terça-feira

O dia do trabalhador e a produção de (in)certeza na pia tecnológica

Como o 25 de Abril, todos os anos o ritual repete-se: a comemoração do Dia do Trabalhor a 1 de Maio. É a força do ritual previsto no calendário e o dia de lazer que se subtrai ao dia de trabalho, apesar de eu ser contra o trabalho e a favor da criatividade. Aliás, o Homem só deveria criar, inventar - a produção deveria ficar entregue às máquinas. Mas infelizmente temos tanto génio e acabamos por ficar escravo delas. Faz lembrar a estória do outro que nos oferece a corda com que nos enforcamos...Adiante.
Vivemos disciplinados por uma troika de vectores: os valores que nos (des)orientam; as instituições sociais, económicas e política que regem as nossas vidas; e a tecnologia que nos permitem fazer coisas mais rápido e em grande quantidade e com baixo custo. Este foi o mundo que criámos e é hoje gerador de conhecimento neste novo ambiente de globalização competitiva em que uns tentam defenestrar os outros, como fizémos ao Miguel de Vasconcelos no tempo em que nos vendíamos à Espanha, hoje a Espanha vem cá vender.
Dito doutro modo: o génio já não está concentrado dentro da garrafinha, anda por aí, à espera que as pessoas acumulem as qualificações necessárias para depois o mercado as agarrar e rentabilizá-las no âmbito da vida das organizações. O problema está hoje no seguinte: como converter o conhecimento que acumulámos em acção de interesse comum, que opera em prol da comunidade. Este é o drama no nosso tempo... Temos liberdade, temos alguma mobilidade mas não conseguimos produzir elevados índices de certeza que nos deixem descansados quanto ao futuro próximo.
Por isso, estamos como estamos: crescemos pouco e mal face à Europa, não somos competitivos, estamos no cú de judas desta ponta do extremo Ocidental da Europa, longe dos diamantes mas perto dos tubarões do Atlântico, e também já não podemos contar com a figura mítica do Estado-paizinho que nos aplacava os problemas de saúde, de segurança social, de educação, enfim, dava-nos uma mesada para os vícios da formação e da sobrevivência. Facto que nos obriga a não ser fiéis ao velho Estado - que hoje despede e expulsa as pessoas que para ele trabalharam na lógica do imperativo do emagrecimento do Leviatão e do equilíbrio das finanças públicas para demonstrarmos que voltámos a ser o bom aluno diante Bruxelas. Só que hoje Bruxelas é dirigida por um campónio formado na escola maoista, no tempo de Cavaco a Europa tinha um líder com visão: Jacques Delors, eis uma pequena grande diferença.
Contudo, essa velha fidelidade para a vida ao Estado desapareceu, já não vamos à igreja, casamos várias vezes na vida, alguns dão em maricas e elas dão em fufas e vivem sózinhas e azedas por entre animais de estimação por causa das desilusões, mudamos de empresa várias vezes, também não nos fixamos no mesmo partido, aliás, em Portugal os milhões que votam fazem-no alternando o seu voto ora no PS ora no PsD (é o centrão democrático do arco da governação). No fundo, estamos todos mais erráticos, mais promíscuos em relação aos valores, às instituições e até em relação à tecnologia - que costumava assentar na desparecida mecanização. Hoje, qualquer pia-tecnológica nos permite meter o mundo a girar na palma das mãos, como ilustra aquela imagem (sem otoclismo).
Os valores hoje são como um carnaval de côr, barulho e mobilidade em que está tudo liberalizado: banca, serviços, seguros, telecomunicações, companhias aéreas... Qualquer dia o Manel Pinho lembra-se de privatizar o Mosteiro dos Jerónimos e concessiona a Torre de Belém a uma filial da Prisa gerida a partir do gabinete de Pina Moura. Hoje já não há fronteiras, os territórios artificializaram-se e até a nossa própria vida se desregulamenta. Os nossos filhos também têm uma liberdade de escolha maior: o que fazer, onde morar, onde estudar, alguns decidem logo dar em maricas e elas em fufas, tudo em idade precoce. Outros seguem vias alternativas como travestis e sadomasoquistas.. É o mundo da Liberdade máxima em que tudo é possível, até transformar um homem numa mulher.
Mas há aqui um problema sério em toda esta parafernália de escolhas e de opções-macacas. É que, não obstante a liberdade, os valores, as instituições e a tecnologia não vão dar resposta aos nossos verdadeiros problemas e anseios. O Estado pira-se, emagrace despedindo para ganhar músculo e fibra e eliminar gorduras e adiposidades; as empresas só querem lucro, e fazem hoje mais com três pessoas info-qualificadas do que dantes com uma batalhão delas; a igreja para aqui não interessa nada, nem as batinas viciosas da padralhada; e as tecnologias também se estão a lixar para saber se os portugueses arranjam ou não bons empregos, conseguem pagar o preço dos juros do dinheiro que pediram ao banco para pagar a casa, o carro e as férias ao Brasil. O mercado, no ciclo final, só confia em quem paga, o resto é lixo que ele nem quer varrer.
No fundo, temos hoje uma maior aparência de Liberdade mas, na realidade, a tecnologia não serve de almofada para ninguém, o Estado já há muito que deixou de ser uma válvula de segurança, as intituições são boas e eficientes mas é a cobrar impostos e não a distribuir receita ou serviços sociais às populações, como na Europa do Norte - que nos devia guiar pelos bons exemplos. De modo que estamos entregues à bicharada, quer dizer, a nós próprios.
Decorre isto do Dia do Trabalhador, momento em que é suposto equacionar o valor da nossa Liberdade na sociedade, no Estado e connosco próprios. E a conclusão a que chego é simples: temos hoje menos Liberdade e mais responsabilidade. Vivemos hoje mais na incerteza do que na certeza. A saúde, a educação (que agora a grunha da 5 de Outubro quer exterminar a Filosofia no acesso ao Ensino Superior) - tudo nas nossas vidas é hoje mais problemático. Parece até que Deus anda a brincar com a malta, posto que por um lado oferece-nos mais oportunidades mas, por outro, carrega-nos com toneladas de responsabilidade que nos inibem do que quer que seja.
Por isso não sei o que escolha: se os velhinhos valores, instituições e tecnologias do passado das relativas certezas; ou o caldo de cultura de globalização competitiva que hoje vivemos em permanente incerteza... É que hoje imensos casais de 20/30 anos querem ter um filho à força - e ou ela ou ele são estéreis, mas vemos que por esse mundo ainda nos aparecem pessoas de quase 70 anos a dar à luz. Além de incerto, este mundo também é bizarro...
Se fosse o dinossauros-rex do Carvalho da Silva da CGTP ou o outro da UGT, Gonçalves Proença - propunha aos portugueses que fossemos todos viver para Marte, uma maneira simpática de, no Dia dos Trabalhadores, nos mandarem à m****.

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