sábado

A perda de poderes "régios" e a reconstrução do político

Vemos aqui A. Gramsci lendo no lado oposto à janela da Liberdade, que seria o espaço onde hoje a oposição em bloco desejaria colocar aquele que tem ganho todos os debates parlamentares. Seria a vingança do chinês - mas em calão nacional.
Mas o ponto desta reflexão prende-se com a perda dos poderes régios dos Estados - que não foi compensada por um investimento do político a nível mundial. O resultado só pode ser mais gravoso para a economia real e para a vida dos elos mais fracos da cadeia social, afectando as classes média e baixa no miolo das sociedades - que hoje vivem com maior dificuldade.
Então, no que consistirá essa reconstrução do político sobre a economia e financeirização do mundo - a que hoje todos estamos entregues!?
Esta é a pergunta que vale um tesouro. E cuja possibilidade de resposta assenta numa maior coordenação das políticas económicas. Pois só pelo preço dessa coordenação é que é possível reduzir a especulação financeira e, consequentemente os riscos associados ao efeito dos mercados desregulados (e derivados), promovendo o relançamento da economia mundial.
No plano teórico, a coisa é tão simples quanto isto, difícil está na concretização desta mega-coordenação global, dados os interesses contraditórios e a cultura política distinta de cada País - cuja política económica urge coordenar. A União Europeia, de per se, não consegue fazer isto, e as instituições de Bretton Woods são o que sabemos: resíduos históricos da Guerra Fria - que têm que ser actualizadas, sob pena de viverem num anacronismo político, económico, financeiro e social gritantes.
Numa palavra: a reconstituição do político faz-se mediante um programa intenso de coordenação internacional das principais políticas públicas regulamentadores das actividades nacionais, não só para conter o jogo duma desregulamentação competitiva (que também seria perversa), como para redobrar as promessas fiscais (e de outras políticas) de que a política macro-económica dos Governos seria utilizada em prol do bem comum e não para servir contabilidades criativas de Orçamentos de Estado - por parte de quem esteja no poder, à esquerda ou à direita.
Os progressos assim realizados mostrariam que a ideia de uma coordenação económica e financeira internacional não é utópica, mas que é até indispensável. Para já a ideia de sobretaxar as pessoas mais ricas e aliviar os escalões fiscais das pessoas com menor rendimento ligada à moção do PS - é uma medida justa.
Recuperar a taxa Tobin - ao nível da justicialização do mercado de acções cotadas em bolsa também não me parece imprudente. Pois boa parte da globalização predatória que escavaca as economias reais e deixa as sociedades "penduradas" - perpassa por aí. Logo também será por aí que deveríamos atacar.
PS: Notas decicadas à memória de António Gramsci por ter sabido resistir e ter aproveitado a privação de liberdade para produzir bom pensamento.