domingo

Mudar de vida - por Paulo Baldaia -

Mudar de vida, in JN

Esta crise já mostrou que temos de reinventar esta estranha forma de vida. Morreu o emprego para a vida e está a nascer o desemprego para a vida dos que têm mais de 50 anos. Há um ano, uma empresa com 30 trabalhadores a fechar era notícia, hoje, é um grão de areia neste deserto onde quase meio milhão de portugueses se encontra. E as perspectivas são de que as coisas vão piorar.
O Mundo está a precisar urgentemente de uma melhor distribuição. O emprego é um bem essencial que tem de chegar para todos. A inteligência também. Patrões e empregados têm de se pôr de acordo, não há empresas viáveis se elas não forem rentáveis.
A Microsoft, multinacional norte-americana, voltou a ser eleita como melhor empresa para trabalhar em Portugal. Mais trinta e tal empresas foram distinguidas pelo "Great Place to Work Institute", entre quase 200 que abriram as portas para mostrar bons exemplos. O Mundo anda desesperado por boas notícias e elas existem.
O líder da Microsoft em Portugal contou como em 1930, época da grande depressão nos Estados Unidos, uma empresa (RCA) olhou para a crise como uma oportunidade. Quando todos despediam, a RCA andava no mercado a contratar os melhores talentos e, quando a crise passou, esta empresa tornou-se das mais rentáveis na maior economia do mundo.
O ministro do Trabalho, Vieira da Silva, também esteve presente na entrega dos prémios e, embora salientasse que as crises levam de arrasto boas empresas, secundou o líder da Microsoft na necessidade de manter os empregos como forma de tornar altamente rentáveis as empresas que sobreviverem à crise.
Chegamos a um ponto em que o trabalho qualificado está tão desvalorizado como o trabalho que não precisa de grandes qualificações. Esbanjámos as oportunidades que o crescimento mundial nos proporcionou. Não procuramos corrigir as desigualdades que existiam e vamos passar por esta crise acentuando o fosso entre ricos e pobres.
Precisamos todos de mudar de vida. Trabalhar mais e exigir mais, consumindo com regras, poupando para poder investir, acreditando que o Mundo será melhor e mais estável se estivermos preocupados com o bem-estar dos outros.
É a hora de arregaçar as mangas, de lutar pelos postos de trabalho. Temos de ser criativos, incansáveis, solidários, produtivos, mas também implacáveis com os que tendo emprego, mesmo perante a grave crise que vivemos, se recusam a fazer parte da solução.
É também a hora de dizer basta, de apontar a porta da saída aos que estão no mercado de trabalho sem vontade de trabalhar, porque há muito quem queira e não tenha vaga. É preciso falar verdade, porque os postos de trabalho defende-se com mais e melhor trabalho. Quem não perceber isto vai passar um mau bocado.
Obs: Um optimista e solidário artigo de Paulo Baldaia, coisa raro no jornalismo e num jornalista. Haja quem faça a diferença. Veremos se a tsf consegue alargar os seus quadros e, assim, emprestar uma dimensão prática a esta formulação solidária do jornalista. Teoria, pelo menos, já temos...