quarta-feira

Quatro anos de lata - por Carlos Fiolhais -

Quatro anos de lata


Foi, porém, bastante pior do que cortar. Os recursos disponíveis, quaisquer que eles fossem, deviam ter sido distribuídos de modo transparente e racional. Mas, com uma tenebrosa gestão na Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), foram atribuídos de modo opaco e irracional, completamente ao arrepio do espírito científico. Em vez de uma política aberta aos contributos da comunidade científica, assistimos a uma política de quero, posso e mando. A pseudo-avaliação das unidades científicas foi o exemplo mais evidente do desatino da política de ciência. A FCT encomendou à European Science Foundation (ESF), uma avaliação que, soube-se depois, continha uma cláusula estranha: metade das unidades devia ser excluída logo na primeira fase do processo. Quando se descobriu que os resultados catastróficos da “avaliação” provinham dessa regra nunca anunciada, justificada ou assumida, o presidente da FCT tentou iludir a realidade, negando o que estava à vista de todos. Acontece que a metade escolhida não era formada pelos melhores centros em várias áreas: bastava consultar índices comummente aceites de produção científica. Os “peritos” da ESF, em número insuficiente e, em geral, insuficientemente qualificados, nem analisaram bem essa produção. Não existiam sequer, em muitos casos, especialistas da área em avaliação, pelo que não admira que alguns pareceres não fizessem, em largos excertos, nenhum sentido. Tal resultou, em parte, de na primeira fase os centros de investigação nem sequer terem sido visitados, como manda a lei. O Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, reconhecendo a validade do coro de protestos, afirmou em carta ao ministro que o processo era um “falhanço pleno”. Foram bastante diplomáticos: podiam ter dito que era uma completa fraude.
Na segunda fase, a arbitrariedade continuou, com atropelo das regras estabelecidas pela própria FCT e visitas feitas, nalguns casos, por praticantes de outras disciplinas que não a que avaliavam. Em suma, a “avaliação” da FCT-ESF não teve nunca a necessária qualidade e, no final, os financiamentos atribuídos nem sequer foram coerentes com ela, tendo sido efectuados essencialmente com base nos pedidos. A FCT falou de "modulação", mas o que fez foi dar tesouradas a seu bel-prazer. Não admira que os protestos tenham de novo chovido. Das 178 unidades que passaram à segunda fase (eram 322 à partida) 123 protestaram. Tal como as da primeira, estas reclamações permaneceram sem resposta atempada e adequada. Só para dar um exemplo do despautério: numa altura dita de austeridade, a FCT decidiu atribuir chorudos financiamentos públicos a fundações privadas.
Em 7 de Abril passado, demitiu-se o presidente da FCT, confrontado não só com o continuado clamor da comunidade científica perante o desconchavo, mas também com a sua ocupação do cargo a tempo parcial. A manifesta incompetência da gestão da FCT foi provavelmente agravada pela falta de tempo do seu presidente, que continuava professor no Imperial College de Londres. Foi então nomeada uma presidente interina, cujo mandato não ultrapassa o do presidente anterior, que ainda não reconheceu publicamente os graves erros. A “avaliação” da FCT-ESF, caucionada do início ao fim por Nuno Crato, lançou o descrédito não só sobre a FCT mas também sobre o ministro. Não pode ser reparada com remendos pois não há nenhuma maneira de endireitar a sombra de uma vara torta.
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Obs: Infelizmente, Carlos Fiolhais, que é um cientista sério e com qualidade, tem razão: Crato é um embuste e encheu a FCT de amigos, familiares e permitiu que a corrupção processual atingisse foros de cidade no sistema de C&T criado por José Mariano Gago há 1/4 de século; o ex-pr. da fct, um tal Miguel seabra, cientista medíocre e gestor incapaz, nada mais fez na FCT do que limpar as latrinas do psd lá dentro; e o resto, é mesmo um resto, ou seja, desconstrução e desinvestimento brutal no sistema de I & D a mando da troika e do incompetente e impreparado Passos coelho, o elemento que alegava desconhecer que tinha de fazer descontos para a segurança social e contribuiu para criar a famosa Lista VIP ao nível da Autoridade Tributária, que consistia em por uns portugueses contra os outros perante o fisco. Nunca se viu tanta corrupção e venalidade na gestão da coisa pública, é que isto nem sequer se pode comparar com o salazarismo, de tão mau que é. 
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Uma avaliação destruidora - por Carlos Fiolhais -

Uma avaliação destruidora




Descobriu-se que havia uma quota escondida no contrato entre a FCT (ordenante) e a European Science Foundation (executante): 50 por cento dos centros eram à partida para abater, de acordo com uma teoria que foi anunciada como sendo uma “poda” (está visto que nada sabem da poda, ninguém poda um pomar abatendo pela raiz metade das árvores ricas em frutos). Descobriu-se também, conhecidos os avaliadores e as classificações por eles atribuídas, que as regras da FCT tinham sido alteradas por ela própria a meio do processo, diminuindo drasticamente o número de avaliadores, o que fez com que haja em muitos casos notas dadas, de um modo necessariamente arbitrário, por não especialistas.
Os investigadores, habituados à competência e ao rigor, não aceitam esta bambochata, que vai causar uma razia sem precedentes num sistema que tão boas provas tem dado até agora, estando num caminho ascensional para a média europeia. O Conselho de Laboratórios Associados, que reúne mais de 2500 cientistas dos maiores e melhores laboratórios, pronunciou-se contra. As Sociedades Portuguesas de Física, Química, Matemática e Filosofia pronunciaram-se contra. A Comissão Nacional de Matemática, que integra todos os centros desta área, pronunciou-se contra. Os Reitores, pronunciaram-se contra. O Reitor da Universidade de Lisboa, de longe a maior do país e também a melhor a avaliar pelo último ranking de Xangai, foi particularmente demolidor. Os sindicatos dos professores e investigadores pronunciaram-se contra. A associação nacional de bolseiros pronunciou-se contra. Até os próprios Conselhos Científicos da FCT se revelaram críticos.
Todos estarão contra esta “avaliação”? Não. O imunologista jubilado António Coutinho, pai assumido da “teoria da poda”, revelou-se num artigo do Expresso a favor, afirmando entre outros dislates que muitos professores universitários tinham era de ensinar, abandonando a investigação que não estaria ao alcance deles mas sim e apenas de grandes mentes. Só há um pequeno problema: ele não é inteiramente isento, pois, além de mentor do abate, é o coordenador do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, órgão presidido por Pedro Passos Coelho e, portanto, comprometido com a política do governo.
O processo continua a decorrer e a causar estragos na reputação do país: a revista Physics Today da Sociedade Americana de Física acaba de dedicar, facto inédito, duas páginas à maior crise da ciência portuguesa. E na comunidade científica: por exemplo, Paulo Veríssimo, um professor sénior de Informática da Universidade de Lisboa, de um centro chumbado, fartou-se e fez as malas para emigrar, tal como alguns bons jogadores de futebol no fim do período de transferências. Para montar o seu grupo, a Universidade do Luxemburgo dá-lhe cinco milhões de euros, quase tanto como os seis milhões que a FCT quer atribuir como “bodo aos pobres”, uma esmola piedosa, para dividir pelos 154 centros condenados.
Além de Coutinho ninguém mais acredita em Miguel Seabra, Presidente da FCT, ou em Nuno Crato, que, como disse o jornalista Nicolau Santos do Expresso, pode ficar conhecido como “science killer”. Executar sumariamente metade dos centros de investigação é algo que nunca pensei que ele fosse capaz. A nossa ciência estava a crescer, mas “fogo amigo” está a dizimar metade das tropas. O pretexto de que nem todos são excelentes é ridículo: há algum país onde todos o possam ser? Essa é aliás a característica da excelência, só alguns o podem ser, mas para o serem precisam de outros. Chamar medíocres aos que não são excelentes, como faz Coutinho, denota uma visão distorcida do mundo.
Os países precisam de ciência e da tecnologia para se desenvolverem. Portugal precisa de aproveitar bem os recursos que tem nesta área. Como país pequeno precisa de aproveitar da forma mais eficiente os seus recursos humanos. Para isso é necessário proceder a uma distribuição inteligente do financiamento, vendo onde é que o investimento de um euro terá o maior retorno. Ao concentrar praticamente todo o financiamento em apenas metade das unidades de investigação, o retorno pode revelar-se bem inferior ao que seria obtido investindo também nalgumas das outras unidades, cujo trabalho meritório está à vista. Um país não se torna mais desenvolvido deitando fora metade da sua ciência e tecnologia, desprezando anos de investimento feito com o dinheiro dos contribuintes, ainda por cima por um processo repleto de irregularidades. Não seria mais útil, para nos tornarmos mais desenvolvidos, deitar fora metade do governo?
Professor universitário 
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Obs: Carlos Fiolhais, mais uma vez, presta aqui serviço público denunciando o crime contra a C & I em Portugal cometida por Nuno crato - com a cumplicidade criminosa do alegado PM, manifestamente impreparado para governar.
O sectarismo ideológico, o garrote financeiro, a incompetência política pura e os preconceitos relativamente ao trabalho laboriosamente criado por Mariano Gago, no decurso duma década, estão na raiz deste killer instinct que a infra-gente da 5 de Outubro inflige à nação. 
Será já por pouco mais tempo. Deles a "estória" (sem H) reservará uma nota de pé-de-página escrita a negro-carvão para os designar como "filhos d´algo".
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sexta-feira

O pior do crato - por Carlos FIOLHAIS -

O pior do Crato


Nunca pensei vir a escrever este título. Sei bem que não é original, pois várias vozes têm vindo a chamar a atenção para erros, cada vez piores, de Nuno Crato na gestão do Ministério da Educação e Ciência. O filósofo José Gil, por exemplo, declarou há pouco: “Temos possivelmente, e vamos descobri-lo, um dos piores ministros da Educação, um homem por quem eu antes tinha uma certa simpatia, que está a continuar a obra de destruição do ensino.”
Também eu simpatizei com Nuno Crato e com a sua ideia de “implosão” do Ministério da Educação. Não tendo ele implodido o ministério, foi o ministério que o implodiu a ele. É hoje um ministro desacreditado de um governo desacreditado. Com a obsessão do crédito da troika perdeu todo o crédito que nele tínhamos depositado. De facto, entre os inúmeros professores e pais que o levaram aos ombros a ministro, a desilusão é enorme. E também entre os eleitores, em geral: o desatino em crescendo das suas políticas valeu-lhe a transição do topo para o fundo da lista dos ministros mais estimados.
Mas agora há pior. Na semana passada, Crato, não contente com os cortes drásticos que efectuou nas bolsas de ciência, obrigando numerosos jovens a emigrar, resolveu liquidar de vez a ciência em Portugal. De um universo de 322 unidades de investigação, condenou à morte a curto prazo 154, cerca de metade. Destas, 83 tiveram Bom, num processo de avaliação que, na parte em que não é obscuro, está empestado de erros e omissões, e têm a morte anunciada. Terão um financiamento ridículo e ficarão impossibilitadas de obter recursos humanos ou equipamentos. Bom, numa escala que contempla ainda Muito Bom, Excelente e Excepcional, é péssimo. E 71 tiveram Razoável ou Insuficiente, o que significa a execução imediata. Foi tudo a eito: Matemática, Física, Engenharia, Sociologia, Filosofia, etc. As outras unidades (168) aguardam o seu destino: estão num limbo e poderão também ser condenadas. O número de investigadores já sentenciados à morte é de 5187 num total de 15.444. Entre eles estão alguns dos melhores cientistas portugueses, nomeadamente Nuno Peres, do Centro de Física do Porto e Minho, e Mário Figueiredo, do Instituto de Telecomunicações, que acabam de ser distinguidos internacionalmente como as mentes mais brilhantes.
O ministro diz – quando diz alguma coisa, porque ficou embatucado quando uma jornalista lhe solicitou uma explicação – que não é nada com ele. Lava as mãos como Pilatos. E remete para os seus subalternos, em particular para a Fundação para a Ciência e Tecnologia – FCT. Esta já foi em tempos uma instituição em que os cientistas confiavam. Mas agora resolveu destruir um sistema de avaliação internacional, exigente e cuidadoso, que estava montado e tinha provas dadas, e experimentar outro, que se está a revelar frágil e tosco. Contratou, não se sabe como nem a que preço, a European Science Foundation – ESF, que está a desfazer a sua actividade em favor de uma nova organização, a Science Europe, e pediu-lhe uma avaliação à distância (isto é, sem ver nem falar com ninguém), com base apenas em papéis, entre os quais um estudo da produção científica. Os resultados são calamitosos para a reputação da ESF e, por salpico, para a FCT e para o ministro. Por um lado, há muitos erros grosseiros, que só por si deviam ser suficientes para denunciar o contrato. Mas, por outro, mesmo desculpando o indesculpável, em muitas disciplinas não bate a bota com a perdigota: por muito criticável que seja o método da folha Excel, esperar-se-ia alguma correlação entre a produtividade científica e a nota dada. Não há, porém, quase nenhuma. O ministro podia ter poupado o erário público se, em vez de contratar avaliadores da ESF, tivesse comprado uma roleta. Fui ver quem eram os avaliadores da minha área. Verifiquei com espanto que esta nem sequer existia. A Física estava amalgamada com a Química e com a Matemática, sendo todas elas avaliadas por um painel constituído por um engenheiro, três físicos, quatro químicos e três matemáticos (sem nenhuma mulher, isto é, sem ninguém pragmático). Este painel é muito pior do que os três, um por disciplina, da última avaliação, que envolveu 15 matemáticos, seis físicos e sete químicos. Um dos ramos maiores da Física – a Física da Matéria Condensada – foi agora praticamente encerrado em Portugal por um painel que só tinha um físico desse ramo. A matéria passou de condensada a condenada! Dantes os avaliadores eram conhecidos e respeitados, hoje são desconhecidos. O resultado só podia ser o desastre que está à vista.
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Obs: O douto Crato quando ainda não era poder participava num programa de rádio ou tv em que assumia o papel-falsete de divulgador científico; uma vez injectado à pressão no Poder pela quota do cds/pp - (o partido que violou todas a linhas vermelhas que se obrigou respeitar!!!) a sua função - de crato - mandatado pelo Terreiro do Paço, é o de destruir literalmente as instituições de C & T e I & D em Portugal seguindo a política do talhante. De cortar tudo, até o osso. 
Seja por uma questão ideológica, programática, sectária e de pura má fé política, ou de todas elas cumulativamente - que encaixam como uma luva neste ministro-tarefeiro que executa as ordens das Finanças.
Desta erva daninha na 5 de Outubro Portugal demorará uma década ou duas a recompor-se. E o mais grave é que dentro de um ano, ou menos, já ninguém se lembrará destas más elites, não obstante isso será o país inteiro quem pagará esta pesada factura que os coveiros do XIX Governo (in)Constitucional legaram a Portugal e aos portugueses. 
A chave para impedir a prossecução desta débacle reside em Belém. Mas o locatário do Palácio Rosa, por um azar dos Távoras, é também alguém que, em rigor, está mais preocupado com a sua carreira pessoal e política e a imagem que faz de si perante a opinião pública e a história - do que com a verdadeira definição do interesse nacional. 
Talvez por isso se tenham inventado uns conselhos de Estado para falar sobre a melhor forma de aplicar os fundos comunitários, uma competência adstrita ao Governo. 
Tamanha é a confusão que vai nessas mentes antipatrióticas que andam literalmente a escavacar o que resta de Portugal. 
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