quarta-feira

Regresso a Vergílio Ferreira - Na tua fa..

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REMAKE, 2016

O regresso a Vergílio Ferreira é, por definição, a descoberta do eu e a definição do outro, aliado à insuficiência da comunicabilidade humana, como que a provar que ou as palavras estão gastas ou o que elas significam ou representam esbarram naquela porta: a da incomunicabilidade. No fundo, o regresso ao autor é sempre uma tentativa de nos superarmos, um apelo à transcendência que, por vezes, está à distância duma mão. 


Resultado de imagem para vergílio ferreira, na tua faceem Na TuA Face é ficcionada a problemática existencial (o amor, a morte, a solidão, a evidência da beleza, a descoberta do eu e a definição do outro, a insuficiência da palavra e a incomunicabilidade humana, e a experiência da doença e da dissolução do corpo, a transcendência). Mas aqui a história do pintor (Daniel) é de certo modo a história da vocação frustrada de Vergílio Ferreira que ao longo da “Conta-corrente” foi repetindo: «Não preferi a minha arte. Calhou-me. Ou talvez seja essa a sorte de todas as preferências: escolhe-se sempre o que nos coube, ou seja o que se é. Mas a verdade é que, se na escolha se escolhesse, escolheria a pintura».

"Não é fácil falar de amor – do amor – num romance como Na tua face que se move num complexo jogo de conexões e espelhos em que todas as coisas parecem ter o seu duplo, em que tudo parece oscilar entre o que se vê e o que se imagina ver, entre o que se vive e o que se evoca. Não é fácil determinar o lugar que o amor aí ocupa se não o considerarmos também ele como sentimento duplo, passível de ser questionado e olhado nas suas duas faces: o real e o irreal, o visível e o invisível, o possível e o impossível. Tudo nesse amor evocado por Daniel é duplo: Ângela e Bárbara são duas faces da mesma moeda que o acompanharão sempre. Ângela será a presença constante na conjugalidade partilhada da casa, dos filhos, das férias, mas também das leituras, das conversas, dos momentos de dor e silêncio… Bárbara será o objecto da evocação obsessiva; manter-se-á presente na memória de um breve instante, no eco de um chamamento, como manifestação de plenitude, de perfeição, de eternidade, a faceque se vê, mas só no impossível:

“Então olhei-a em deslumbramento e terror no intocável do seu ser. Queria ver-lhe os olhos verdadeiros e a boca e a face, mas não estavam lá. Porque eram só uma aparição difusa incontornável como a luz do ar que não se via e era só iluminação. (…) Via-lhe a face mas só no impossível como lha vejo agora” (pp.24-24).

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quinta-feira

Vergílio prepara - Delphonics na sombra fugidia do Verão - e Paul Randolph

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Há o desejo, que não tem limite, e há o que se alcança, que o tem. A felicidade consiste em fazer coincidir os dois.





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Hey! Love
Hey love (hey love)
Turn your head around (turn your head around)
Take off that frown
Your in love
Wake up (wake up)
Open the door (open the door)
Don't cry no more
Your in love
You know we need each other
And you girl
Yes you should be lovin' me
Lets go on together
We'd be happy
So happy
Hey love (hey love)
Its a new day (its a new day)
No time to play
We're in love
Wake up (wake up)
In your own way (in your own way)
Than you might say
Your in love
Hey love
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Sir Paul Randolph - FicA.

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sábado

Recupero Vergílio Ferreira...

- Da série: - "casa ou comboio" - 
- Género: conto ou "encontrão"


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- A rapariga estava sentada a uma mesa numa esplanada sobre o mar. Vestia de branco eera loura, mas muito queimada do sol. Ao lado da mesa estava montado um guarda-sol giratório de pano azul que o criado veio regular, para acertar bem a sombra. O criado não perguntou nada e inclinou-se apenas e a rapariga pediu um refresco. Era a meio da tarde e o sol batia em cheio no mar, que se espelhava aqui e além em placas rebrilhantes. O céu estava muito azul e o ar eramuito límpido, mas no limite do mar havia uma leve neblina e os barcos que aí passavam tínhamos traços imprecisos, como se fossem feitos também de névoa. Na praia que ficava em baixo não havia quase ninguém e o mar batia em pequenas ondas na areia. A espuma era mais branca, iluminada do sol, e o ruído do mar era quase contínuo e espalhado por toda a extensão das águas.  [...]

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quinta-feira

Recupero Vergílio Ferreira - o início do começo -

Nota prévia: Talvez o mais irónico da vida é que nascemos frágeis, depois ficamos vigorosos para, logo depois, entrar no longo período de decadência até à multifalência dos órgãos, prenúncio do fim de tudo. Daqui decorre a história do burro cobridor que era desafiado por burras jovens; o problema era quando lhe tiravam a burra nova e lhe colavam a burra velha... Esta metáfora (ou analogia) com a vida do homem pode representar o princípio do interruptor que é a vida humana: umas vezes on, outras tantas of


“No limiar da velhice, como é que se finge de vivo? Porque é preciso para estar. Vinte volumes, tenho-os aqui encadernados para a glória da família, falei da vida e da morte, e do amor da cinta para cima e para baixo, e dos deuses, e da política quando mais jovem para aquecer – que é que disso está aqui comigo? Que é que está connosco quando estamos só nós?” (Vergílio Ferreira, Rápida, a Sombra)
Resultado de imagem para esplanada sobre o mar“Um livro ainda, reinventar a necessidade de estar vivo. Mundo da pacificação e do encantamento – visitá-lo ainda – mundo do êxtase deslumbrado. Da minha comoção subtil e íntima, vidrada de ternura até às lágrimas. Da pálida alegria oculta como uma doença. Do frémito misterioso da transcendência visível. Da fímbria de névoa como auréola que diviniza o real. Do reencontro com o impossível de mim. Da quietude submersa. Do silêncio. Um livro ainda – um livro? Frémito do êxtase, a ternura subtil, fímbria, limite, pálida alegria – uqão longe tudo já, ó espaço da maravilha.” (Vergílio Ferreira, Rápida, a Sombra)

Mas no instante de ver-te. A minha ideia é esta: temos a idade do nosso olhar. Não dos olhos, eu disse do olhar.[...]

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segunda-feira

Felicidade - por Vergílio Ferreira -


Há o desejo, que não tem limite, e há o que se alcança, que o tem. A felicidade consiste em fazer coincidir os dois.
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quarta-feira

Re-evocação de Vergílio Ferreira (a)



Cai a Chuva Abandonada

Cai a chuva abandonada 
à minha melancolia, 
a melancolia do nada 
que é tudo o que em nós se cria. 

Memória estranha de outrora 
não a sei e está presente. 
Em mim por si se demora 
e nada em mim a consente 

do que me fala à razão. 
Mas a razão é limite 
do que tem ocasião 

de negar o que me fite 
de onde é a minha mansão 
que é mansão no sem-limite. 
Ao longe e ao alto é que estou 
e só daí é que sou. 

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1' 
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Vergiliar na esquina da eternidade



Quais são as tuas palavras essenciais? As que restam depois de toda a tua agitação e projectos e realizações. As que esperam que tudo em si se cale para elas se ouvirem. As que talvez ignores por nunca as teres pensado. As que podem sobreviver quando o grande silêncio se avizinha.

Escrever

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terça-feira

Regresso a Vergílio Ferreira: A hora da morte é um tempo de verdade.

Regresso ao maior escritor-pensador português da 2ª metade do séc. XX. 


Diz-se que a hora da morte deve ser um tempo de verdade. Revê-se a vida toda num instante. É o instante do infinito com a eternidade no centro, Nítido Nulo (p.64); diz-se que à hora do fim, pensá-la [a vida]. Não bem pensá-la - fogachos, trapos da memória. Às vezes um demora-se.Ou brilha tanto que é como se se demorasse. Ou demora-se mesmo, porque a vida é bem difícil e tem de haver uma compensação. Ainda agora, olhando as ondas.., balanço da vida à morte, vou à aldeia (Rápida, a Sombra: 79). 

- É impressionante como Vergílio Ferreira faz com que o tempo da narração acompanhe o percurso do sol, do apogeu ao poente, metaforizando a existência: o entardecer equivale ao envelhecimento do narrador. A aventura rememorativa associa-se assim a um itinerário mítico, é um entardecer angustiante entre a maturidade solar e a fulguração do poente, que coincide com o final da narração. O final de Para Sempre coincide assim com o poente, índice premonitório da morte que se avizinha, no fundo a verdade crespuscular de Paulo:

  • Desço de novo à sala, olho ainda a tarde que se apaga. E é como se eu próprio me evolasse com essa tarde e de mim ficasse o que útil necessário me sustentasse o viver (Para Sempre: 305).


Conotada com o entardecer da velhice, a narração extingue-se com a noite, imagem de inúmeros fins. 

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sábado

Vergílio Ferreira - entre a casa e o comboio nos flash-backs ao futuro -

Nota prévia: O homem vive num constante tandem, que parece obedecer ao freudiano princípio do prazer e da realidade. Desejamos uma coisa e sai-nos outra; queremos percorrer um caminho e somos condicionados a trilhar outro; por vezes, ficamos entalados entre a casa - que já não é nossa - e o comboio que não sabemos se o podemos apanhar e vegetamos nas escadas do sonho e do desejo. Talvez o melhor mesmo seja andar a pé e, pelo caminho que ainda há a percorrer, aproveitar cada passo que se pode dar observando cuidadosamente a paisagem, a qual não nos devolve o passado sonhado, mas pode aliviar um futuro incerto e programado dentro de certas balizas. Só assim se poderá redescobrir a vida nos seus elementos mais simples, como refere o escritor. 
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No final de uma vida, entrando no seu epílogo, um homem já sem destino para cumprir medita sobre o seu passado e o seu futuro, no regresso a uma casa vazia onde passou parte da sua infância, povoada de fantasmas que evocam os momentos chave da sua existência. Recheado de flash-backs para o passado e para o futuro (!), a antevisão, real e com todos os detalhes, da degradação da sua velhice e do seu funeral urge em Paulo a derradeira tentativa de procura da explicação de um sentido para a vida, alimentada por muitos sonhos e esperanças no tempo em que tal era devido, cheia de frustrações e desilusões posteriores frutos de um destino azarado e de uma fatalidade previsível, condições propícias para um redescobrir da vida nos elementos mais simples que anteriormente passavam despercebidos na azáfama do cumprimento do quotidiano e de toda uma vida alicerçada nos seus valores supostamente mais altos. [...]
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domingo

Vergílio Ferreira e a sociedade sem classes...


Como é que se sonha com uma «sociedade sem classes»? A ambição de estar por cima vem nos cromossomas. É por isso que um mendigo tem cão. E se há pessoas de luxo que adoptam cães mas não crianças, é porque um cão é uma criança que não cresce nunca. 

in VF, CC - 2 


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sexta-feira

Espaço do Invisível - Vergílio Ferreira -

Nota prévia: Estas breves considerações do autor sobre a arte espelham a sua cultura filosófica e sociológica que lhe permitiu "ver claramente visto" um conjunto de coisas através da consideração da arte: que o mundo é feito de subjectividades, o que aprendemos com Kant; que não há neutralidade absoluta, o que aprendemos com Max Weber; e que tudo o mais, em particular nos domínios da literatura e das artes, decorre de actos de pura imaginação e de invenção da mente, os quais terão tanto mais sucesso quanto maiores forem as suas conexões com a realidade do tempo que procuram reflectir. Seja no mundo físico, seja no mundo dos comportamentos humanos em que, por ex., Eça foi genial - como cita Vergílio. Este foi, para alguns, o princípio de tudo. Razão por que deve ser cultivado, acarinhado e promovido. 

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O Mundo Nunca Se Vê de Modo Objectivo

O que a arte nos ensina não é puro discernimento, é a relação mais profunda de nós próprios com o mundo, é verdadeiramente o «ver». Se dizemos que um Eça nos reinventou tal mundo, dizemos que outros artistas eram antes dele responsáveis pelo modo como o víamos. E há sempre um modo de ver, que é sempre um mundo estético. Porque o mundo se não vê numa estrita e impossível dimensão «objectiva»: um objecto não nos é nunca neutro, puramente indiferente. O «novo realismo» francês (de um Butor, Robbe-Grillet, de outros) por mais que se pretenda confinado ao «objecto» (como em Robbe-Grillet) não anula a presença do «sujeito». Uma visão estritamente «objectiva» seria ainda sentida como tal... Mas acontece que uma forma «nova» de ver acaba por assimilar-se àquilo mesmo que somos, tendendo a identificar-se com o que julgamos a nossa «natureza». 
A presença do artista esquece-se, como se o artista fôssemos nós - e um artista inconsciente. E é só ao choque de uma visão original que nós despertamos para uma visão diferente e sentimos que é diferente essa visão: consubstanciada connosco, ela será de novo nossa. 
A mesma recuperação de uma visão original se opera na própria recuperação de uma obra de arte: a visão do mundo realizada pode passar-nos despercebida. É a recuperação dessa visão que define a descoberta de um artista esquecido - e, através dele, do mundo que nos reinventara. 


Vergílio Ferreira, in 'Espaço do Invisível I (Vida, Arte)' 
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Esplanar - por Vergílio Ferreira -



[...] O teu corpo não era só tu. Havia nele o mar e a areia e tudo o que convergia para a tua vitalidade a transbordar. Porque um corpo perfeito, querida, precisa de muito espaço à volta para irradiar a sua perfeição. Deus está em todo o lado por isso. Havia uma ligação de ti com as coisas, com as mais distantes, para se cumprir a tua divindade. Havia um pacto de ti com o que existe, que é o que se vê e o que se não vê disso que se vê.[...]

in E N. da T.

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domingo

Vergílio Ferreira


A nossa vida é toda ela feita de acasos. Mas é o que em nós há de necessário que lhes há-de dar um sentido.


Conta-Corrente 5

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terça-feira

Vergílio Ferreira - Pensar -




Não poderás vencer a morte. Mas impõe-lhe a vida como um bandarilheiro e verás que muitas vezes ela marra no vazio.


in Vergílio Ferreira, Pensar

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quarta-feira

Pensar - Vergílio Ferreira -


Como os ponteiros de um relógio ou um barco à distância, a vida imobiliza-se-nos para sempre em cada instante em que estamos. Mas no instante seguinte reparamos que ainda estamos imobilizados mas já noutro sítio.


in Vergílio Ferreira - Pensar. 





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domingo

Vergílio Ferreira, Aparição



Sento-me aqui nesta sala vazia e relembro. Uma lua quente de Verão entra pela varanda, ilumina uma jarra de flores sobre a mesa. Olho essa jarra, essas flores, e escuto o indício de um rumor de vida, o sinal obscuro de uma memória de origens. No chão da velha casa a água da lua fascina-me.Tento, há quantos anos, vencer a dureza dos dias, das ideias solidificadas, a espessura dos hábitos, que me constrange e tranquiliza. Tento descobrir a face última das coisas e ler aí a minha verdade perfeita.

Mas tudo esquece tão cedo, tudo é tão cedo inacessível. Nesta casa enorme e deserta, nesta noite ofegante, neste silêncio de estalactites, a lua sabe a minha voz primordial. Venho à varanda e debruço-me para a noite. Uma aragem quente banha-me a face, os cães ladram ao longe desde o escuro das quintas, fremem no ar os insectos nocturnos. Ah, o sol ilude e reconforta. Esta cadeira em que me sento, a mesa, o cinzeiro de vidro, eram objectos inertes, dominados, todos revelados às minhas mãos.
Eis que os trespassa agora este fluido inicial e uma presença estremece na sua face de espectros... Mas dizer isto é tão absurdo! Sinto, sinto nas vísceras a aparição fantástica das coisas, das ideias, de mim, e uma palavra que o diga coalha-me logo em pedra. [...]

in VF, Aparição, Bertrand Ed., 1999, págs. 9-10. 
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sexta-feira

Nítido Nuno e Rápida, a Sombra - por Vergílio Ferreira




Sobre o mar azul até a um limite invisível – meus olhos cansados, esvaídos de horizonte. Encosto-me a um pau do toldo (...) encosto-me às grades brancas da prisão. Vejo-me lá em baixo, como poderia ver-me lá de baixo? Detesto as grandes frases, são do tempo da conquista e da mistificação. E todavia. Estou só e isto deve ser real – instintivamente olho atrás. Uma dor recurva no pescoço, no estômago. Como poderia ver-me lá de baixo? aqui, no intervalo infinito entre a vida e a morte?

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Obs: Vergílio Ferreira sempre singular e excepcional, reflexivo e metafísico - à procura dum sentido para a existência num universo sem sentido. Eis o que aqui recuperamos para o surfar no seu humanismo trágico que nos obriga a olhar para dentro de nós e perceber o que há muito intuímos: vamos morrer. 

Ainda que haja uma outra realidade para além da que conhecemos, como se defende em Rápida, a Sombra, e cuja irrealidade só é acessível pela reflexão, pela ficção, e, doravante, também pela rebeldia - o novo "passe" para ligar a irrealidade ao real, nos intervalos do real e do visível. 


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domingo

UMA ESPLANADA SOBRE O MAR - por Vergílio Ferreira -

  • À memória de Vergílio Ferreira - e aos que continuam a "dar erros"... 

- Porque o erro é uma verdade a aguardar vez...

- Belos.., belos são os acasos. 
Os bons acasos, especialmente quando ambos veem claramente visto o fundo do mar, ainda que INDICÍVEL seja a morte - incontornável - problema da nossa existência!!!



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UMA ESPLANADA SOBRE O MAR


A rapariga estava sentada a uma mesa numa esplanada sobre o mar. Vestia de branco e era loura, mas muito queimada do sol. Ao lado da mesa estava montado um guarda-sol giratório de pano azul que o criado veio regular, para acertar bem a sombra. O criado não perguntou nada e inclinou-se apenas e a rapariga pediu um refresco. Era a meio da tarde e o sol batia em cheio no mar, que se espelhava aqui e além em placas rebrilhantes. O céu estava muito azul e o ar era muito límpido, mas no limite do mar havia uma leve neblina e os barcos que aí passavam tinham os traços imprecisos, como se fossem feitos também de névoa. Na praia que ficava em baixo não havia quase ninguém e o mar batia em pequenas ondas na areia. A espuma era mais branca, iluminada do sol, e o ruído do mar era quase contínuo e espalhado por toda a extensão das águas.
A rapariga de vez em quando olhava ao lado a porta que dava para a esplanada e depois olhava o relógio. Voltava então a olhar o mar e ficava assim sem se mover. Tinha os olhos azuis muito brilhantes, contra a pele morena e o traço negro que os contornava. Foi num desses momentos de alheamento que o rapaz entrou. À porta da esplanada deteve-se um momento a orientar-se por entre as mesas ocupadas, mas logo localizou a rapariga sob o guarda-sol azul. Vestia calça branca e uma camisola amarela de manga curta. E era louro como a rapariga. Quando ela o reconheceu, fez-lhe sinal, mas ele já a tinha visto. Sentou-se-lhe ao pé e olhou em volta como se procurasse alguém. As mesas estavam quase todas ocupadas sob guarda-sóis coloridos e uma ou outra ao sol. Era quase tudo gente jovem, vestida de cores claras de praia.
– Desculpa, fiz-te esperar – disse ele.
– Cheguei há pouco, o criado nem trouxe ainda o que lhe pedi. E que é que me querias dizer?
O criado, com efeito, trazia o refresco para a rapariga, voltou-se para o rapaz a perguntar se tomava alguma coisa.
– Pode ser o mesmo – disse o rapaz.
O sol caía em cheio sobre a praia, iluminava o mar até ao limite do horizonte.
– Que é que me querias dizer? – perguntou de novo a rapariga. Ele sorriu-lhe e tomou-lhe uma das mãos que tinha sobre a
mesa.
– Gosto de te ver – disse depois. – Gosto de te ver como nunca. Fica-te bem o vestido branco.
– Já mo viste tanta vez.
– Nunca to vi como hoje. Deve ser do sol e do mar. – Que é que querias?
– Deve ser dos olhos limpos com que to vejo hoje. O criado trouxe o novo refresco e ambos se calaram, tomando as bebidas.
– Não sei para que são tantos mistérios – disse a rapariga. –O melhor é dizeres logo tudo de uma vez.
– Não se trata de mistérios. Trata-se de estar certo o que te disser.
– Porque é que não há-de estar certo? – perguntou a rapariga. – Por tanta coisa – disse o rapaz. – Eu achei que te ficava bem o vestido e tu estranhaste que eu o dissesse.
– Já me tinhas visto o vestido muita vez. Foi só por isso.
– Nunca reparaste que há certas coisas que nós já vimos muitas vezes e que de vez em quando é como se fosse a primeira? – Nunca reparei – disse a rapariga.
– Nunca ficaste a olhar o mar muito tempo?
– Sim, já fiquei.
– Ou o lume de um fogão? – disse o rapaz.
– E que queres dizer com isso?
– Ou uma flor. Ou ouvir um pássaro cantar.
– Sim, sim.
– Não há nada mais igual do que o mar ou o lume ou uma flor. Ou um pássaro. E a gente não se cansa de os ver ou ouvir. Só é pre¬ciso que se esteja disposto para achar diferença nessa igualdade. Posso olhar o mar e não reparar nele, porque já o vi. Mas posso estar horas a olhar e não me cansar da sua monotonia.
O rapaz tinha o olhar absorto na extensão das águas e permaneceu calado algum tempo. As águas brilhavam com o reflexo do sol na agitação breve das ondas. A rapariga calava-se também, fitando o rapaz, porque percebia que ele não acabara de falar. Mas o rapaz calou-se como se não tivesse mais nada a dizer e ela perguntou:
– Mas que é que querias dizer-me?
– Mesmo as coisas mais banais são diferentes se alguma coisa importante se passou em nós.
– Se alguma coisa importante se passou em nós, não reparamos nas coisas – disse a rapariga, acendendo um cigarro.
– Se é coisa mesmo importante, tudo se nos transfigura – disse o rapaz, de olhar alheado no horizonte.
– Que coisa importante? – perguntou a rapariga.
Mas ele não respondeu e ela perguntou outra vez:
– Que coisa importante?
– Não sei. Uma coisa importante. Se te morresse o pai e a mãe e ficasses subitamente sozinha, o mundo transfigurava-se. Se tivesses tentado o suicídio e te salvassem, mesmo as pedras e os cães começavam a ser diferentes. Estavas farta de conhecer os cães e as pedras, mas eles eram diferentes porque os olhavas com outros olhos.
E de novo se calou. Mas agora também a rapariga se calava na indistinta ameaça de não sabia o quê. O sol rodara um pouco, apanhava agora a cabeça do rapaz, incendiando-lhe o cabelo tombado para a testa. Levantou-se, tentou ela fazer girar o guarda-sol azul no pé de ferro articulado, seguro com um gancho recurvo e uma pequena corrente. Sentou-se de novo mas verificou que ficava ela agora com uma mancha de sol que lhe apanhava um ombro e o braço e uma pequena zona da face. Bebeu um pouco de refresco, olhou distraidamente a linha longínqua do limite do mar. Havia no rapaz uma notícia a dar, mas a rapariga não sabia como fazer a pergunta certa para estar certa com a resposta que queria ouvir. E de súbito disse:
– Pediste-me para estar aqui às quatro horas. Telefonaste-me duas vezes. Vieste à praia para isso. Porque é que afinal vieste?
– Mas tenho estado a explicar-te porque vim.
– Tens estado a explicar porque vieste. Mas falta o mais importante. Falta dizeres por exemplo que tudo está acabado entre nós. Falta dizer que essa tal tua amiga sempre conseguiu o que queria. Falta dizer que nunca me achaste tão bela como hoje, mas que já me não podes amar. Falta dizer isso, mas tens de preparar o terreno, porque a coragem nunca foi o teu forte e julgas que não é o meu.
Falava devagar mas com uma grande intensidade interior, e ficou assim ruborizada, os olhos brilhantes de violência. O rapaz ouviu-a e não respondeu. Pensou primeiro concordar com a rapariga e dizer-lhe talvez que já a não amava. E evitava assim ter de lhe dizer a verdade. Quando ela depois a soubesse, talvez já não sofresse, talvez o esquecesse mais depressa. Mas sofreria ele por aceitar uma mentira que ia contra o que sentia. Julgava ser mais fácil dizer tudo e via agora que não.
– Nada disso é verdade – disse por fim.
O mar brilhava cada vez mais. As placas incandescentes tremeluziam nas águas e faziam semicerrar os olhos ao rapaz. Vergou-se para a mesa e bebeu um gole de refresco.
– Há coisas que é difícil dizerem-se – continuou. – É preciso que tudo esteja de acordo. Com esta luz e esta alegria de Verão e este bem-estar de uma esplanada, eu não podia dizer-te, por exemplo, que me vou matar.
– Que estupidez. Mas não tentes desconversar.
– Seria estúpido – disse o rapaz. – Não vou de facto matar-me. Mas não tinha outra maneira de to dizer, se fosse. E seria estúpido, porque tudo estava em desacordo. Não era coisa que se dissesse a uma hora de praia e de sol.
A rapariga ficou a olhá-lo algum tempo intensamente, a tentar ouvir-lhe o que já não dizia.
– Nunca está certa, aliás, seja a que hora for – continuou o rapaz. – Tudo pode estar certo talvez a qualquer hora. Menos essa banalidade ridícula da morte. De tudo se pode falar, menos dela. Nem falar, nem filosofar, nem fazer seja o que for que a tenha a ela em conta. Há uma aliança contra ela como contra uma infâmia. Ou como se o não falar a excluísse. E é a única verdade perfeita.
– Mas é uma conversa idiota – disse a rapariga fitando o companheiro de lado, a entender.
– Tudo é erro e ludíbrio: o triunfo, o poder, as ideias, mesmo as matemáticas. Tu pensa no que quiseres e verás que tudo erra. Há só uma coisa que não. E é do que se não pode falar.
O sol baixara um pouco e estendia agora uma estrada de lume pelas águas. Um barco à vela atravessou-a e um momento foi como se as chamas o envolvessem. O rapaz calou-se e a rapariga não sabia que perguntar. Ou tinha várias perguntas, mas não sabia qual estaria certa.
– Sempre fazes exame em Outubro? – disse ela por fim. Tentava contorná-lo ou distraí-lo, para depois o surpreender onde ele não esperasse.
– Não devo fazer – disse o rapaz. – E mesmo não seria nunca em Outubro. Os exames de Outubro são sempre em Novembro ou Dezembro. Às vezes vão mesmo até ao segundo período.
– Por que é que não deves fazer? – perguntou a rapariga.
O rapaz olhou-a no seu vestido de praia, na cor morena da pele, nos cabelos claros que lhe caíam sobre os ombros, e outra vez sentiu que não sabia como responder. Na praia havia já alguns veraneantes à sombra dos toldos ou estendidos ao sol. Um ou outro mergulhava mesmo nas ondas cheias de luz.
– Por que não deves fazer? – insistiu a rapariga. – Tens ainda uns meses para te preparares.
– Creio que um mês chegava-me – respondeu o rapaz. – Mas não adiantava nada.
– Por que não adiantava? – perguntou a rapariga.
Ele ficou em silêncio outra vez, olhando o mar. Tinha uma resposta certa, mas tinha medo dela como se ele próprio a não soubesse. Depois disse:
– O médico foi claro. Havia um relógio na secretária e olhei as horas. Eram cinco precisas. Estava calmo e reparei. Tenho dois ou três meses no máximo. O tempo contado dia-a-dia. E é extraordinário como tudo agora me parece diferente. Mais belo talvez. Creio que vou viver agora mais intensamente. Dia-a-dia. E três meses no máximo.
– Espera! Três meses como? – disse a rapariga, subitamente iluminada.
Pôs-lhe a mão no braço e olhava-o fixamente. Ele olhou-a também e ambos ficaram a tentar entender-se em silêncio. Depois ela tirou a mão do braço do rapaz e acendeu novo cigarro. O sol escorria do alto e inundava-lhes agora toda a mesa. O rapaz tomou o copo e bebeu um gole devagar.
– Diz outra vez – repetiu a rapariga. – Deixa-me entender. Diz outra vez, para entender tudo muito bem.
– Tu vais dizer que tudo isto é estúpido e eu sei bem que é. Mas se a gente pensar bem, a estupidez é só nossa.
– Sim. Mas explica tudo muito bem. Desde o princípio. Devagarinho.
– A estupidez é só nossa, porque a vida não é verdade. Mas é a única coisa em que se acredita – disse o rapaz.
– Sim – repetiu a rapariga. – Mas era bom que explicasses desde o princípio. Devagarinho. Para eu não acreditar também. Está um dia cheio de sol.
– Mas a explicação é simples – disse ele, balouçando o líquido no fundo do copo. – Eu vou explicar tudo. Eu vou.
Estava uma tarde cheia de sol. As águas brilhavam até ao limite do horizonte, um barco à vela ia passando pela estrada de lume. O ar estava quente. E a brisa do mar quase não chegava ali.

(in Vergílio Ferreira, Contos, 6.a ed., pp. 243-250, Bertrand Editora, Lisboa, 1995, 256 pp. La ed. 1976.)

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sexta-feira

Recordar Vergílio Ferreira

Espólio Como Vergílio Ferreira preparou o futuro Isabel Coutinho
Uma novela e um romance inéditos, que Vergílio Ferreira optou por não publicar em vida, saíram na Quetzal, que está a reeditar a obra completa. A equipa de investigadores que está a trabalhar o seu espólio conta ao Ípsilon as razões da decisão Eça de Queirós achava que se deviam publicar de um homem célebre até as "contas do alfaiate". Quem conta isto é o escritor Vergílio Ferreira num dos volumes do seu diário "Conta?Corrente", a propósito de uma discussão que teve com a sua mulher, Regina Kasprzykowski, sobre se é lícito ou não publicar?se o que um autor rejeitou. Para Vergílio Ferreira, "um autor não dá garantias quase nenhumas (mormente quando grande autor) sobre a valia do que realiza. E não há obra medíocre alguma de um autor que lhe destrua a obra superior."
O escritor foi mais longe: "Saber como se errou, progrediu, hesitou - tudo são modos de ampliar o conhecimento de um autor. De qualquer modo, se um artista não quer que se lhe conheça a obra, destrua a ele". Vergílio Ferreira não destruiu a sua e deixou o acervo tão organizado que só poderia estar a pensar no futuro.
Dois inéditos do autor chegam agora às livrarias, editados pela Quetzal: uma novela ("A Curva de Uma Vida", 1938) e um romance ("Promessa", de 1947). Passados tantos anos depois da publicação de "Cartas a Sandra", o último romance do Prémio Camões 1992, já saíram do seu espólio "Escrever" (livro em que estava a trabalhar quando morreu), um "Diário Inédito" e estas duas obras. "Promessa", que teve como primeiro título "Sequência", é o único romance inédito completo que existe no espólio e a decisão de o trazer a público não foi fácil de tomar para a equipa de investigadores e professores que está a estudar, catalogar e anotar a sua obra.
Em 1997, a família de Vergílio Ferreira doou o espólio do escritor à Biblioteca Nacional e, por sua sugestão, foi criada uma equipa para o estudar dirigida pelo académico Helder Godinho, seu aluno e amigo, que fez a tese sobre a sua obra.
A investigadora Ana Isabel Turíbio, que faz parte do grupo de estudo e inventariou o espólio, diz que este estava organizado a pensar nos estudiosos futuros. "O espólio vinha muito organizado, com as abreviaturas desenvolvidas, com alguns comentários para ele próprio ('anotei outra cópia e agora não sei onde está'; 'críticos de lábia fácil não imaginam o esforço...'). Vê-se que é um espólio trabalhado, deixado para a posteridade. Tive oportunidade na Biblioteca Nacional de mexer em papéis de vários autores e nem todos têm essa consciência de os deixar arrumadinhos", conta. Através do estudo do espólio a investigadora percebeu que Vergílio Ferreira ia revisitando os seus papéis. "Mexia e, às vezes, até datava essas visitas. Às vezes chegamos lá pelos instrumentos utilizados, pelas canetas, pelas tintas."
"Ele estava a preparar o espólio para o futuro. Tinha essa noção de que era necessário conhecer tudo o que um escritor fez para substanciar a apreciação que fazemos dele", acrescenta Helder Godinho.
As hesitações do autor
Vergílio Ferreira morreu aos 80 anos, a 1 de Março de 1996. Nas últimas décadas, muitos dos seus títulos foram desaparecendo das livrarias. "A publicação dos inéditos veio agitar as águas e ter o efeito contrário a esse adormecimento", considera o investigador. "Houve uma má gestão da edição e do catálogo. Há muitos livros que se deixaram esgotar", lamenta.
Francisco José Viegas, editor da Quetzal, está a reeditar a obra completa e a publicar os inéditos encontrados no espólio. A reedição de "Na Tua Face" sai este mês, as reedições "Cartas a Sandra" e "Carta ao Futuro" estão previstas para Setembro. No próximo ano deverão publicar a edição crítica de "O Caminho Fica Longe" (por Ana Isabel Turíbio). Em preparação está a edição genética de "Onde Tudo Foi Morrendo", bem como uma edição de "Sobre o humorismo de Eça de Queirós" - no espólio existe uma segunda edição completamente preparada que deveria ter saído em 1945, mas que Vergílio Ferreira não chegou a publicar. Em negociação está um contrato com uma agente literária internacional que ficará com os direitos da obra para o mundo inteiro.
Esta equipa que estuda o espólio, e que inclui ainda Fernanda Irene Fonseca e Cátia Barroso, assumiu a responsabilidade de trazer a público o romance e a novela que o autor não publicou em vida por várias razões. Uma delas é o facto de Vergílio Ferreira ter emprestado há 30 anos o original dactiloscrito do romance "Promessa" (1947) a Helder Godinho quando ele estava fazer a sua tese. "Portanto, ele não rejeitava o livro", afirma o académico. "Eu estava a fazer a tese de doutoramento e o Vergílio Ferreira disse-me que havia um romance que não tinha publicado mas que achava que eu devia ler. Li-o e percebi por que não o publicou."
Os investigadores têm consciência do "carácter datado" deste romance escrito antes de "Mudança" (1949). "'Promessa' é um romance em que falta o equilíbrio do sentimento, a emoção poética na escrita que 'Mudança' já tem. Mas é importante porque é o primeiro romance de ideias, escrito na época em que o autor acabara de ler Hegel e Sartre. Escreveu a seguir 'Mudança', que na obra publicada passou a ser o primeiro romance de ideias", explica o investigador.
"Promessa" mostra também que a ruptura de Vergílio Ferreira com a temática neo?realista foi anterior a "Mudança".
"A leitura de 'Promessa' pode ser difícil para o leitor comum. É um livro cheio de ideias secamente expostas sem aquela dimensão poética com que ele vai depois adoçar as ideias", afirma Helder Godinho. "Há muitos diálogos, mais do que ele fará posteriormente. 'Promessa' é o momento de mudança de um tipo de romance neo-realista para um romance de ideias. Vê-se que ele está à procura do estilo, no sentido forte do termo."
Em 1956, Vergílio Ferreira escreveu na página de rosto do dactiloscrito de "Promessa": "Releio trechos. O livro não é precisamente uma tolice. Está quase certo, embora à sua maneira. Com pequenas emendas..." Anos depois, em 1980, contam os investigadores no prefácio do livro agora publicado, o escritor voltou a reler o romance e acrescentou um outro comentário: "Livro medíocre e precipitado. Talvez re?escrito possa aguentar?se. Ou talvez não muito 'medíocre', mas apenas ultrapassado. Se o tivesse publicado antes de 'Mudança', estaria certo, talvez."
Ao longo do tempo, Vergílio Ferreira vai mudando de opinião em relação aos seus livros. O escritor contou a Helder Godinho que quando publicou "Alegria Breve", andou preocupado uns dias a pensar que se calhar o livro não prestava. "Este livro, que é talvez o maior de Vergílio Ferreira, foi publicado em francês na colecção Gallimard e penso que foi até Jean Bloch-Michel que disse que ao ler-se aquele livro via-se que um dos grandes escritores europeus vivia em Lisboa. As hesitações dele, opinativas, não eram significativas", afirma Godinho.
O primeiro escrito
Quando Ana Isabel Turíbio pegou no espólio de Vergílio Ferreira para o inventariar teve de dar várias voltas para organizar os papéis. Foi nessa altura que encontrou o manuscrito da novela "A Curva de Uma Vida", que é o primeiro escrito de Vergílio Ferreira, e foi agora publicada.
"É difícil pegar nos papéis porque temos a presença do autor, física, ainda muito próxima. À medida que o tempo vai passando conseguimos criar distância e espaço para reflectir, e já sem emoção trabalhar com os critérios que a Biblioteca Nacional utiliza", explica a investigadora, que fez a edição genética e crítica da novela com Cátia Barroso, bolseira no Centro de Estudos do Imaginário Literário, e que se tornou "uma ilustre vergiliana aos 22 anos".
As especialistas consideram que em "A Curva de Uma Vida" se encontra muito do que irá ser a maneira como Vergílio escreverá no futuro. Estão lá temas como a morte, a partida, a relação com os pais. "Vergílio Ferreira integrou na novela outros tipos de registo: o diarístico, o epistolar e o lírico, que serão géneros que o vão acompanhando depois em outras obras", explica Ana Isabel para quem a publicação desta novela se justifica em função da obra que veio depois. "Isto era publicável quando ele tinha 22 anos, hoje é publicável como documento histórico", acrescenta Helder Godinho. "E como prova de coerência, já aqui se encontra muito daquilo que foi a sua obra", nota Ana Isabel.
No espólio encontra-se correspondência que ainda não foi publicada. "Nem será", dizem os investigadores. É muito privada, faz referências pessoais e envolve pessoas vivas. Grande parte da correspondência é trocada com Eduardo Lourenço (que Vergílio considerava ser o seu melhor amigo), Jorge de Sena, Mário Dionísio, André Malraux, com brasileiros que fizeram teses sobre a sua obra, com o pintor Júlio Resende, etc.
No espólio também estão as fotografias que Vergílio Ferreira usava na construção dos seus romances.
"É muito interessante visitar o 'dossier' genético de 'Para Sempre' e de outros romances. Vê-se que ele tirava fotografias às ruas para depois as descrever", conta Helder Godinho. Vergílio fotografou "a zona do Saldanha, da Casal Ribeiro [Lisboa], e para a descrever com rigor" na obra "Em Nome da Terra". "Em 'Rápida, a Sombra' usou uma fotografia de um calendário com uma rapariga com uma camisola transparente para descrever a situação em que a personagem sai das águas como uma Vénus."
Depois de reunir essa documentação, conta Ana Isabel Turíbio, Vergílio perguntava "Para quê, se tudo o mais está na imaginação?". Mas logo a seguir explicava que era para não cometer "gaffes".
Obs: O critério da publicação (ou não) de um trabalho post-mortem deverá obedecer ao facto de nele se identificar uma manifestação inequívoca de cultura, porque se essa dimensão estiver plasmada no trabalho é mais uma partícula que determinado autor acrescenta ao universo de partículas que tecem os movimentos culturais no quadro de uma civilização. Tratando-se de VF, o que defendemos é simples: publique-se os seus materiais.

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