugal. Teria perdido a lucidez, se o fizesse.
Não é por uma questão de modelo político-constitucional. Que se saiba, Saramago não é monárquico, sendo a Espanha uma monarquia hereditária, e nunca se apresentou como defensor de um, nesse caso, inevitável centralismo madrileno.
Não é por ser partidário das democracias representativas de modelo europeu ocidental de que tanto Portugal como a Espanha são exemplos bem sucedidos. Nunca o foi.
Não é por apoiar a nossa integração na Europa. Até publicou A Jangada de Pedra quando Portugal e a Espanha aderiram à Comunidade Europeia, para acentuar a sua concepção de um destino terceiro-mundista para os dois países ibéricos.
Não é por estar de acordo com a livre circulação de pessoas, bens e serviços no espaço europeu, nem por se identificar com o modelo da União Europeia, quer na forma actual, quer na forma federal, quer na de uma Europa das regiões governada por Bruxelas em última instância. Nunca divergiu das posições do PCP em tais matérias.
Não é por pensar a sério que Espanha e Portugal, juntos, fariam uma unidade política mais forte no plano internacional. Perderíamos no equilíbrio entre os dois países e ficaríamos diluídos e diminuídos nas instâncias europeias. O peso da Espanha seria reforçado e o de Portugal neutralizado.
Não é por viver habitualmente em Espanha ou por lá ter casado. Façamos-lhe a justiça de considerar que ele nunca seria capaz de invocar tais razões.
Não é por ser ingénuo. Nunca lhe passará pela cabeça que a população portuguesa, em referendo, viesse dizer "sim" à união.
Saramago sabe que nem com uma engenharia das almas, nem com uma engenharia social ou política ditada pela fria racionalidade da sua própria lógica, o resultado de que fala seria atingido.
Se ainda acredita numa revolução pela cartilha marxista-leninista, poderia pensar-se que, não vendo maneira de acabar com a democracia burguesa na Europa, esta sua construção não só desenharia o fim da independência de Portugal e ainda, ipso facto, o do regime em que vivemos, como implicaria também a queda da monarquia espanhola... Mas essa seria uma outra forma de ingenuidade da sua parte.
Parábola então? Sim. Como já tive ocasião de dizer à TVE, creio que este será o tema de um dos seus próximos romances. "Uma vez que é insustentável, só um Prémio Nobel poderá tentar transformá-lo num exercício de estilo que valha a pena ler. E sabemos, desde Buffon, que le style est l'homme même."
***Obs: Vasco Graça Moura desmonta zaramago, ou melhor, dá-lhe um sopro, já que os argumentos daquele nem para uma parábola servem, porque até o fundo deverá ter alguma verosimilhança com essa construção mental, e não tem. Dizemos e repetimos: zaramago nobilizou-se porque um secretário de Estado cometeu o erro de lhe vetar uma obra, com isto o "carpinteiro" vitimizou-se, a Ed. Caminho ajudou e traduziu o homem, as feirinhas internacionais também ampliaram o fenómeno, o PCP fez o resto e o Zaramago teve a sorte de apanhar os membros do júri do prémio Alfred Nobel alcoolizado e lá ganhou o canudo.
Depois, bom depois é a nódoa que se sabe: sempre que as autoridades nacionais o convidam para promover a cultura portuguesa, mormente na potenciação da leitura entre os mais jovens - o "artista" diz que se trata duma tarefa "bexigosa" e que só valerá a pena, salvo divulgar os livrinhos do traste.
Este zaramago é, de facto, a vergonha das letras lusas, ele não tem estatura humana nem intelectual para segurar o que lhe deram, e em relação a Portugal - país que o projectou e lhe deu uma identidade história - deveria ajoelhar-se, rastejar e pedir mil perdões pelas barbaridades que tem dito.
Já para não falar nos seus miseráveis alinhamentos políticos, de que aqui ressalto a sua amizade com um ditador-canalha de Cuba (como são todos) que já deve décadas à terra. Por isso tenho dito que Deus além de surdo também está sendo cego e mudo... Tem de tirar férias, esperemos que não vá para Cuba.
Quanto ao Zaramago.. ficaria muito feliz se ele declarasse de Espanha que resolveu por lá ficar de vez com um one way ticket, pois sempre que entra na fronteira nacional o índice de poluição dispara, o capital de simpatia diminui e o seu legado em Portugal é igual ao do judas.
Zaramago, em bom rigor, nunca passou dos portões da Soeiro Pereira Gomes, genética e estruturalmente a sua mente ainda está fossilizada e se amanhã o regime político em Portugal regredisse 30 anos seria o primeiro cáfila a voltar a defender o sistema estalinista de partido único para Portugal. E aí teria de voltar a fazer o que fez, enquanto responsável pelo jornal em que agora o Vasco escreve: purgar imensos colegas seus jornalistas por discordarem dessa sua orientação estalinista. Zaramago no seu melhor: o purgador, o censor..
Numa palavra: Vasco está equivocado, neste caso o estilo não é o homem, neste caso o Homem é que não presta. E o estilo é só para alguns...
Até Vasco Graça Moura terá de rever (e actualizar) alguns adágios clássicos que a erosão do tempo já desactualizou.