quinta-feira

Recupero Vergílio Ferreira - o início do começo -

Nota prévia: Talvez o mais irónico da vida é que nascemos frágeis, depois ficamos vigorosos para, logo depois, entrar no longo período de decadência até à multifalência dos órgãos, prenúncio do fim de tudo. Daqui decorre a história do burro cobridor que era desafiado por burras jovens; o problema era quando lhe tiravam a burra nova e lhe colavam a burra velha... Esta metáfora (ou analogia) com a vida do homem pode representar o princípio do interruptor que é a vida humana: umas vezes on, outras tantas of. 


“No limiar da velhice, como é que se finge de vivo? Porque é preciso para estar. Vinte volumes, tenho-os aqui encadernados para a glória da família, falei da vida e da morte, e do amor da cinta para cima e para baixo, e dos deuses, e da política quando mais jovem para aquecer – que é que disso está aqui comigo? Que é que está connosco quando estamos só nós?” (Vergílio Ferreira, Rápida, a Sombra)
Resultado de imagem para esplanada sobre o mar“Um livro ainda, reinventar a necessidade de estar vivo. Mundo da pacificação e do encantamento – visitá-lo ainda – mundo do êxtase deslumbrado. Da minha comoção subtil e íntima, vidrada de ternura até às lágrimas. Da pálida alegria oculta como uma doença. Do frémito misterioso da transcendência visível. Da fímbria de névoa como auréola que diviniza o real. Do reencontro com o impossível de mim. Da quietude submersa. Do silêncio. Um livro ainda – um livro? Frémito do êxtase, a ternura subtil, fímbria, limite, pálida alegria – uqão longe tudo já, ó espaço da maravilha.” (Vergílio Ferreira, Rápida, a Sombra)

Mas no instante de ver-te. A minha ideia é esta: temos a idade do nosso olhar. Não dos olhos, eu disse do olhar.[...]

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sexta-feira

Nítido Nuno e Rápida, a Sombra - por Vergílio Ferreira




Sobre o mar azul até a um limite invisível – meus olhos cansados, esvaídos de horizonte. Encosto-me a um pau do toldo (...) encosto-me às grades brancas da prisão. Vejo-me lá em baixo, como poderia ver-me lá de baixo? Detesto as grandes frases, são do tempo da conquista e da mistificação. E todavia. Estou só e isto deve ser real – instintivamente olho atrás. Uma dor recurva no pescoço, no estômago. Como poderia ver-me lá de baixo? aqui, no intervalo infinito entre a vida e a morte?

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Obs: Vergílio Ferreira sempre singular e excepcional, reflexivo e metafísico - à procura dum sentido para a existência num universo sem sentido. Eis o que aqui recuperamos para o surfar no seu humanismo trágico que nos obriga a olhar para dentro de nós e perceber o que há muito intuímos: vamos morrer. 

Ainda que haja uma outra realidade para além da que conhecemos, como se defende em Rápida, a Sombra, e cuja irrealidade só é acessível pela reflexão, pela ficção, e, doravante, também pela rebeldia - o novo "passe" para ligar a irrealidade ao real, nos intervalos do real e do visível. 


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