Macro de grande, skopein de observar: observar o infinitamente grande e complexo. Tentar perceber por que razão a ave vive fascinada pela serpente que a paralisa e, afinal, faz dela a sua presa.
quinta-feira
Litigância por mais duma década: Ricardo, Carlos Costas, Passos & Cavaco
Nota prévia: Temos aqui litigância para mais duma década. Até lá, o sr. Governador do BdP torna-se numa irrelevância molecular, já a partir de Outubro próximo (ainda que tenha sido reeleito para o cargo para mais um mandato, por mero favor político do PSD); o alegado PM, Passos, em breve, muito em breve, entrará no anonimato e ninguém mais se lembrará dele, senão pelas diatribes que causou à economia nacional, prejudicando pessoas e lesando seriamente empresas, implodindo com o tecido produtivo da débil economia portuguesa; Cavaco, outra pretuberância do sistema político, é o sustentáculo de Passos em S. Bento, também ingressará na 3ª Idade e tornar-se-á mais um inumputável à luz da opinião pública, após ter sido o co-autor do desastre inflingido a Portugal; Ricardo, esse, pelos advogados que tem e pelas escapatórias legais que vai criando no sistema judicial, morrerá sem saber que pena a justiça lhe aplicará, tal a sua "celeridade".
- De modo que temos um país entupido, de Não justiça, de adiamento das conclusões que estão à vista de todos.
- Já agora, só uma notinha de roda-pé: convinha que o BES ("novo", que o sr. carlos Costa apadrinhou, como fez com o filho de Durão Barroso no BdP, que sem qualquer CV ingressou nos quadros da casa) restituisse o dinheiro esbulhado aos clientes - particulares e empresas, pois Portugal ainda não é uma Republica das bananas, conforme desejaria o sr. Costa do BdP, o qual se tem comportado como o "polícia mau" (para uns) e representando o papel de "polícia bom" (para outros) em todo este processo.
Para o sr. Silva - em primeiro lugar - estão os amigos
Quando Cavaco assumiu diligentemente o papel de notário - no Verão de 2014 - ao certificar o BES com um atestado de confiança quis dizer aos clientes do banco do ex-DDT que não tivessem dúvidas nem problemas que o seu dinheiro estaria seguro nas mãos daquele que financiou as campanhas eleitorais do sr. Silva durante décadas.
- Depois foi o que se viu: o BES foi partido em dois - por ordem de Passos e do BdP (que não supervisionou coisa nenhuma) - em banco mau e banco bom, e muitos clientes - particulares e institucionais - ficaram literalmente a arder com os seus capitais, que voaram para as contas de Salgado, dos seus amigos e das pessoas que giravam em seu torno, intra e extra-muros.
- Foi um fartar de vilanagem..., com inúmeros ilícitos e práticas de gestão ruinosa pelo caminho que já dariam cadeia. Mas Ricardo continua a passear-se como um príncipe, gozando de um regime de isenção, inimputabilidade e de privilégios que, curiosamente, um ex-PM (Sócrates) não conseguiu, ainda que se tratem de casos distintos.
- Na sequência desta tragédia, que também abalou a economia nacional, seria expectável que o mais alto magistrado da nação tivesse já dado uma palavra de conforto e até de garantia política - aos milhares de lesados, pessoas e empresas, mostrando até empenhamento em querer ressarci-los. Mas cavaco, como é seu timbre, está mais preocupado com o seu amigo Ricardo, a sua imagem e carreira públicas, a sua reforma e o modo como acha que a história irá registar a sua lamentável e penosa passagem pela vida pública nacional.
- Deles, de Ricardo e de Cavaco, cada qual à sua maneira e com níveis distintos de responsabilidades, a História não irá ser complacente.
Inquérito parlamentar à gestão do BES/GES aponta culpas a Salgado, a Granadeiro e Bava porque sabiam dos investimentos da PT no GES, e ao Banco de Portugal e à CMVM por falta de articulação.
O relatório preliminar da comissão parlamentar de inquérito à gestão do BES e do Grupo Espírito Santo (GES) indica ser "provável" que Ricardo Salgado tenha "estado envolvido na ocultação de contas da Espírito Santo International (ESI) desde 2008".
Para além do "provável" conhecimento de Salgado da ocultação de contas da ESI, 'holding' do GES, também José Castella, 'controller' financeiro do grupo, teria conhecimento da ocultação, embora em menor escala do que Salgado, frisou o deputado relator.
O relatório indica que os antigos presidentes da Portugal Telecom (PT) Henrique Granadeiro e Zeinal Bava sabiam dos investimentos da operadora no GES.
"A análise efetuada às operações de financiamento da Espírito Santo International (ESI) e da Rioforte pela PT aponta para que a sua concretização tenha envolvido responsabilidades e fosse do conhecimento, ainda com graus variáveis de detalhe, de Henrique Granadeiro, Zeinal Bava, Luís Pacheco de Melo, Carlos Cruz, Ricardo Salgado, Amílcar Morais Pires e Joaquim Goes", é dito no relatório preliminar da comissão de inquérito.
Os valores dos investimentos da PT no GES foram definidos pelo relator como "atípicos, quer em dimensão quer pelo peso relativo que representam", num total de exposição máxima de 4,992 milhões de euros, lembrou.
Voto de não-confiança - por Vasco Pulido Valente -
in Público Obs: O analista diz em voz alta o que Portugal inteiro pensa hoje do (ainda) locatário de Belém, um dos maiores erros de casting da vida pública do Portugal pós-Abril/74.
- Ricardo Salgado foi prestar declarações à Comissão parlamentar de inquérito ao caso GES/BES, e aí questionou conversas com o Governador do BdP, que este já desmentiu e aquele já replicou - tudo a uma velocidade de desmentidos estonteante, como se se tratasse duma luta entre pugilistas no ring de boxe. Na altura, o banqueiro responsabilizou o contabilista, o Governador do BdP (que não lhe deu tempo) e, indirectamente, o Governo que desapoiou o GES na praça pública;
- No Verão passado, o PR, Cavaco Silva, assumiu o papel de notário (friendly) e veio a terreiro informar as hostes de que o BES era um banco sólido e no qual valeria a pena investir (mas ele, Cavaco, não tinha acções ou outros títulos do banco). Cavaco, consabidamente, só tinha acções do BPN...;
- Pelo meio, a Miss Swaps, foi também ao parlamento prestar declarações e entrou em contradição com as declarações do Governador do BdP e com o teor agora conhecido das declarações de Salgado relativamente ao modo de salvar ou de afundar o BES;
- Este conjunto de contradições gritante, desde o Verão até ao momento, recolocam a questão de determinar quem sabia o quê e em que timing, pois disso depende a venda de títulos em larga escala por parte de alguns clientes, que conseguiram vender as suas aplicações atempadamente, ao invés doutros clientes, a maioria, que ficou literalmente "pendurada", senão mesmo falida;
- Neste quadro, importa apurar o que sabia o PR (quando assumiu o papel de notário do BES), o Governador do BdP, a Miss Swaps e o próprio PM desde o Verão (em que o BdP começou a entrar mais em cena, e pressionado pelo BCE - que exigia mais fiscalização e accountability) até ao momento.
- Numa fase em que o centro de gravidade do poder político nacional se deslocou do Governo (que é há anos um cadáver adiado) para as comissões de inquérito parlamentares, será natural que o Portugal-profundo deposite alguma confiança na capacidade de perguntar que os deputados possam vir a ter, ainda que dominem mal aquelas matérias de elevada tecnicidade (e onde a opacidade é enorme!!) a fim de esclarecer o sentido daquelas contradições e por que razão todas aquelas declarações não se harmonizam entre si.
Ou seja, importa compreender por que razão aqueles players mentem, omitem e dissimulam informação relevante para a descoberta da verdade. Uma verdade que estará na origem da dissolução do BES e dos estragos que provocou no tecido económico nacional.
Talvez a chave para a compreensão do puzzle possa estar na prestação do CONTABILISTA - aqui visto como o homem que vem do nada e nos pode trazer a chave que abrirá a porta para desmascarar todos aqueles agentes políticos que, por razões pessoais, políticas, económicas e financeiras mentiram deliberadamente ao país desde o Verão passado.
É neste pressuposto que a pele de Ricardo Salgado, que ele equiparou a uma presumível reputação que ainda possa ter, pode ajudar as desmascarar todos aqueles que, com o banqueiro, mantiveram esta farsa até ao Verão. Pois sabiam do verdadeiro estado calamitoso em que as contas do GES/BES se encontrava mas, criativamente, ocultaram esses dados da opinião pública e das entidades de Regulação que, neste caso, se comportou como o polícia bom (de dia, assumindo o papel do sinaleiro) e do polícia mau (quando à noite se juntava àqueles para repartir os despojos).
Portugal vive hoje a agonia dos dias do fim, na pior e mais cara farsa desde 1974.
Agora que o chefe do clã Espírito Santo já falou, o contabilista teve ordem para ligar para o Parlamento a fim de agendar a viagem de regresso ao burgo. Trará na sua valise de carton, seguramente, uma versão consonante com a do chefe do clã, no final a generosidade compensa.
Afinal, todo este processo trata desse imenso submarino e das respectivas comissões... Nós, contribuintes, continuamos a pagar este circo na República...
Talvez fosse imperioso saber quando é que o dr. Paulo Portas será ouvido numa comissão de inquérito na AR...
Obs: dr. Salgado, faça obséquio de devolver o dinheiro que literalmente esbulhou aos seus clientes, particulares e institucionais. Não o livra de procedimento criminal, mas, pelo menos, atenua a sua já afectada honra.
Vá, devolva o que não é seu e comporte-se como um homenzinho!!!
Passos Coelho e Ricardo Salgado: uma intimidade revelada
NOTA PRÉVIA: VALE A PENA LER A DESMONTAGEM FEITA PELO CCRELATIVAMENTE ÀS PATRANHAS SEMEADAS POR PASSOS CUELHO NO QUE CONCERNE À SUA VERDADEIRA RELAÇÃO COM A PT & BES - E DEPOIS ENQUADRÁ-LA NA TENTATIVA QUE O AINDA PM TENTOU ESTABELECER ENTRE O ANTERIOR GOVERNO E O GRUPO DE RICARDO SALGADO. O EXERCÍCIO DE PROJECTING (E ACTO FALHADO) É VERDADEIRAMENTE SINTOMÁTICO.
A IMAGEM INFRA JÁ É, DE PER SE, REVELADORA E FALA POR SI, MAS A EXPLICAÇÃO TEM UM FIO CONDUTOR QUE IMPORTA RECORDAR E SEGUIR COM ATENÇÃO. NEM QUE SEJA PARA EVITAR - DE FUTURO - COMPRAR CUELHO POR LEBRE...E, ASSIM, CONTINUAR A LESAR OS LEGÍTIMOS INTERESSES DE PORTUGAL E DOS PORTUGUESES.
AINDA QUE SAIBA QUE ISTO É INDIGESTO PARA UM DOMINGO - VALE BEM UMA MISSA E UMA REFLEXÃO!!!
Esta mistificação não impediu o pantomineiro-mor de afirmar ontem que pôs fim a uma cultura política de favorecimento do Estado a «grupos de influências»: «Deve-nos orgulhar saber que pusemos um ponto final nessa maneira de estar, nessa cultura política, nesse abuso sobre os portugueses que foi perpetrado durante mais de dez anos». Deduz-se que inclui os governos de Barroso e Santana Lopes, talvez porque Barroso esteve a marinar no BES até se alçar a São Bento e o governo de Barroso & Portas envolveu o BES na aquisição dos submarinos.
Acontece que Passos Coelho não tem um pingo de vergonha na cara. Só essa circunstância permite a alguém — que tem fama de «abrir todas as portas» e que se envolveu numa ONG fantasma — ter o descaramento de falar nestes termos.
Acresce que, se há alguém que durante anos apareceu associado à família Espírito Santo, é precisamente Pedro Passos Coelho. Já (alegado) primeiro-ministro, recebeu dez (10) telefonemas de José Maria Ricciardi, que foram interceptados pelo Ministério Público: «as escutas estão relacionadas com alegados crimes de tráfico de influências, corrupção e informação privilegiada no caso das privatizações da REN e da EDP.» Acontece que Pedro e José Maria, como as escutas o comprovam, se tratam por tu, algo que revela uma intimidade que não joga com as declarações actuais do alegado primeiro-ministro.
O antigo presidente executivo do Banco Espírito Santo BES controlava em 2011 várias contas bancárias em Singapura.
Segundo avança o Correio da Manhã esta quinta-feira,7 de Agosto, Ricardo Salgado detinha vários depósitos totalizando 30 milhões de euros naquela cidade-estado do Sudeste Asiático.
Desta forma, o antigo banqueiro tem estas contas salvaguardadas de possíveis acções de arresto de bens motivadas por processos judiciais à sua gestão do banco. (...)
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Obs: Digamos que o nível de premeditação do banqueiro era avançado nesta assembleia de heterónimos que permitiu ao DDT aparecer em cada canto do mundo numa posição verdadeiramente milionária. Os depositantes, accionistas e obrigacionistas - ajudaram a esta festim do Ricardo come-tudo...
Seria interessante o visado dar uma entrevista dizendo o que sabe, para medir o que não disse.
O sonho de Ricardo era continuar a ser muito rico. Não ser visível. E ser indetetável.Só perdeu uma condição...
Toda esta problemática de fraude, burla, crime económico, compra de poder e corrupção ao mais alto nível da Administração do Estado reflecte, afinal, uma concepção muito própria de Ricardo Salgado de que ele foi, e é, se calhar, um banqueiro anarquista, para retomar a célebre expressão de Fernando Pessoa, pedindo desde desculpa a este por o misturar com a canalha da bancocracia que tem minado o regime político em Portugal desde 1974.
No fundo, a ideia do banqueiro anarquista é a de que todos devem trabalhar para um mesmo fim: o enriquecimento do Salgado. Ainda que, como metafísica orientadora daquele labor, o objectivo supremo seja impedir a sujeição à pressão social dos media, e ao aparelho de justiça, que é mais espectacular do que punitivo, e, ao mesmo tempo, fazer com que as pessoas se libertem do dinheiro e da sua influência e força.
Crucial aqui é que essa libertação do dinheiro e da sua força só se consuma quando o homem consegue adquirir uma soma considerável do dito vil metal, a ponto de libertar-se de tudo e de todos. Eis a condição pretérita, actual e futura de Ricardo Salgado: nasceu rico e irá morrer ainda mais rico. Muito provavelmente, no seu património PESSOAL, que não responde perante as dívidas do GES/BES, ninguém tocará, e esse deverá ascender às centenas de milhões de €uros.
Mas isso agora pouco interessa, o que importa é que Salgado, com algumas chatices de ter o passaporte caçado e de ser obrigado a apresentar-se às autoridades judiciais de Renault Clio uma vez por trimestre para prestar declarações que vão encher as primeiras páginas dos jornais, é já um homem rico, liberto de qualquer constrangimento ou influência. Ou melhor, o regime continua a depender dele, pois enquanto gozar de memória os agentes políticos dos últimos 30 anos em Portugal estão reféns dessa sua memória e das ligações sórdidas que prendem a política à banca, a que é corrupta e de trazer por casa.
No fundo, para Salgado o Banqueiro Anarquista é o repositório de algumas pedradas no charco na vida pública portuguesa, criando nela o desassossego junto dos depositantes, que agora veem as suas economias por um canudo; revelando o laxismo e total incompetência e inoperância do Regulador, em particular do Governador do BdP, considerado uma espécie de xerife corrupto a quem alguns banqueiros pagaram em troca de silêncio cúmplice (seguindo a lei da omerta siciliana); e, por fim, um detonador que veio mostrar as ligações perigosas entre a alta finança, a política, o mundo dos negócios e, por extensão, as relações financeiras internacionais que envolvem as ligações a Angola e ao BESA...
Ricardo era o nervo desse furacão que hoje se desmoronou, ficando mal na fotografia, já em plena reforma dourada (de 1 ME/mês). Contudo, essa ascensão e queda de um Santo não deixa de ter uma finalidade pedagógica para os cultores da política, já que se aprende mais com a ascensão e queda deste importante grupo económico - o GES - do que estudando as sebentas plagiadas e balofas dos lentes de Coimbra e de Lisboa acerca do tema.
Em síntese: com muita pose, delicadamente construída ao longo das décadas, com muito gel no cabelo alguns portugueses mitificaram este pérfido gestor que penalizou milhares de clientes particulares, milhares de empresas/PMEs e o Estado - no seu conjunto.
Salgado, diante do seu mundo e do seu umbigo, que era a mesma coisa, demonstrou que apenas conhecia uma lei: o seu capricho e a sua vontade. Em certos países civilizados, como os EUA, por exemplo, estes caprichos dão cadeia.
Hoje, Ricardo Salgado é um homem só. Poucos dos seus aliados ainda o são, muitos dos seus mais próximos já deixaram de o ser / Rui Ochôa
Talvez seja apenas um mito e Mayer Amschel Rothschild não tenha mesmo dito aquela frase no século XIX: "Deem-me o controlo do dinheiro de uma nação e pouco me importarei com quem faz as suas leis." Ficou a frase infame e a família famosa, os Rothschild, que já não são os banqueiros mais importantes da Europa mas cuja descendência prevalece.
No mesmo século XIX, uma família portuguesa de banqueiros era fundada por um órfão, a quem por isso mesmo chamaram de Espírito Santo, e que atingiu o ponto mais alto da sua influência já no século XXI. Depois - agora - os negócios faliram, num escândalo internacional de desonra. A família perde tudo. O movimento é tão poderoso que pode significar uma mudança de regime na economia portuguesa. Há uma rede de poder que desaba. Outra emergirá.
Como foi possível que um império tamanho se perdesse entre dois verões, sem invernos que anunciassem a ruína ou primaveras que a redimissem? Talvez a resposta esteja noutra pergunta: como foi possível sequer construir este império tamanho? A resposta é, agora, fácil: não foi possível. Não era um império. Era um conglomerado descapitalizado, opaco e mal gerido. A plácida cascata de ativos, que criou um sistema de minorias acionistas encadeadas que garantia o controlo familiar com pouco capital, tornou-se uma torrencial cascata de passivos.
É impressionante tudo ter acontecido debaixo dos olhos da comunidade, incluindo poderes políticos, reguladores, auditores, concorrentes. Ao contrário do BPN, que "sempre se soube", no BES nunca se soube de nada. Escrevia-se sobre a opacidade e a complexidade do grupo, mas não havia denúncias nem sequer suspeitas conhecidas. O poder do BES era imenso. E era um poder de um homem, Ricardo Salgado, 70 anos acabados de fazer. Sintomaticamente, o líder da família desde o final dos anos 80 não tinha número dois. Era costume dizer-se que o BES era como um comité central do Partido Comunista, não havia "vices", havia o líder e o resto. Era um poder total, bajulado e quase incontestado.
O poder hegemónico
A primeira vez que falei sobre o assunto foi em julho de 2009, há cinco anos, num encontro à porta fechada do Projeto Farol, que decorreu no Pavilhão de Portugal. O Farol, um think tank liberal, convidara-me para fazer uma apresentação sobre fatores de bloqueio da economia portuguesa e eu escolhi o BES. Na minha tese, o problema não era o BES ser poderoso, era ser hegemónico.
O jornalista José Manuel Fernandes estava no encontro e, mais tarde, convidou-me para escrever essa análise para o Anuário da Fundação Francisco Manuel dos Santos, onde está publicada. Dos três eixos de poder da década anterior, restava um: o BCP, muito ligado à Teixeira Duarte, Cimpor, EDP e depois à Caixa, Berardo, Fino, estava prostrado; o BPI, muito ligado a grandes empresas do Norte, incluindo o Grupo Sonae, tinha-se virado para Angola; restava o BES e a sua linha de poder com a Portugal Telecom, Ongoing, Mota-Engil, mais tarde a EDP e José Sócrates.
A falta de oposição entre eixos financeiros permitira uma afirmação do BES que, juntamente com o BCP e a Caixa, lucraram muitos milhões concedendo crédito no imobiliário e nas obras públicas, onde estariam a maior parte dos grandes problemas da economia, com malparados gigantes, obras paradas a meio, transferências para fundos de reestruturação.
Nessa minha tese, estes bancos haviam "fabricado" lucros, dividendos e prémios de gestão. Os créditos, que constituíam lucro nos primeiros anos, virariam graves prejuízos no futuro. Os bancos foram sendo esventrados. No ano 2000, BES, BCP, BPI e Banif valiam em Bolsa um total de 18 mil milhões de euros. Os mesmos bancos valem hoje menos de sete mil milhões. Apesar de muitos dividendos entretanto pagos, a destruição de valor é evidente. Houve aumentos de capital em catadupa.
É hoje possível argumentar que, apesar de a intervenção externa de 2011 se ter feito por causa das contas do Estado, ela acabou por permitir uma gestão controlada e até disfarçada dos problemas enormes que estavam nos balanços dos bancos. Já foram reconhecidas nas suas contas mais de 24 mil milhões de euros de perdas reais e potenciais. E é essencial perceber isto para compreender o que se passou no Grupo Espírito Santo.
Paradoxalmente, a devastação na economia portuguesa que foi acelerada com a intervenção externa de 2011 não havia produzido até aqui nenhuma grande falência. Houve algumas construtoras de média dimensão, empresas de turismo e de imobiliário a caírem ou a serem resgatadas, mas não houve nenhuma queda abrupta de um grande grupo. Na verdade, tal foi sendo possível precisamente pela gestão controlada da banca. Muitas empresas zombie foram sendo transferidas para fundos de reestruturação, outras tiveram as suas dívidas reestruturadas, sempre com perdões indiretos da banca. Na maior parte dos casos, porque os próprios bancos não queriam (ou não podiam) assumir todas as perdas, sobretudo numa altura em que a pressão regulatória europeia obrigava a sucessivos aumentos de capital para garantir rácios de solvabilidade. Em muitos outros casos, porque o "sistema" funciona assim: preserva-se.
Assim foi com aquele que teria sido o maior estoiro na economia portuguesa: o Grupo José de Mello. O caso foi então noticiado mas estranhamente teve pouco impacto na sociedade. Por causa do corte do rating do Estado para nível lixo, em 2011, os bancos estrangeiros exigiram o pagamento imediato de empréstimos a muitas empresas portuguesas. Ao Grupo Mello foram exigidos mil milhões de euros, o que tendo em conta a quebra das receitas da empresa e o desequilíbrio entre ativos e passivos a colocou num estado crítico, sendo necessário "entrar" com o próprio património da família e, mais tarde, retirar a Brisa de Bolsa para a revalorizar e aceder a mais dividendos.
O problema ainda hoje não está ultrapassado, embora esteja controlado. Mas nada disso teria sido possível se, em 2011, o Grupo José de Mello não tivesse tido o apoio dos bancos portugueses, que então substituíram os bancos estrangeiros como seus financiadores. O trio do costume, Caixa, BCP e BES injetaram mil milhões no grupo, que assim pôde pagar aos bancos estrangeiros Santander, Deutsche Bank e Société Générale.
A grande falência aparece agora e é muito maior: o Grupo Espírito Santo. Inteiro. Uma derrocada, de cima para baixo. Mas como? Assim: anos e anos de prejuízos não assumidos, operações que não geravam cash flow, investimentos nunca recuperados à custa de dívida sobre dívida nas próprias participadas, que ficavam pendurados nas contas como se estivessem bem. Pura má gestão e algumas ligações perigosas, com Angola à cabeça. Mas as holdings de topo, com contas opacas e triangulando várias praças financeiras, escondiam uma montanha de passivo, para mais agravada com dívidas que não estavam registadas nas contas, num total de 1,3 mil milhões de euros, o que pode constituir prática criminal.
A situação tornou-se insuportável quando a dívida, além de ser grande, passou a ser em grande parte de curto prazo. O famoso papel comercial tornou a pressão sobre a tesouraria intolerável e sujeita a enorme risco. Pior do que isso: contaminou o BES.
Como a família perdeu o BES
Foi assim que a família perdeu o controlo do banco, primeiro na gestão, depois na própria posse das ações. Se os problemas de dívida no Grupo Espírito Santo eram já enormes, o contágio ao banco foi um passo deliberado e aconteceu no último ano. Talvez fosse uma última tentativa de evitar a rutura, mas transmitiu o problema das holdings de topo pela cascata abaixo até ao banco, o que constitui um pecado mortal e dificilmente compreensível.
A falência poderia ter sido apenas da holding ES International, o que seria um escândalo que arrastaria a família Espírito Santo, mas não contaminaria as empresas nas holdings inferiores.
Mas, no início deste ano, Ricardo Salgado começou a transferir os passivos da ES International para a RioForte, contaminando-a irremediavelmente. A Espírito Santo Financial Group e o BES concederam crédito às holdings de cima, ficando também desse modo contaminadas. E o BES expôs os seus próprios clientes ao risco, quando os pôs a financiar o GES, primeiro através de fundos de investimento como o ES Liquidez, depois através do papel comercial. Era difícil ter sido mais destrutivo.
Se o Banco de Portugal não tivesse forçado a constituição de provisões para pagar aos clientes de retalho do papel comercial, a hecatombe dos clientes teria sido devastadora. Um BPP multiplicado muitas vezes.
O que levou o GES à crise revela no mínimo incompetência, mas a própria gestão da crise desde o fim do verão do ano passado foi desastrosa, revelando uma equipa bloqueada, em negação e obcecada por uma guerra interna de sucessão. Como criticou Fernando Ulrich recentemente, a informação financeira foi sendo relevada aos poucos, cada comunicado trazia um novo número, nunca houve transparência total e tudo isso gerou uma desconfiança insanável dos mercados, sobretudo depois de os investidores terem acreditado no BES para um derradeiro aumento de capital de mil milhões de euros há cerca de dois meses. Esses investidores sentem-se enganados. Têm boas razões para isso. Mas houve mais: foram sendo anunciados aumentos de capital na RioForte que nunca aconteceram, vendas em Bolsa que não ocorreram, reestruturações que não existiram. Tudo colapsou, estrondosamente.
A melhor definição que ouvi até hoje sobre o sistema de poder económico em Portugal foi dada por Paulo Morgado, líder da filial portuguesa da Cap Gemini. Mais do que uma estrutura hierárquica piramidal, ou de que um polvo com tentáculos, o poder em Portugal assenta num sistema em rede. É, descreveu Paulo Morgado, como um jogo de micado: vários paus cruzam-se e é quase impossível mexer num sem tocar noutros.
Essa interdependência serviu ao mesmo tempo de rede de sustentação e de força de resistência passiva. Ninguém ousava dar um murro na mesa e atirar as peças de micado todas pelos ares, o efeito sistémico seria imprevisível. A falência do Grupo Espírito Santo e o afastamento da família é esse murro na mesa e sim, tem efeito sistémico, porque arrasta centenas de empresas com milhares de trabalhadores. Alexandre Soares dos Santos já disse que o efeito é "brutal, brutal, brutal..."
Hoje, Ricardo Salgado é um homem só. Poucos dos seus aliados ainda o são, muitos dos seus mais próximos já deixaram de o ser. Começou por aqueles que eram enfeitiçados pelo dinheiro ou mesmo pagos pelo Grupo: esfumaram-se. Passou depois para os amigos, para a família, para os clientes, para dentro do banco.
É preciso perceber a mitificação que existia à volta de Ricardo Salgado, em muitos membros da comunidade mas sobretudo dentro do Banco Espírito Santo. Os quadros falavam de Salgado como de um banqueiro predestinado, um líder de que se orgulhavam, um homem que estaria sempre acima dos desafios e dos seus pares. Foi assim pelo menos até novembro do ano passado, quando começou a guerra na família. Mas mesmo no princípio da fase mais aguda da crise, muitos quadros do banco recusavam-se a aceitar a informação que ia sendo divulgada, como se o grupo estivesse a ser alvo de conspirações.
De alguma maneira, a situação foi semelhante no BCP aquando da crise de Jardim Gonçalves: era venerado pelos seus quadros, a incredulidade foi semelhante. Acresce que, no caso de Ricardo Salgado, muitos se sentiram mais do que dececionados: sentiram-se traídos. Esse terá sido o caso de Amílcar Morais Pires e de outros altos quadros do BES: indefetíveis até ao fim, foram deixados cair.
Curiosamente, Salgado foi negociando com quem o traíra a ele. Como Pedro Queiroz Pereira, com quem acabou por fechar um negócio que separou os dois grupos familiares. Com Carlos Costa, que lhe foi tirando o tapete aos poucos. E com José Maria Ricciardi, o seu primo que liderou uma tentativa de "golpe de Estado" em novembro que falhou. Ricciardi falara então com diversos membros da família, isoladamente, para retirar a confiança a Salgado, mas quem acabou isolado foi ele próprio. Teria o desfecho sido diferente se Ricciardi tivesse conseguido afastar Salgado?
Os últimos meses revelaram que, na geração em causa, a família Espírito Santo só tinha dois potenciais líderes, Salgado e Ricciardi, que são tão parecidos um com o outro como o sal é do açúcar. José Maria Ricciardi foi o único a estar frontalmente contra Salgado e o tempo mostrou que tinha razão. Mais: ele podia ter sido o líder que salvaria o grupo. Mas não teve apoio da família. E, sobretudo, nunca teve um plano alternativo a não ser propor-se a si próprio como líder. Teve uma oportunidade história, não esteve à altura dela.
Hoje, o resto da família já estará com ele. Ou, pelo menos, está contra Ricardo Salgado. Há uma revolta surda entre os vários membros da família dos demais ramos, sobretudo os que estiveram com ele até ao fim, mas já não estão. Hoje, há membros de uma nova geração a despontar, como André Amaral ou Caetano Barão da Veiga, mas não há muito por que lutar. Dos mais velhos, já mais nenhum se solidariza com Salgado. Lealdade não é o mesmo que fidelidade.
O próximo poder
Voltemos à frase atribuída a Rothschild: os banqueiros sabem que o poder maior numa economia está em criar moeda, o que Portugal aliás já não pode fazer. Em Portugal, o poder maior reside no Estado, através da despesa pública e dos impostos, e nos bancos, pela concessão de crédito. Mesmo nos últimos anos, com menos crédito concedido, o poder dos bancos foi suficiente para decidir a vida ou a morte de muitas empresas, pela renovação ou não renovação de créditos e linhas de tesouraria. Fale com qualquer gestor de uma PME, ele explica.
A queda da família no BES está consumada, mas essa não é a única alteração acionista em perspetiva. É hoje difícil perceber como ficará o poder no banco, que está tomado por muitos acionistas especulativos de curto prazo. Além disso, uma entrada do Estado, ainda que com títulos híbridos, significa uma diluição enorme dos acionistas, incluindo dos investidores que entraram no último aumento de capital e que podem acionar legalmente o banco. Mas é óbvio que o BES acabará comprado, porque acabará vendido, mesmo que seja aos poucos, em mercado.
A queda do BES enquanto eixo de poder poderia ter o efeito reverso que teve a queda do BCP em 2007: abrir caminho para que outro banco assomasse. Contudo, nenhum dos bancos portugueses parece ter a força ou sequer a dinâmica para se catapultar neste momento, até porque o mercado português continua a ser um mau "negócio". Assumindo que não há vazios de poder - sempre que há rei morto, há rei posto -, quem, então, pode assumir as rédeas do poder?
A resposta depende menos dos acontecimentos e mais das circunstâncias (Vítor Gaspar vai gostar desta): é o credor estrangeiro. Às vezes chamam-lhe "mercados". O credor torna-se acionista à força e vira investidor. É a força mais poderosa que se abateu sobre a economia portuguesa desde 2010, precisamente por sermos devedores. É o credor estrangeiro que está a reconfigurar a economia portuguesa (e a sua política, que depois de perder as ferramentas cambial e monetária, perdeu agora na prática a liberdade orçamental). É ele que escolhe gestão profissional em vez de familiar, e que prefere sempre fluxos de caixa a qualquer outro tipo de retorno, que pode sempre pressionar o pagamento de dividendos em vez de reinvestimento. É isso que está a acontecer dramaticamente no BES. É isso que vai reconfigurar a economia portuguesa: uma mudança de fora para dentro.
O discurso dos centros de decisão nacional sempre foi essencialmente um discurso de poder, e de manutenção desse poder pelo regime vigente. Hoje é um anacronismo ridículo. O investidor estrangeiro já tomou conta. A EDP e a Ren são hoje chinesas, a Ana é francesa, o BCP, BIC, Zon e Optimus são angolanos, o BPI é hispano-angolano, o BES há de ser de quem o quiser, a Cimpor é brasileira, a PT quer sê-lo, a Galp é apátrida e há dezenas de grandes empresas à venda, incluindo hotéis, seguros, saúde e imobiliário do Grupo Espírito Santo, a TAP ou os resíduos do Estado.
O sistema mudou porque estava falido. O novo regime fala estrangeiro. Precisa de reguladores fortes, para que produza em vez de extrair riqueza de Portugal. Mas essa é a maior mudança a que assistimos. Não foi a troika que a trouxe, foi a dívida. O triste fim do Grupo Espírito Santo não é senão uma forma dramática e espetacular de o percebermos. Como diria José Sócrates, o mundo mudou.
Texto publicado na Revista do Expresso, a 19 de julho de 2014