terça-feira

Beijinhos - por Eurico Consciência -

Beijinhos

Quero mandar beijinhos para os meus sobrinhos, que ainda não estão em Londres, nem em Genève, nem em Luanda, nem no Maputo, nem em Macau, mas lá irão parar mais dia menos dia, porque os jovens também precisam de ganhar a vida.
Mando também beijinhos para o meu filho, que ficou em casa a colar as pernas duma cadeira, não vá quem se lá sentar dar algum bate-cu.
E também mando beijinhos p’rá minha vizinha Hortense, que me dá raminhos de salsa quando preciso, mas não mando p’ró meu primo Carlos, porque estou farta de lhe dar mostras de que pode avançar, mas, cum raio, o homem…
Ao Senhor Padre da Freguesia também não mando beijinhos, porque já percebi que ele do que gosta é de abraços e que apertados abraços que dá, e demorados! Cada um é como cada qual.
Mas mando muitos, muitos beijinhos ao Sr. Dr. Passos Coelho, coitadinho, que tão sacrificado que tem sido pelo Sr. Dr. Tó Zé Seguro. Não sei se foi por isso que correram com ele. Mal o Sr Dr. Passos Coelho começava a falar, logo gritava o Seguro: Asneira, asneira. Com este governo não vamos a lado nenhum, nunca saímos da crise, mas quando eu for Primeiro Ministro, a crise acaba em seis meses e haverá pleno emprego no ano seguinte, podendo regressar os jovens que emigraram nos últimos anos. Os jovens, que os velhos até convém que não regressem – dizia ele, mas não sei porquê. Também não sei porque é que se atreveu a pedir ao Dr. Passos Coelho que lhe mostrasse as contas bancárias. Olhe que, se todos os políticos tivessem que mostrar as suas contas bancárias, ficávamos todos a saber para onde vai grande parte do dinheiro dos impostos. E ficávamos todos de todo tristes. Mais vale assim: ignorantes e pobretes mas alegretes. 
Ao Sr. Dr. Paulo Portas não dou beijinhos, que ele não precisa, porque ainda lá tem, de certeza, algumas das centenas de beijos que ele costuma recolher nas feiras, quando há eleições.
Também não dou ao Sr. Dr. Marques Mendes. Gosto muito dele, olá se gosto, mas ando mal da coluna e não posso curvar-me:
Quero mandar também muitos beijinhos p’rá minha nora, onde quer que ela esteja, porque saiu de casa há quinze dias e, se se sabe com quem foi, não se sabe para onde foi.
E digo-lhe que volte p’ra casa, que pode voltar, porque o meu filho já me disse que lhe perdoa.
Por fim, mando beijinhos ao meu namorado, que está a dormir a sesta, para que conste que lhe mandei beijinhos, que não quero que se zangue mandaste e deste beijinhos a toda a gente, mas disseram-me que não te lembraste de mim. Depois deixava de me levar à danceteria e passava o tempo a atazanar-me, porque sim ou porque não, porque deixa ou porque torna ou porque torna ou porque deixa, porque me esqueci dele, que andei a beijocar toda a gente, a mandar beijos para toda a gente menos p’ra ele. E como já anda com a cabeça alvorada por causa do meu primo Carlos…
A rogo de Florinda Esteves, por não saber escrever,
 Eurico Heitor Consciência
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Obs: Foi pena que, no catálogo dos "beijinhos" elencados pelo articulista, este não se tivesse lembrado de encontrar um personagem que pudesse enviar beijinhos ao doutor Cavaco, o ainda locatário de Belém. Foi, por isso, uma omissão (analítica) de estrondo  que nenhum Protocolo compreende. 
Beijinhos, muitos beijinhos, nem que fosse para saudar uma partida antecipada, antecipadíssima d´alguém mui parecido com um manequim da rua dos Fanqueiros, presente em corpo, mas ausente d´alma.
Beijinhos ou, em alternativa, flores, pois o estado de saúde do referido dignitário, ainda que se tenha especializado em violar a CRP - nas suas abundantes ajudinhas ao XIX Governo (in)Constitucional, merece que alguém o ajude a concluir com alguma dignidade o seu omisso mandato.
Enfim, como foi possível ninguém ter-se lembrado de enviar beijinhos a Cavaco, ou mostrar-lhe lenços brancos...
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segunda-feira

As virtudes teologais - por Eurico Consciência

por Eurico Consciência - 


Corre por aí uma anedota que quero pôr em letra de forma, para tornar a gozar com ela, e não será por presumir que não há ninguém que a ignore, não será por isso que deixarei de lhes contar que quando Deus fez o mundo e os homens (entre os quais há hoje energúmenos que dizem que não foi Deus que fez os homens, que os homens é que fizeram os deuses), adiante que se faz tarde e pode varrer-se-me da memória a anedota que com grande aprazimento e, para gozo dos que’inda a não sabem e alegre recordação dos que já a ouviram, lhes quero contar; pois, como começara a dizer mas perdi-me, estava a dizer que quando Deus fez os povos resolveu dar duas virtudes a cada um deles, virtudes que os marcariam e distinguiriam per saeculi saeculorum. Duas virtudes somente. Mas onde menos se espera surge o Diabo a tecê-las, e Deus enganou-se e concedeu aos portugueses três virtudes em vez de duas: os portugueses seriam inteligentes, honestos e políticos.
Reparou o S. Pedro, atento, no exagero mas, Deus, tu disseste que marcavas os povos com duas virtudes e só com duas fadaste os restantes povos, mas abençoaste os portugueses com três virtudes: inteligentes, honestos e políticos…
- Foi por descuido – atalhou Deus. Ando cansado. Vamos lá corrigir isso. Toma nota: aos portugueses não retiro nenhuma das três virtudes que lhes atribuí, porque os deuses são homens de palavra; mas cada português só pode usar duas. Por isso, os portugueses podem ser inteligentes e honestos, ou políticos e inteligentes, mas os portugueses honestos não podem ser políticos e os políticos não podem ser honestos. 

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Obs: É com gosto que republico aqui a boa prosa do decano e ilustre advogado de Abrantes - que tem a bondade de partilhar comigo estas peças que condensam reflexão e sabedoria. 
Se bem que em matéria tão árida e complexa, como a da demonstrabilidade da existência de Deus - a melhor forma de abordarmos o tema é por recurso à "anedota", à ironia - que segundo Eça era o sorriso da razão, ao sarcasmo e, claro, como corolário final, empurrarmos para a bandalheira dos políticos que temos todas, ou quase todas, as desgraças que nos acontecem. Até mesmo aquelas que se prendem com a dificuldade "operacional" de demonstrar existência tão complexa, como é provar a existência de Deus. 
Talvez seja boa altura para ler ou reler Sir Bertrand Russel - e recuperar alguns dos grandes argumentos que pugnam pela não existência de Deus, embora também não me passe pela cabeça, em regime alternativo, afectar tamanha responsabilidade e tarefa aos homens, simples cabeças rolantes que erram mais do que acertam. 
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