segunda-feira

SILÊNCIO MORTAL - por V. Pulido Valente -

SILÊNCIO MORTAL A avaliação dos cem dias de cavaquismo belenense feita por Vasco Pulido Valente: «A imprensa resolveu festejar os primeiros cem dias do Presidente da República e anda por aí à procura de uma palavra ou de um gesto, que revelem o homem ou iluminem intenções profundas. Cem dias num mandato de cinco anos (ou talvez dez) não significam nada. Ainda por cima no princípio. Como se viu com Eanes, com Soares, com Sampaio - e se verá com certeza com Cavaco. Tudo isto, toda esta excitação, é um resto da campanha. A esperança que irresponsavelmente se criou não deixa agora reconhecer a irrelevância da rotina do Presidente "providencial" e o pouco, ou nenhum efeito, que ela tem no país. E, como ela de facto não tem, apareceu muita gente determinada a ver o invisível e a perceber com muita subtileza o que não sucedeu. Afinal de contas, que fez Cavaco? Vetou a "lei da paridade" mais por uma questão de forma do que de fundo. Deu um passeio pelo interior a que chamou "roteiro da inclusão" (sem a menor consequência prática), de que ninguém se lembrará daqui a dois meses. Preparou outro "roteiro", o da "ciência", que não passa de uma peça inútil de propaganda: os cientistas, principalmente os bons cientistas, não precisam de salamaleques, precisam de sossego e dinheiro. O dr. Cavaco também readmitiu os militares nas celebrações do 10 de Junho, coisa que absurdamente entusiasmou uma direita coriácea e pavloviana, que nunca esqueceu ou esquecerá o bom velho tempo. De resto, o Presidente repreendeu o ministro da Agricultura e apoiou com solicitude a ministra da Educação. O governo não ficou abalado e ele, presumo, ficou contente. É verdade que o dr. Cavaco disse que "não se resignava" e, no 10 de Junho, querendo partilhar essa virtude, pediu aos portugueses que não se resignassem. Infelizmente, isto põe uma questão bicuda. O Presidente da República, com a sua larga inteligência, descobriu com certeza a maneira apropriada e perfeita de não se resignar. Já o português comum hesita. Como vai ele resistir à imparável decadência da Pátria? Trabalhando mais? Cumprindo com minúcia e zelo as leis do trânsito? Renunciando ao vício e, por maioria de razão, ao crime? Ou, com um pensamento mais puro e colectivo, como recomenda o eng. Sócrates, promover uma cabala para liquidar os partidos, comprar a PT ou mesmo montar uma mercearia fina em Campo de Ourique? A perplexidade aumenta e Portugal inteiro espera que o dr. Cavaco o esclareça. Numa altura tão crítica, o silêncio de Belém é mortal.» [Público assinantes Link]
  • Nota: Texto picado no Jumento - que também aqui oferece a sua grande vantagem.