quinta-feira

Hélia Correia - Prémio Camões -

Nota prévia: Uma mulher de grande cultura clássica.., vale bem uma missa ou duas ou três. O sublinhado a amarelo é nosso, e serve apenas, naquelas breves passagens, para revelar a sua lucidez e forte sentido de denúncia social. Parabéns, pois, à escritora cuja obra desconhecia. E essa, para mim, é já uma vantagem deste prémio Camões/2015. 
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Hélia Correia (Lisboa1949) é uma escritora portuguesa.1

Biografia[editar | editar código-fonte]

É licenciada em Filologia Românica, tendo feito também um curso de Pós-graduação em Teatro Clássico.
Além de se ter dedicado à escrita, também fez diversas traduções.
Em 2013, vence o Prémio Vergílio Ferreira pelo conjunto da sua obra,2 e vence ainda o Prémio Literário Correntes d'Escritas/Casino da Póvoa pela sua obra A Terceira Miséria, uma homenagem à Grécia.3 Em 2015, foi galardoada com o Prémio Camões.4 [...]


1.
Para quê, perguntou ele, para que servem
Os poetas em tempo de indigência?
Dois séculos corridos sobre a hora
Em que foi escrita esta meia linha,
Não a hora do anjo, não: a hora
Em que o luar, no monte emudecido,
Fulgurou tão desesperadamente
Que uma antiga substância, essa beleza
Que podia tocar-se num recesso
Da poeirenta estrada, no terror
Das cadelas nocturnas, na contínua
Perturbação, morada da alegria;
2.
Essa beleza que era também espanto
Pelo dom da palavra e pelo seu uso
Que erguia e abatia, levantava
E abatia outra vez, deixando sempre
Um rasto extraordinário. Sim, a hora,
Dois séculos antes, em que uma ausência
E o seu grande silêncio cintilaram
Sobre a mão do poeta, em despedida.
7.
Nós, os ateus, nós, os monoteístas,
Nós, os que reduzimos a beleza
A pequenas tarefas, nós, os pobres
Adornados, os pobres confortáveis,
Os que a si mesmos se vigarizavam
Olhando para cima, para as torres,
Supondo que as podiam habitar,
Glória das águias que nem águias tem,
Sofremos, sim, de idêntica indigência,
Da ruína da Grécia.
23.
A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.
[in A Terceira Miséria, Relógio d’Água, 2012]

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Dois fragmentos finais (de A Terceira Miséria)

Estão as praças,
Como ágoras de outrora, estonteadas
Pela concentração dos organismos,
Pelo uso da palavra, a fervilhante
Palavra própria da democracia,
Essa que dá a volta e ilumina
O que, por um instante, a empunhou.
Oh, os amigos, os abandonados,
Esses, os destinados ao extermínio,
Esses os belos despojados, nus,
Os que, mesmo nascendo no Inverno,
Pouco sabem do frio, gente que dorme
Na sombra do meio-dia, ouvindo o canto
Das cigarras, o canto sobre o qual
Hesíodo escreveu. Gente do Sul,
Gente que um dia se desnorteou.
33.
De que armas disporemos, senão destas
Que estão dentro do corpo: o pensamento,
A ideia de polis, resgatada
De um grande abuso, uma noção de casa
E de hospitalidade e de barulho
Atrás do qual vem o poema, atrás
Do qual virá a colecção dos feitos
E defeitos humanos, um início.
Hélia Correia

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