segunda-feira

A reacção do xamã do Parque das Nações




Parece que o banqueiro da Boca do Inferno, o tal que durante 3 décadas foi, alegadamente, o maior corruptor activo do regime político em Portugal, será ouvido na Comissão parlamentar de inquérito à gestão do GES/BES.

Ora, sabendo-se já a natureza e o montante (aproximado) e destino das gigantescas operações/transferências financeiras feitas sob ordens directas (e indirectas) de Ricardo Salgado, relativas a capitais de clientes - institucionais e particulares - cujas implicações arrastaram boa parte da economia nacional para o "vermelho" - não se compreende por que razão a justiça - nuns casos - assume uma posição dura e inflexível e adopta as medidas de coação mais gravosas; noutros casos, em que as consequências para a economia nacional e a alegada fraude fiscal e branqueamento de capitais são mais gravosas - a mesma justiça, que deveria ser cega (não olhando a quem!!) - adopta medidas mais gradualistas. É paradoxal!! 

De facto, se se comparar os crimes por que são acusados o ex-PM e o presidente cessante do board do GES/BES - não se compreende, à primeira vista, por que razão existe uma diferenciação de critérios constantes das medidas judiciais aplicadas. 

Porventura, essa discriminação (positiva para o banqueiro e negativa para o político) só poderá encontrar justificação no facto de o sacerdote justiceiro que está a gerir judicialmente esses casos ser dotado duma particular capacidade de profecia, ou mesmo de cura nacional que mais ninguém possui em Portugal. Aliás, ele, o xamã do Parque das Nações está em todas. Parece até que Portugal só tem um ou dois juízes, e o seu regime de funcionamento está organizado do seguinte modo: abaixo dos 20M€ só os xamãs de menor capacidade judicial é que podem julgar tais casos; acima daquele montante só os xamãs especiais podem julgar.

Dessa forma, o Portugal alegadamente fraudulento e corrupto está assim dependente do mago do Campus da Justiça, pois é dele que depende a cura para os males mais graves do país. 

Adivinha-se até que esse mesmo xamã do Parque das Nações, em futuras intervenções e detenções, passe a acompanhar essas buscas com rituais e cerimónias xamânicas e desenvolva cerimoniais em estado de transe para, desse modo, perscrutar mais eficazmente os problemas multiplicados por grupos de risco que andam a praticar crimes de colarinho branco na economia portuguesa. 

E uma vez que o cante alentejano foi qualificado pela Unesco como Património Cultural Imaterial da Humanidade - é de admitir que as futuras sentenças sejam proferidas em registo de cânticos e danças, acompanhados de instrumentos musicais durante esses rituais xamânicos. 

À cadência a que a justiça funciona, como temos visto em Portugal nos últimos 20 ou 30 anos, em que se instalou um sentimento de grande impunidade na percepção da opinião pública, que entende haver uma justiça para ricos e poderosos e uma outra justiça para gente comum, as práticas judiciais que hoje estamos assistindo remetem mais para estados pouco democráticos do que para um Estado em que o rule of law seja  um valor a salvaguardar.

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