domingo

Um café com Proust - para medir o tempo em nós -

Instantâneos Diferentes do Ser

Os seres não cessam de mudar de lugar em relação a nós. Na marcha insensível mas eterna do mundo, nós consideramo-los como imóveis num instante de visão, demasiado breve para que seja percebido o movimento que os arrasta. Mas basta escolher na nossa memória duas imagens suas, tomadas em instantes diferentes, bastante próximos no entanto para que eles não tenham mudado em si mesmo, pelo menos sensivelmente, e a diferença das duas imagens mede a deslocação que eles operavam em relação a nós. 

Marcel Proust, in 'Sodoma e Gomorra' 
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terça-feira

Este é o tempo - por Sophia de Mello Breyner



Este é o tempo
Este é o tempo
Este é o tempo 
Da selva mais obscura 

Até o ar azul se tornou grades 
E a luz do sol se tornou impura 

Esta é a noite 
Densa de chacais 
Pesada de amargura 

Este é o tempo em que os homens renunciam. 



Sophia de Mello Breyner
in Mar Novo (1958) 
À Anália que não desiste de evocar Sophia.

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domingo

Fernando Pessoa - plural - e o Tempo -

Vive, dizes, no presente;
Vive só no presente.
Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as coisas que existem, não o tempo que as mede.
O que é o presente?
É uma coisa relativa ao passado e ao futuro.
É uma coisa que existe em virtude de outras coisas existirem.
Eu quero só a realidade, as coisas sem presente.
Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas coisas como presentes; quero pensar [nelas como coisas].
Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes. (...)

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