terça-feira

Luís Castro Mendes - poesia -

Nota prévia: Fui ler alguma poesia do novel ministro da Cultura, Luís Castro Mendes, que desconhecia e que gostei. É fácil ver aqui um homem com sensibilidade poética, estética e cultural, faculdades que ajudam ao novo titular do cargo que, seguramente, terá pela frente desafios que estão muito além da poesia, mas que também passam por ela. Boa sorte. 
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Portugal 
n. 1950 
Poeta/Ficcionista 

Romance de Nós

Estou à beira do mar,
estou à beira de ti.
Ardem no meu olhar
os sonhos que não vi.
Tudo em nós foi naufrágio,
não quisemos saber:
fizemos nosso adágio
do que não pôde ser.
Que resta do amor
a quem é como nós?
Envergonha-me pôr
em verso: «somos sós;
sós como amanhecer
às avessas do mundo;
sós como podem ser
as areias no fundo;
somos sós e sabê-lo
é negar o pronome
que de nós fez novelo
e por nós se consome».

Luis Filipe Castro Mendes, in "Modos de Música" 
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De Amor

Considera o amor como um retoque num quadro antigo 
que subitamente o vem iluminar: 
vimo-nos muitas vezes antes de seres no meu olhar 
aquela luz em um país perdido 
que tu quiseste em vão esconder, negar. 

O quadro manteve o mesmo fulgor: 
a reverberação no silêncio da perda, 
o desamor. 

Quem avivou o brilho das tintas, quem corrigiu o baço 
sinal da morte? Falámos de uma dor 
num fundo esbatido. Falámos do grito mudo do teu corpo. 
Falámos de amor. 

Luis Filipe Castro Mendes, in "Modos de Música" 
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Nós não Somos deste Mundo

Para a solidão nascemos. Outras vozes
nos chamam e invocam, outros corpos
se perfilam radiosos contra a noite.
Nós não somos daqui. Num intervalo
de campanhas esquecidas nos dizemos,
abrindo o coração aos de passagem.
Mas quando a manhã chega nós partimos,
mais livre o coração, longa a viagem.

Luis Filipe Castro Mendes, in "Os Amantes Obscuros" 
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Porque é Tão Ansiosamente que Espero por Ti?

Porque é tão ansiosamente que espero por ti?
Sabias ocultar entre os teus menores movimentos
a lembrança de um corpo e de um ardor sem música
nem esquecimento possível. Quantas cidades
atravessámos, quantos «grandes são os desertos e tudo é deserto»,
quanto alimento para os cães da memória! Deixa-os,
consente o esquecimento, solta com raiva das tuas veias
a música, regressa ao lugar donde partiste. Peço-te,
regressa. Nós nunca acordamos conformes,
nenhuma cifra nos devolverá o número mágico,
vestimo-nos sem convicção e pedimos emprestadas
fórmulas antigas. Da nossa idade
guardámos alguns emblemas, alguns maneirismos.
Acredita-me: é o momento de nos abandonarmos
à necessidade, de açularmos os cães, de sermos nós mesmos
um inquietante rosnido entre as frestas do muro.
Regressemos, não há Ítaca possível, os corpos desfizemo-los
na mesma erosão do seu mágico movimento.
Porque é tão ansiosamente que espero por ti
se nenhuma luz mais cabe no terror de mim?

Luis Filipe Castro Mendes, in "Seis Elegias" 
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