quinta-feira

O Silêncio dos Cobardes - p'lo Jumento -

"Foram muitos os jornalistas deste país que usaram o caso Freeport para tentarem condenar Sócrates muito antes de haver qualquer prova, a louraça do SOL, a Dona Moniz e mais umas quantas figuras menores do nosso jornalismo difamaram Sócrates em nome da verdade ao longo de mais de dois anos.
Aproveitaram-se de Sócrates para abrirem telejornais, produzirem primeiras páginas, disputarem audiências e asseguraram aumentos salariais graças ao trabalho sujo de gente oculta que lhes deu as "armas" para promoverem o golpe de estado. Agora ficaram em silêncio, até deram mais destaque à notícia da ida a tribunal de ex-administradores do BCP do que à conclusão do caso Freeport, depois de difamarem optam agora por um silêncio que além de cobarde é criminoso, insinuaram a acusação e agora querem silenciar a notícia da inocência.
Fez-se silêncio, um silêncio tão cobarde como o dos que destruíram a confiança dos portugueses na justiça para ajudarem a direita a convencer os portugueses a votarem nela. Um silêncio igualmente tão cobarde como o de algumas personalidades que ao contrário do que diz o poema confirmaram que há sempre alguém que se cala. Alguns até tomaram posição, mas só quando perceberam o óbvio, quando concluíram que lhes ficava bem serem solidários e isso até seria bom para os seus projectos pessoais.
Quando o Presidente da República chamou o senhor Palma a Belém para discutir as supostas pressões sobre os investigadores não estava preocupado com o funcionamento da justiça, se assim fosse o destacado sindicalista dos operários dos tribunais teria que ter gabinete no palácio presidencial. Chamou-o porque o suposto instigador ou beneficiado por tais pressões seria o primeiro-ministro. Seria interessante que o Presidente da República viesse agora manifestar-se feliz porque se provou que o primeiro-ministro não se tinha corrompido e que, portanto, não precisava de pressionar os investigadores. Parece que Cavaco gosta mais de intervir quando os acontecimentos parecem estar-lhe de feição.
Para além daqueles que se aproveitaram das falsas acusações foram muitos os que não se abstiveram de tirar proveitos políticos, foi o caso do PSD e do BE que promoveram a comissão parlamentar de inquérito cuja origem está na acusação a Sócrates de tentar silenciar uma jornalista que o difamava com recurso ao caso Freeport. Se o CDS e o PCP tiveram uma postura de distância em relação ao caso, o mesmo não se pode dizer do BE do PSD que agora optam, como era de esperar, pelo silêncio cobardes. Quem nasce cobarde tarde ou nunca ganha coragem.
Uma das formas mais sinistras de oportunismo foi não assumir qualquer acusação mas dizer que Sócrates esteve envolvido em muitas trapalhadas, não sujaram as mãos mas aproveitaram-se das suspeições para as transformar em condenações. Um dos muitos que vi recorrer a esta estratégia manhosa e cobarde foi Marques Mendes no seu tempo de antena da SIC Notícias. Nenhum destes comentadores apareceu agora, estão todos de férias. Mais subtis foram os que deixaram o golpe prosseguir impunemente com o argumento da confiança na justiça, isto é, na mesma justiça que facultou peças do processo cirurgicamente escolhidas para manipular a opinião pública.
Não quero deixar de fora muitos dos que optaram por prescindir dos mais elementares princípios de justiça, estavam com esperança de que seriam os magistrados a fazerem aquilo que não tinham conseguido com os seus argumentos. Estão neste rol muitos políticos, mas também muitos alguns visitantes deste blogue que nos seus comentários têm usado e abusado da calúnia como arma política.
Onde estarão os que tanto protestaram em nome do mercado contra a utilização da golden share para impedir o negócio da Vivo mas que no caso da compra da TVI pela PT já não se preocuparam com o mercado?
Hoje é um dia de silêncios cobardes, um dia em que muita gente vai tentar esquecer o que fez, o que escreveram ou disseram, os mails caluniosos que enviaram, os comentários oportunistas que escreveram, as opiniões manhosas que produziram, as intervenções políticas que protagonizaram, nenhum deles vai assumir culpas ou responsabilidades. Os políticos que se aproveitaram, os magistrados que tentaram dar um golpe de estado, os jornalistas que promoveram um linchamento na praça pública e muitos outros cobardes vão ficar calados, provavelmente a pensar noutro golpe".
Obs: Este caso é apenas mais um caso revelador de como a democracia, ao abrigo da liberdade de expressão, comporta canalhices maiores do que aquelas cometidas em ditadura, ainda que umas e outras devam ser criminalizadas e repudiadas. Lembro-me que quando João de Deus Pinheiro foi acusado de ter roubado uma manta no avião pelo jornalinho de paulo Portas, o famoso Indy, foi aviltado na praça pública, o visado pôs um processo ao jornalinho em causa e ganhou o processo, mas os jornais que fizeram manchetes dando eco dessa tramóia foram exactamente os mesmos que depois fizeram tímidos desmentidos nas páginas de dentro, a perder de vista. Numa palavra, os cobardes são comuns às democracias e às ditaduras, apenas naquelas têm a faculdade de fazerem linchamentos na praça pública com maior facilidade e em tempo real, uma outra prerrogativa da sociedade virtual globalizada em que vivemos.

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quarta-feira

Promiscuidade - p'lo Jumento -

Promiscuidade
Cada vez mais me enoja a promiscuidade na capital deste país, um pequeno grupo de gente que se auto-designa de elite, nascidos na classe média da administração salazarista e que hoje domina uma boa parte da vida. São jornalistas, são deputados, são jurisconsultos, são consultores das mais variadas artes, são comentadores televisivos, são gente que nunca teve dificuldades na vida, a quem para arranjar um emprego para um filho basta um telefonema, para comprarem um carro novo basta uma cunha para mais uma avença. Se foram apanhados na declaração de IRS telefonam ao fulano tal, se precisam de uma operação no hospital passam à frente da fila de espera, resolvem todos os seus problemas com um mero telefonema, são um verdadeiro grupo mafioso assente numa imensa rede de contactos, de compadrios assentes na troca de valores. Esta gente não tem cor política, não tem ideologia, não tem princípios, não tem o mais pequeno respeito pelo povo que os alimenta e enriquece, de manhã são jornalistas e à noite bloggers, num dia são magistrados e no outro juízes desportivos, se estão na oposição coleccionam avenças, quando beneficiam do poder vão para administradores de empresas públicas, ora são assessores de líderes partidários, ora são directores de jornais. Esta gente não imagina o que é viver com o ordenado mínimo, nunca estiveram em terra a esperar o regresso de um pai que está no mar debaixo de um temporal, não sabem quanto humilha estar numa fila de desempregados, não imaginam o que se sofre quando se tem de alimentar filhos sem ter dinheiro, não sabem o que é mandar um filho para a escola sem o pequeno-almoço. Não sabem, não imaginam, nem querem saber, têm o maior do desprezo pelo povo cuja opinião gostam de manipular. No entanto ganham rios de dinheiro a comentar nas televisões sobre a melhor forma de resolver os problemas do país e dos portugueses. Andam por aí a alardear grandes currículos, são ilustres jurisconsultos, jornalistas de primeira água, comentadores televisivos, sentem-se superiores aos que tanto usam nos seus discursos de conveniência. Queixam-se da crise mas ganham com ela, propõem sacrifícios para os outros mas multiplicam a sua riqueza, preocupam-se com a iliteracia mas olham para os outros com o desprezo e incomodam-se pela falta do perfume a 100 euros, há décadas que propõem novas soluções e o resultado é aquilo que se vê. Cada vez sinto mais nojo desta elite que julga que todo o poder eleito pelo povo lhes deve prestar vassalagem, estão convencidos de que só os “bem falantes” têm direito a expressar as suas opiniões, que julgam que o povo que vota é uma imensa borregada que lhes deve perguntar onde devem votar, que acham que podem fazer e desfazer qualquer político. É tempo de dizer não a esta imensa promiscuidade disfarçada de bons princípios. É preciso dizer não a esta gente, denunciá-la, combatê-la, antes que passemos a sentir nojo do próprio país. Portugal não é esta seita de proxenetas de gravata Hermes, que se instalou no poder da capital para viver à custa do subdesenvolvimento do país. O meu país é o meu povo e esse é eticamente muito superior a esses canalhas, é gente que sua por cada tostão de ganha, trabalhadores que tiram dos seus filhos os impostos que alimenta essa elite da treta, empresários que todos os meses lutam para que as suas empresas consigam pagar os ordenados dos trabalhadores no fim do mês.
Obs: Infelizmente, o Jumento tem razão. Procurou-se jogar com as palavras e associá-lo à Interpol (dei uma gargalhada matinal e mui pouco securitária!!), só que Portugal cresceu, ilustrou-se e também perdeu o medo. Os media - enquanto poderes fácticos - estão hoje num carrefour: por um lado, caminham a passos largos para a sua auto-implosão, vide o caso do sol, dirigido pelo sr. arqº que quer ser prémio nobel da literatura. O mesmo que ataca um banco e certos administradores desse banco porque cortaram o financiamento ao seu jornal; por outro lado, apoiam-se em certos blogues para arregimentarem fidelidades e leitores que depois se traduzem em interesses económicos num molotov explosivo. Muitos exemplos haverá em Portugal resultante dessa confusão e promiscuidade. Acresce o seguinte: as pessoas (algumas que fazem análise na blogosfera) além de terem já mais competências e serem mais inteligentes, cultas e preparadas, também não têm medo de falar, não implicando isso a violação de alguma lei ou princípio. O Jumento é odiado e traído por gente menor porque, precisamente, é o melhor espaço de análise e de criatividade social e política em Portugal, isso fez dele um coleccionador de ódios que hoje dão o ar da sua graça no pior sentido.
Mas tudo na vida tem um efeito perverso, um efeito boomerang, um efeito não intencionado como ensinou Vilfredo Pareto - que alguns energúmenos e jornalistas-tarefeiros desconhecem, e alguns deles eram até uns péssimos alunos na universidade privada da Junqueira, assim como desconhecem grande parte da vida e do mundo. São uns "copinhos de leite", enfezaditos a quem não hesitaria em pagar umas patacas para não serem meus secretários.
Infelizmente, este tipo de estórias só revela a inveja que alguns portugueses têm dos seus concidadãos, sobretudo daqueles que são melhores do que nós. E das duas uma: ou nos predispomos a aprender com elas e até as superar; ou cai-se na mera maledicência, sacanagem e canalhice, e é isso que certos jornais e jornalistas hoje fazem a pessoas e a instituições para ganhar a vida, por um lado, para alimentar a sua vaidade e vendetta, por outro.
Opto sempre pela via pedagógica, até porque tenho como lema de vida um ensinamento de Albert Cossery: posso ir para a rua descalço e de mãos nos bolsos e sentir-me um príncipe. É isso que representa alguns sites de excelência em Portugal de que o Jumento faz prova diáriamente, potenciando o sinal de serviço público e, ainda por cima, o faz de forma gratuita. Penso, contudo, que o Jumento sai desta estorieta profundamente reforçado, re-credibilizado e angariando ainda mais leitores. Mais ainda do que aqueles que o jornal que o atacou perde. Talvez ainda contrate a LPM para um facelift ou a TAP para uma campanha de internacionalização ao blog.
Quanto ao resto, ao sub-produto dum certo "jornalismo-tarefeiro" e frete por encomenda ainda existente em Portugal, importa declarar o seguinte: vão ficar sem leitores e o falhanço será, seguramente, o seu próximo apeadeiro. Até porque alguns desses jornais e/ou jornalistas ligam-se a autores de blogues para desviarem clientela para os jornais onde escrevem, e isso é sempre um pau de dois gumes. O melhor acaba sempre por se impor.
Como costumamos dizer no n/ subtítulo: a ave vive fascinada pela serpente que a paralisa e, afinal, faz dela a sua presa. Neste caso, o "burro" dará o coice como a serpente o seu abraço anelado e constritor. "É a vida".

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