30 de Junho de 2009

Breves ao Notas Soltas de António Vitorino na RTP1

Ontem António Vitorino sistematizou alguns dos factos da semana de que aqui procuramos muito sumariamente reinterpretar.
Ainda que na política à portuguesa - uma evidência que remonta ao tempo do cavaquismo, se detecta um desvio entre o anunciado e o realizado, ou seja, entre o que Belém pensa e diz enquanto tal, e o que Belém dizia ao tempo do cavaquismo - enquanto o actual locatário de Belém era PM.
Dito isto, e tomando como referência o que o analista AV ontem sistematizou, deixo aqui algumas notas para ulterior reflexão.
A saber:
1. Cavaco aceitou contrariar-se através do agendamento das eleições legislativas num acto eleitoral distinto do das eleições autárquicas. Foi esse o sentir dos partidos auditados por Cavaco, foi essa a decisão de Belém, embora Cavaco quisesse fazer o seu habitual número predilecto: o tábu. Um tábu que anulou o efeito de arrastamento que, à partida, interessaria muito a Ferreira leite - que pensou que se os dois actos eleitorais fossem em simultâneo o psd beneficiaria com mais uns votinhos manhosos, captados em resultado do tal efeito de arrastamento ou do sistema de vasos comunicantes - que, em rigor, imputa(ria) um verdadeiro atestado de estupidez ao povo português. Mas essa é a crónica relação que a srª Ferreira mantém com o leitorado.
2. As sondagens são, cada vez mais, dada a framentação sociológica, um exercício pantanoso dada a dificuldade em arrumar e redistribuir os indecisos, o que baralha as previsões eleitorais e converte as sondagens em exercícios de magia.
3. Ferreira leite esteve mais à vontade, mais conversadora, não cometeu nenhuma gaffe e cavalgou a onda da tvi e do não ao TGV - aproveitando uma sondagem aos portugueses em que a vontade aí expressa é a de adiar o investimento. O que revela que leite afirma-se pela negativa, pois nenhuma ideia estruturante para o país alí se identificou.
4. Caberá ao PS desenhar novas propostas de políticas públicas e diferenciar-se do abismo e da ausência de ideias e propostas do actual psd, de resto a srª Ferreira, para afirmar o seu legado democrático - já disse que se for governo (credo!!!) fará tudo diferente do PS, excepto a reforma da Segurança Social. Já é alguma coisa... Infelizmente, o PS não poderá dizer o mesmo, reconhecendo uma única ideia a Ferreira leite. E não será por maldade, certamente!!!
5. Os indicadores de investimento e de consumo do INE - ainda que algo positivos estão longe de gerar um turn-over na actual crise, embora seja positivo esta alteração de percepção face à economia, sendo certo que o emprego é actualmente o problema n.º1 da economia nacional. Infelizmente, o manifesto dos 28 assim não o entendeu, o que revela que os economistas agora também estão apostados em andar por aí a fazer política-partidária, e alguns com muito pouco jeito. Depois até serão esquecidos como economistas. É mais um sinal dos tempos.
6. O dossier TVI e a aquisição do capital da Media Capital pela PT - mostrou como o governo esteve mal, objectivamente mal e trapalhão, com Mário Lino a fazer das suas, ou seja, contradições. Desde que se ligou essa aquisição à substituição da linha editorial da estação de Queluz e à dispensa de Moniz do cargo que ocupa - o governo ficou sem espaço de manobra para fazer o que quer seja. Se bem que do ponto de vista da estratégia empresarial faz sentido a PT ter uma estação a fim de potenciar os seus conteúdos e competir com a Zon num mercado cada vez mais agressivo.
De resto, também faz sentido - em termos de racionalidade empresarial - a PT entrar no capital espanhol - porque é também essa a aposta da Telefónica nas empresas portuguesas. Mas o mais curioso em toda esta trapalhada é que Moniz concordou com os termos do negócio e até ficaria no cargo que actualmente ocupa.
Quanto à restante trapalhada deste dossier quente, atrevo-me a dizer que ela foi de monta pelo facto de AV se encontrar no estrangeiro, e estando abroad parece que o governo fica privado de ajuda e de conselho inteligente e entra em remoinho e acaba por espalhar-se. Numa palavra: AV não pode estar fora muito tempo, estando o governo entra em regime de auto-trapalhada...
Sugira-se, pois, a AV que, doravante, não se ausente do país por mais de 24h. Ainda assim, quando se comparam os lapsos do Governo com a possibilidade tenebrosa de Ferreira leite ser governo os portugueses não deverão pensar duas vezes e investir em Sócrates.
7. Esta questão correlaciona-se com a Golden share que o Estado ainda detém na PT e que está em contradição com a doutrina jurisprudencial do Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias. Posição que não se compreende a partir do momento em que tais empresas já não se encontram em regime de monopólio, mas sim aberta às regras do mercado competitivo, o que obrigará de futuro à identificação de soluções mais criativas e menos impositivas na relação do Estado com o sector empresarial em que, directa ou indirectamente, ainda detem participações.
Estranho, ou talvez não, é a circunstância de Ferreira leite levantar o braço e Cavaco, no take seguinte, estar a movimentar a orquestra - falando na transparência da PT.
Ou seja, Cavaco segue a sua pupila, e se dantes era Ferreira leite que servia de porta-vox não autorizada de Belém, parece que agora os termos da relação se inverteram, cabendo a Cavaco ser o porta-voz oficial da actual comissão liquidatária do PSD - com o intuito de ajudar a srª Ferreira a ser alguém na vida política nacional.
Por razões óbvias, não o conseguirá.

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