sábado

(re)Evocação de Agustina-Bessa Luís

A Fidelidade é a mais Integral de todas as Virtudes Humanas












A fidelidade (...) é a mais integral de todas as virtudes humanas. O homem participa numa batalha e, sem a fidelidade, não conhece a sua luta; apenas usa da violência, interpreta uma vontade, é instrumento de uma opinião. A fidelidade move-o desde a sua origem, é a primeira condição da consciência. Não se efectuam coisas novas sem fidelidade. Não se engrandece a piedade ou se priva com o mais simples sentimento, sem a fidelidade. Uma acção progressiva tem que ter raízes tumulares, raízes naquilo que encerrámos definitivamente - uma era, um conhecimento, uma arte, uma maneira de viver. A fidelidade, disse eu, assegura-nos o tempo de criar e o tempo de destruir o que se tornou inconforme à imagem do homem. Nada é digno de valor, sem fidelidade. 

Agustina Bessa-Luís, in 'Alegria do Mundo'

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quinta-feira

Banalização da morte sob a barbárie do terrorismo islamita


É revoltante e, ao mesmo tempo, paralisante a forma como a morte bárbara nos chega através das imagens. Já não só por via da televisão, fonte principal pela qual era servida a morte nos vários teatros de operações, da Ucrânia ao Médio Oriente; agora a morte bárbara, feita de tiros na nuca a pessoas (civis) com as mãos atadas atrás das costas e de forma massiva, irrompe-nos pelo écran do computador, como se se tratasse dum simples videoclip que vemos e ouvimos em puro divertimento. 

É brutal esta revolução na forma de conceber, fazer e ver a morte em imagens brutais, como se de um simples concurso se tratasse. A facilidade e a velocidade e escala com que ela é operacionalizada, e de forma filmada e jogada em tempo real nas redes sociais, como se fosse prémio atribuído aos carrascos, opera como que uma revolução copernicana que alimenta o terrorismo globalitário contemporâneo.

É certo que ao tempo das guerras coloniais - no séc. XX findo - matava-se para se sobreviver, mas muitos daqueles que o faziam regressaram às metrópoles traumatizados, nunca conseguindo recuperar a sua saúde mental ou condição física de partida para a guerra ordenada pelo ditador a fim de defender o Império - que acabou por ruir.

Hoje, ao invés, os jihadistas fundamentalistas (ou terrorismo islamita) matam por prazer, de forma gratuita, julgando que esses actos bárbaros lhes abrem o caminho para o paraíso.

Com efeito, tratam-se de crimes contra a Humanidade que, a seu tempo, deverão ser julgados e punidos severamente os seus responsáveis.

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quarta-feira

Bill Gates desafia milionários para combate à pobreza por Lusa, publicado por Luís Manuel Cabra

Bill Gates desafia milionários para combate à pobreza


Bill Gates

"A China tem muitos empresários bem-sucedidos. Tenho esperança que mais pessoas com visão ponham o seu talento ao serviço da melhoria da vida dos pobres na China e pelo mundo fora, e procurem soluções para os problemas deles", escreveu Bill Gates num artigo publicado pelo Diário do Povo, o órgão central do Partido Comunista Chinês (PCC).
O combate à pobreza "requer a participação de toda a comunidade", acrescentou o fundador da Microsoft, que, pelas contas da Forbes, encabeça a lista dos 10 mais ricos do mundo, com uma fortuna estimada em 76 mil milhões de dólares (54,8 mil milhões de euros).
Bill Gates e a mulher, Melinda Gates, são também ativos filantropos, nomeadamente no combate à doença em África.
Na semana passada, um dos empresários mais ricos da China, o fundador do grupo Alibaba, Jack Ma, anunciou a criação de um fundo de 3 mil milhões de dólares (2,16 mil milhões de euros), destinado a uma organização humanitária centrada no ambiente e na saúde, mas segundo o jornal China Daily, a filantropia ainda não arrancou" na China.
"Alguns chineses ricos receiam que a concessão de grandes donativos pode atrair uma indesejada atenção às suas fortunas", comentou o jornal, a propósito do artigo de Bill Gates no Diário do Povo.(...)
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Obs: Raros são os exemplos de multi-milionários que conjugam riqueza com desenvolvimento tecnológico e modernização social aliado a uma profunda preocupação com os mais pobres.
Bill Gates, o magnate filantropo de Seattle, é talvez o melhor paradigma deste desenvolvimentismo emergente. 

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A internet que merecemos...


Em vez de termos a Internet que os técnicos (e tecnólogos) inventaram, estamos a confrontar-nos com a Internet perversa, negativa e violenta que alguns de nós certamente merecem. Este é mais um efeito perverso da modernidade tardia que estamos a construir. Agora em modalidades manifestamente desafiadoras. 

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Um novo Meet... Limpar as matas nacionais num Portugal mais seguro e com menos incêndios




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Obs: Portugal tem crónicamente um problema com os incêndios, resultante de falta de prevenção e de alguma maldade de origem criminosa, que todos os anos se repete, com maior ou menor intensidade, mas que representa um grande sofrimento nas populações, perda de valor económico, diminuição do PIB e uma insegurança brutal no património de pessoas (particulares, empresas e Estado).

Dito isto, e porque a convocação pelas redes sociais dos meets nas imediações de Centros Comerciais - só podem ser entendidos como desafiadores das autoridades policiais (porque o espaço é exíguo e contra a própria natureza do que se pretende num meet) - e da sociedade em geral que paga impostos e não quer desacatos nem alterações da ordem pública - seria mais CURIAL que este tipo de pseudo-meets entre estranhos (pois é disso que se trata) fossem agendadas para locais mais adequados, e com o fito de, por exemplo, organizar e planear uma limpeza nacional das matas do país que, em rigor, funcionam como verdadeiras ervas-daninhas e elementos de combustão propiciadores de mais incêndios - e que deviam ser desbastadas a fim de evitar mais fogos entre nós. 

Ainda tenho alguma esperança que os jovens que se organizam nesses meets estéreis encontrem uma verdadeira finalidade social nesses encontros, nem que seja por razões de natureza existencial, e façam dessas sinergias algo de útil e de que se possam orgulhar mais tarde.

Algo que vá além dumas declarações rascas, por entre violência entre líderes de clãs que ali fazem os seus ajustes de contas e que aproveitam as confusões desses grandes agregados humanos para lançar a confusão na sociedade e na opinião pública que é, consabidamente, coberta pelas televisões e debitam esses factóides no horário nobre da noite.

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terça-feira

Marcelo integra o banco-bom...




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Dedicada ao RETIFICANTE - A Mentira Está em Ti -


A Mentira Está em Ti
"Olá, guardador de rebanhos, 
Aí à beira da estrada, 
Que te diz o vento que passa?" 

"Que é vento, e que passa, 
E que já passou antes, 
E que passará depois. 
E a ti o que te diz?" 

"Muita cousa mais do que isso. 
Fala-me de muitas outras cousas. 
De memórias e de saudades 
E de cousas que nunca foram." 

"Nunca ouviste passar o vento. 
O vento só fala do vento. 
O que lhe ouviste foi mentira, 
E a mentira está em ti." 

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema X" 
Heterónimo de Fernando Pessoa

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Houve mais retificativos desde 2011 que nos 12 anos anteriores


PASSOS COELHO: O RETIFICANTE ou o grande mentiroso


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Houve mais retificativos desde 2011 que nos 12 anos anteriores


Governo fez a 'dobradinha' todos os anos desde que tomou posse. Desde a entrada no euro, apenas Guterres, em 2001, e Sócrates, em 2009, repetiram o feito.


Retifica, retifica. Desde 1999 houve 15 Retificativos. Oito deles com Passos Coelho
O governo de Passos Coelho bateu todos os recordes de Orçamentos Retificativos. Nos últimos quatro anos, contando já com o que
está em preparação, apresentou mais alterações ao Orçamento do Estado do que nos 12 anos anteriores: oito contra sete num total
de 15 Retificativos desde 1999. Não é preciso grande esforço para perceber a dificuldade de fazer um Orçamento do Estado e garantir
que as contas batem certo no final do ano. Basta lembrar, por exemplo, como é fácil derraparem os gastos com uma pequena obra 
em casa e depois multiplicar por milhões de despesas realizadas por centenas de entidades que empregam centenas de milhares de
funcionários. 

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Obs: A incapacidade de conter a despesa pública, renegociar as PPPs, reformar verdadeiramente o Estado nas suas gorduras consumidoras - é o que o leva o Estado a ter défices públicos sistemáticos, não libertando recursos financeiros para apoiar as PMEs - que são os verdadeiros motores da economia, do crescimento e da modernização do país. 

Mesmo quando Passos coelho fala verdade, garantindo que este ano o massacre fiscal não será agravado, já ninguém acredita nele, nem mesmo o seu parceiro de coligação, Paulo Portas, outro agente político em quem os portugueses também não podem confiar. Mas é de mentira em mentira, de orçamento em orçamento que o XIX Governo (in)Constitucional, com o apoio conivente de Belém, outro agente político em quem os portugueses há muito perderam a confiança, vai esmagando os portugueses e empobrecendo um país que, literalmente, está à VENDA. 

Só mesmo um estarola que não sabe o que é governar, desconhece o Portugal profundo e só olha para o lado financeiro da questão - é que julga viver noutro país que não é o nosso. 

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segunda-feira

O rastilho dos meets e o ardil do falso (ou imaginário) racismo.

"O 'meet' do Vasco da Gama bateu bué. Mas houve 'beefs' e até a bófia apareceu"Encontro marcado no Facebook reuniu cerca de 600 adolescentes junto ao Centro Comercial Vasco da Gama e acabou com a intervenção da PSP, cinco agentes feridos  e quatro detenções. Há pelo menos mais quatro "meets"  já agendados para Queluz, Lisboa, Amadora e Oeiras. O primeiro é amanhã. Link


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Quando se tenta compreender os princípios, as motivações e as acções daqueles que organizam os "meets" - via redes sociais - cujo impacto negativo conheceu já um efeito lamentável no Centro Comercial Vasco da Gama, em Lisboa, numa zona habitada pela classe média-alta, não se consegue identificar uma causa nobre, uma orientação ou filosofia de vida que faça do encontro uma partilha de valores, de informação útil, de experiência ou de conteúdos que permitam elevar o nível de consciência cívico e de educação para a cidadania.

Bem pelo contrário: a linguagem utilizada é pobre, "rasca" e pré-conflituosa, os termos utilizados pelos adolescentes entrevistados vão pouco mais além do que: "O meet é para socializar, tirar fotos e não para andar à porrada. Para isso não se criam meets, criam-se combates de rua", diz Bruno, rapaz de Chelas, 17 anos. Seguem-se dezenas de likes. link

Perniola, num dos seus ensaios, cita um outro exemplo que todos podemos reconhecer na nossa vida diária: um líder político faz uma declaração ofensiva, à noite dá parcialmente o dito por não dito, na manhã seguinte afirma que havia uma parte de verdade nas suas afirmações, para depois sustentar que era uma frase irónica e por fim, no 3.º dia, conclui ter sido mal interpretado.
Ou seja, de cada uma das vezes o tal agente político atinge uma parte da audiência, que é considerada uma espécie de tábua rasa profundamente sensível e receptiva aos apelos sociais, especialmente numa conjuntura económica e socialmente recessiva, mas incapaz de reter o que é dito sobre ela para além do momento da recepção e da transmissão daqueles sound bites de circunstância.  
Isto significa, na prática, - e caso não se tomem medidas de carácter preventivo e disciplinar, algumas de tipo de punitivo, sempre que pessoas e património estejam em causa, - que a semana passada a confusão foi lançada na zona envolvente ao CC Vasco da Gama; mas amanhã ou depois a mesma confusão e anarquia deliberadas, resultado de revolta social e de vontade de perturbar a ordem pública, nem que seja para dizer que (em nome dos mobilizadores destes "meets" sem qualquer finalidade social) - que nós existimos, estamos vivos, logo pensamos e actuamos!!!
Com efeito, todo o enredo destas manifs são muito pobres, nenhuma mensagem social oferecem à dita "comunidade de amigos virtuais, e, se assim é, à luz dos factos conhecidos e disponíveis, por que razão, numa linguagem verdadeiramente desafiadora das autoridades um bando de adolescentes continua à solta pela cidade, podendo - em nome duma revolta sem causa e dum projecto social inexistente - que tem uma expressão étnica acentuada (e prefigurando até uma modalidade de racismo invertido do negro ao branco) - poderá continuar a ameaçar pessoas, bens e a manutenção da ordem pública?!
O Facebook ou o Twitter não foram concebidos para este tipo de projecto sem causa ou finalidade social, que, no limite, e caso as autoridades policiais não interviessem a  tempo, poderiam desencadear um conflito de baixa intensidade, mas afectando a segurança de largas dezenas de jovens que, inconscientemente, se veriam envolvidos em conflitos interpessoais sem controle e fim à vista, até porque, sustentam alguns, esses "encontros" são engendrados sob a capa de reuniões alargadas de jovens, não já imbuídos do espírito que os leva a caminhar a Santiago de Compostela, mas, verdadeiramente, os seus mentores aproveitam-se da ingenuidade dos demais para fazerem acertos de contas entre grupos ou clãs rivais que contam já um historial de conflito e violência.
As redes sociais não passam de meras ferramentas utilizadas para a comunicação entre as pessoas e as organizações; elas jamais se substituem às causas, aos projectos e à vontade colectiva de sectores da população que, num dado momento da sua história e evolução, entendem utilizá-las para racionalizar a sua mensagem.
O problema é quando não há mensagem, resta apenas o ódio, a revolta social e um certo aproveitamento da ingenuidade da maior parte daqueles adolescentes que, piamente, acreditam que o agendamento desses meets tem como finalidade tocar umas guitarradas, cantar e prometer uma nova esperança sob os céus e pronunciar as palavras Peace & Love.
De facto, a eficácia de uma democracia, já que ela se tem revelado impotente para destituir um Governo incompetente e ilegítimo na arte de governar, radica na sua capacidade de gerir informações. O que exige alguma coordenação entre a intelligence nacional (que não serviu para nada na antecipação dos problemas do BES e conexos...) e as forças de segurança clássicas - cuja missão é prevenir que multidões em fúria provoquem desacatos na ordem pública, com isso procurando fazer uma demonstração de força perante as autoridades policiais e o país.
Quem verdadeiramente pretende divertir-se a uma escala humana considerável não procura um Centro Comercial numa zona fina da cidade, vai para um descampado, cujas condições naturais são mais propícias ao ajuntamento de grandes multidões.
Numa palavra: é preocupante este tipo de encontros sem qualquer finalidade social. Perante esta originalidade na forma de comunicar e de reunir em Portugal, haverá três formas de reagir a esta anarquia adolescente que, a cada momento, pode intensificar o rastilho para uma explosão social urbana (e suburbana) artificializada e que, com base na raça ou na etnia, poderia facilmente ser instrumentalizada pela esmagadora composição social não-branca que integram esses meets.
A primeira forma de reacção a este epifenómeno social seria falar do assunto como Cassandra, em tons melodramáticos, o que configura, desde já, uma reacção negativa e a evitar liminarmente - por parte das autoridades policiais e (outras);
A segunda forma de reacção perante esta adversidade - consiste em analisar o modo como estes meets são agendados como o Doutor Pangloss do Cândido de Voltaire, defendendo a não existência do mal e da perversidade humanas, o que também seria uma idiotice, já que a natureza humana comporta esta dimensão (explícita e oculta, até por via do ressentimento social, ideológico, religioso, étnico, etc) - e que manifestamente parece estar presente no modus operandi que levou 600 adolescentes ao Vasco da Gama - certamente não foi para comprar bacalhau, telemóveis, comer um gelado, nem contemplar a Ponte Vasco da Gama - que empurra a linha do horizonte para Alcochete;
A terceira forma de reacção, que parece mais realista e aconselhável da óptica das autoridades e da sociedade em geral cujos valores aqueles salvaguardam, é a de olhar para esse fenómeno social emergente - não com a reactividade do bombeiro (que apaga o fogo depois dele ser posto) - mas seguindo a perspectiva do segurador, i.é., adoptando uma postura de pré-actividade, o que implica conhecer a forma como se organizam, comunicam e as motivações que estão por trás dessa logística. 
Não vale a pena seguir a atitude passiva do bombeiro, que consiste em esperar que o fogo se declare para o combater. A experiência revela que essa política é muito arriscada. 
Daqui resulta uma conclusão óbvia, como forma de controlar alguns desses delinquentes (sublinho "alguns", porque a maioria dos jovens são ingénuos e facilmente instrumentalizados nesses meets) - tal implica uma vigilância apertada relativamente aos líderes desses grupos, tendo em vista neutralizar os seus intentos, pelos menos nos moldes e na linguagem desafiadora do passado recente, o que não prenuncia nada de bom. 
Provocar as autoridades policiais de modo a que os seus agentes percam a cabeça e apliquem a força de forma desproporcional e desnecessária diante das câmaras de televisão, "já foi chão que deu  uvas", pois esse também parece ser o ardil pobre de alguns líderes de grupos de etnia não-branca como forma de se vitimizarem duma condição social e étnica para, a partir desse simulacro mediatizado, extrapolarem os seus efeitos e apresentarem-se à sociedade como as vítimas do racismo que verdadeiramente não existe em Portugal.
Infelizmente, o que está a ocorrer entre nós, são manifestações lamentáveis de racismo invertido, quer do negro relativamente ao branco, quer doutras minorias que procuram impor a sua micro visão dos valores que têm da sociedade à maioria que tem uma outra cosmovisão. 
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O povo da televisão ANTÓNIO GUERREIRO


O espírito popular desapareceu”, escreveu Pasolini num dos seus textos de crítica e resistência ao presente. Quarenta anos depois, esta proposição tornou-se um axioma, mas de onde se ausentou o sentido que tinha para Pasolini: o de uma catástrofe. Desapareceu o espírito popular, mas os vários canais portugueses de televisão insistem, quase sem excepção, em construir um povo que não existe, mas cujo simulacro — pensam eles, os “produtores de conteúdos” televisivos — é telegénico que se farta e tem aquela qualidade tão apreciada pelos construtores de mentiras: o “efeito de real”. Trata-se daqueles programas, reportagens e concursos frequentados por pessoas que são submetidas à deformação pelos próprios apresentadores, repórteres e entertainers para satisfazer os ditames televisivos do expressionismo grotesco. O povo construído pela televisão é degenerado, ridículo, monstruoso. E os seus criminosos construtores têm nomes publicamente conhecidos e sucesso alargado: são as Júlias, as Luísas, os Joões, os Manueis e os seus directores de programas, produtores, chefes, empresários, até ao topo da hierarquia. Há o “povo” que vem aos estúdios dos programas da televisão (quase sempre um “povo” suburbano que já conhece bem os códigos da televisão e sabe imitá-los); e há o povo que a televisão visita no seu habitat natural, geralmente os recantos profundos do país onde se vai em busca de arquétipos. Um e outro são descaradas mentiras, falsas construções que deformam até à degradação. Qualquer que seja o sentido da palavra, tenha ela um sentido sociológico e político ou aponte na direcção utópica da criação artística para a qual há sempre “um povo que falta”, existe mais “povo” em qualquer filme de Pedro Costa (um povo que vem, isto é, venturo, como o nome de Ventura) do que em todos os programas de televisão. O povo da televisão — e esse é o segredo da sua telegenia — coincide quase sempre com os pobres, os deserdados, os excluídos, os que não têm acesso aos centros do poder. Mas a televisão não concede ao seu povo existência política. Pelo contrário, retira-lha e despolitiza-o, mesmo quando ele surge enquadrado num contexto ou num motivo políticos. Quantas vezes não assistimos já às câmaras a fazerem um zoom sobre as mãos encarquilhadas, ou qualquer outra parte do corpo, do indivíduo do “povo” que se queixa de uma qualquer decisão — ou da ausência dela — dos governantes? Nesse momento, a pessoa é espoliada do seu estatuto político e ganha uma espécie de qualidade étnica. Já alguém deu por a televisão fazer um grande plano das mãos de um ministro? Já alguém viu, na televisão, as mãos de Marcelo Rebelo de Sousa a não ser como instrumentos de gesticulação expressivo-didáctica? O povo da televisão não é representado como sujeito minoritário do populus, do corpo de todos os cidadãos. É visto, antes, como espécie castiça de um parque natural que fica longe, muito longe, da Comporta. Deste modo, este povo que a televisão reconstrói e deforma à medida das suas exigências tem alguns pontos de coincidência com o povo do populismo. Mas há uma diferença fundamental: o populismo dirige-se à classe geralmente excluída da política e que, por isso, não tem privilégios de sujeito político constitutivo, reclamando que essa classe é o único poder legítimo, é uma parte do populus, do povo como categoria política, detentor da soberania, que deve funcionar como a totalidade da comunidade. A televisão, pelo contrário, quer tudo muito bem arrumado nos seus lugares e que não se quebre a harmonia estabelecida no parque natural do povo.

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Obs: O lixo televisivo e concursivo que colonizou os canais de televisão portuguesa aos domingos à noite é verdadeiramente deprimente, e as razões dessa degeneração crescente na relação do telespectador com os media são, em larga medida, explicitadas por esta interessante reflexão de António Guerreiro - que merece meditação atenta e cuja matéria remeta para aquilo que podemos designar Sociologia da comunicação ou da cultura (no sentido mais lato). 

A demonstração desta evidência grotesca - alerta-nos para a urgência de - mais do que reformar o sistema político português - urge também proceder à reforma séria nos métodos de fazer televisão em Portugal. 

Afinal, a liberalização das várias operadoras de TV em Portugal nem sempre foi acompanhada de qualidade, a "coisa" democratizou-se, mas nunca como aqui democratização é sinónimo de um expressionismo grotesco, para retomar a expressão do articulista citado. 

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domingo

Grupo de personalidades cria manifesto para reforma do sistema eleitoral








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Obs: A responsabilização do deputado perante o eleitor é uma miragem no actual sistema político e de representação parlamentar hoje existente na casa da democracia.
No Reino Unido quando um animal é atropelado num determinado distrito sabe-se quem é o eleito responsável por esse círculo eleitoral; em Portugal, são os aparelho partidários que injectam os deputados nas listas a serem ratificadas pelas direcções partidárias, um processo que se tem revelado completamente inimputável perante os problemas das populações - que olham para os seus representantes quase de forma anónima e distante.
Considerando esta falta de representatividade, que tem sido progressiva desde 1974, o que aumenta a distância entre governados e governantes, entre eleitorados e eleitos - não deixa de ser curioso que sejam pessoas externas às actuais direcções partidárias, ainda que com ligações a partidos, como o histórico Ribeiro e Castro, que sempre teve uma relação péssima com Paulo Portas (que beneficia do actual logro inerente a esta democracia representativa deficitária) - que assumem as posições urgentes deste tipo de manifestos em Portugal, os quais só pecam por serem tardios e gozarem de escassa cobertura mediática e popular...
Pode ser que desta vez a tendência de mudança ao nível da reforma do sistema eleitoral conheça uma nova dinâmica.
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Lapsus Linguae

Já perdi a conta aos debates que moderei entre os dois. Foi em conferências da TSF e da Ordem dos Técnicos Oficias de Contas que eles criaram a tradição de, anualmente, discutir política de forma séria e sem campanha pelo meio. Dessas conversas (justiça, finanças públicas, educação, saúde, sistema político e tantas outras matérias) resultou, como gosta de dizer o socialista, uma "estima mútua". Rio e Costa não são amigos, menos ainda companheiros na luta política, mas o respeito que têm um pelo outro e pelos eleitores permitiu-lhes encontrar nesses debates muitos assuntos em que estão de acordo.
Com caminhos bem diferentes, os dois criaram, pela obra feita, uma notoriedade que os fez chegar a este momento como se estivesse escrito nas estrelas que terão de se enfrentar. É isto que António Costa, na entrevista de ontem ao Expresso, parece desejar, mas, na verdade, é bem capaz de se tratar de um lapsus linguae, consequência da pressa que revela, nessa entrevista, em querer livrar-se de António José Seguro.
António Costa garante que "verdadeiramente" o seu "adversário neste processo é Rui Rio", dando como certo que será escolhido para ser candidato a primeiro-ministro pelo PS, e lembra que as sondagens mostram o desejo de os portugueses mudarem de protagonistas, com Rio a ser o preferido da direita.
Verdadeiramente, Costa já está a pensar, por mais que o negue, em Rio como parceiro de governo, dando igualmente como certo que derrotará Passos Coelho nas legislativas. Mais do que a "estima mútua", é a visão do que deve ser a política que une estes dois protagonistas e será o desejo do eleitorado a determinar se eles vão ou não governar juntos.
O adversário de Costa neste processo não é Rio, nem ele verdadeiramente quer que seja. Se fosse, a confiança nas vitórias (primárias socialistas e legislativas) não seria tão grande como a que ele revela na entrevista de ontem. Se também o PSD mudasse de protagonista para as próximas eleições e escolhesse Rio, as hipóteses de vitória de Costa desciam substancialmente. Nos debates a dois foi mais o que os uniu do que o que os separou, mas em campanha se perceberia como eles são muito diferentes. E não é apenas uma questão de pronúncia.

  • (Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo acordo ortográfico)

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Obs: Medite-se na reflexão oportuna de Paulo Baldaia.

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Deviam estar todos presos - por Nicolau Santos -



Se não, vejamos. Depois de ter sido proibido pela Banco de Portugal de continuar a conceder novos créditos ao Grupo Espírito Santo a partir de Janeiro deste ano, o BES continuou a fazê-lo – e, segundo as indicações, fê-lo no montante de 1,2 mil milhões de euros. E das duas uma: ou fê-lo com conhecimento de toda a administração, que sabia da proibição do Banco de Portugal; ou fê-lo por decisão de apenas duas pessoas – Ricardo Salgado e Amílcar Morais Pires. No primeiro caso, todos deviam estar já presos; no segundo, os dois deviam estar detidos. Para além de desobedecerem ao banco central, lesaram gravemente o património do banco, sabendo conscientemente que o estavam a fazer. Quanto aos outros membros do conselho de administração, se não foram coniventes, foram pelo menos incompetentes. Tinham responsabilidades em várias áreas de controlo da actividade do banco e ou não deram por nada ou, se deram, não fizeram nada. Por isso, fez muito bem o Banco de Portugal em afastar Joaquim Goes, António Souto e Rui Silveira..

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Obs: Medite-se nesta evidência e tente-se compreender a razão pela qual a lei não se aplica aos prevaricadores.

Que papel têm nesta xarada os polícias do mercado: BdP e CMVM?!

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Guterres - empurrado por uma candidatura divina -

Guterres ainda não decidiu sobre presidenciais


O ex-primeiro-ministro autorizou Jorge Coelho a falar por ele: "Guterres ainda não falou com ninguém. Nem com ele próprio", Expresso
O semanário "Sol" noticiou esta sexta-feira que Guterres pretendia candidatar-se às presidenciais de 2016
O semanário "Sol" noticiou esta sexta-feira que Guterres pretendia candidatar-se às presidenciais de 2016 / Fabrice Coffrini / AFP / Getty Images


António Guterres garante que ainda não falou com  ninguém sobre uma eventual candidatura às eleições presidenciais de 2016. "Ainda não falou com ninguém, nem com ele próprio", disse ao Expresso Jorge Coelho.
O antigo braço-direito do ex-primeiro-ministro, autorizado a falar em nome de Guterres, referiu ainda que nunca abordou o tema presidenciais com ele - apesar de já por diversas vezes, a última das quais à RTP, na semana passada, ter afirmado que a candidatura  de Guterres seria "das muito poucas coisas que me fariam sair da vida que tenho hoje" e que "o país ficaria com um excelente Presidente".  
Na edição do Expresso deste fim de semana, também António Costa volta a referir-se ao atual Alto Comissário da ONU como o melhor candidato presidencial para a esquerda democrática, mas nega ter conversado com ele sobre o assunto.
Ao que o Expresso apurou, também José Sócrates e António José Seguro nunca discutiram a questão com Guterres. 
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Obs: No fundo, esta é uma eventual candidatura de que só Deus sabe...
O que configura um bom prenúncio, além do tipo de companhias divinas associadas ao putativo candidato.
Desde sempre que a Política tem que ter o seu tabu, que comporta uma dimensão religiosa e íntima com o sagrado. 
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sábado

Guterres será candidato a Belém

Portugal: Guterres será candidato a Belém

Portugal: Guterres será candidato a Belém

Obs: Era expectável. Esta notícia apenas confirma uma intenção velada anterior.

Mas não deixa de ser uma boa notícia: Guterres tem larga experiência política, é um homem culto, é de esquerda - mas entra em profundidade no centro e na direita - o que desmaterializa a possibilidade de Marcelo se lhe opôr apoiado pelo PSD.

- Como católico - Guterres fará o pleno do conservadorismo político em Portugal.

- E como homem cosmopolita não fará do exercício do cargo um desempenho provinciano e alinhado com o Governo, como está fazendo o actual locatário do Palácio Rosa. 

- Guterres, no tempo certo, será uma espécie de milagre para o PS, que ajudará a reunir os cacos; e para Portugal será um banho de espuma que lavará a alma aos portugueses, hoje fartos da degradação a que assistem dos lados de S. Bento, de Belém e do conjunto das instituições políticas, económicas e regulatórias em Portugal, com destaque negativo para o BdP - que tem assistido aos mais graves crimes económicos sentado à sombra da bananeira - desculpando-se depois com a complexidade e opacidade das operações financeiras internacionais de que o BES é, hoje, um estudo de caso e de mega-fraude.

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sexta-feira

DOAÇÃO DE ÓRGÃOS.



DOAÇÃO DE ÓRGÃOS...

Tenho para mim que se as autoridades competentes aprofundarem as investigações, de forma isenta e com rigor, ainda descobrem que além das doações em moeda de Ricardo Salgado a Cavaco - o ex-banqueiro também fez doação de órgãos, como o cérebro, por exemplo.

- Se assim for, talvez essa política financeira de doações da família Espírito Santo ao grupo da Coelheira (que migrou de Boliqueime) - ajude a explicar os apoios (diria almofadas) - que o ainda locatário de Belém tem dado ao GES/BES e ao Governo, mantendo-o(s) ligado(s) por um incrível fio de O2...
- Em Portugal - só o vil metal explica inúmeras decisões e comportamentos, quer por acção quer por omissão, e é esse conjunto de situações e circunstâncias que fazem hoje de Portugal um país muito mal frequentado.
- Portugal FEDE.
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quarta-feira

A lotaria - por Luís Meneses Leitão -

O maior problema do Tribunal Constitucional é a absoluta imprevisibilidade das suas decisões. Na verdade, o TC usa e abusa de uma jurisprudência vaga e complacente, que lhe serve para defender tudo e o seu contrário. Foi assim que o TC considerou possível declarar inconstitucional uma lei mas mantê-la em vigor. Agora verifica-se que também é possível declarar inconstitucionalidades a prazo, para vigorarem a partir de 2016. Ou é possível declarar inconstitucional a contribuição de sustentabilidade, mas admitir um futuro corte de pensões em pagamento, numa "reforma estrutural" com maior fundamentação. O TC como árbitro é absolutamente incapaz de mostrar cartões vermelhos, limitando-se a exibir uma infinidade de cartões amarelos, o que leva o governo a repetir sucessivamente as faltas e os fora-de-jogo, esperando que alguma vez o TC lhe valide o golo ilegal.

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Obs: Infelizmente, é tudo verdade. As incoerências e as contradições do TC relativamente às medidas do XIX Governo (in)Constitucional são tantas e tamanhas que o governo não o leva a sério. Aliás, o laxismo do TC são uma espécie de prémio para que o Governo continue a gozar da sua crónica IMPUNIDADE e INCOMPETÊNCIA. E os portugueses, no conjunto, há muito que deixaram de confiar num e noutro. 

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terça-feira

Para quem não acredita no Pai Natal: Ricardo Salgado e Zé Grande

Os alegados 14 milhões de euros que ofereceu a Ricardo Salgado, como forma de agradecimento às portas que o banqueiro lhe abriu para prosperar em Angola, são apenas um entre vários gestos que teve para com diversos empresários e políticos que têm sido investigados nos últimos anos. “Zé Grande”, como é conhecido o misterioso empresário do ramo da construção, foi assim apelidado não por mero acaso. José da Conceição Guilherme, que nunca aparece publicamente, chegou a oferecer um almoço ao autarca de Oeiras, Isaltino Morais, por altura do seu aniversário – que lhe custou 3400 euros. Era este o valor aproximado, aliás, dos cabazes que oferecia pelo Natal. Uma carrinha cheia deles. À frente de uma mão cheia de empresas, o empresário até “deu” o seu escritório ao ex-ministro José Sócrates, para a sede de uma empresa que teve com Armando Vara.

14 milhões foram uma "liberalidade" em troca de conselhos e de contactos.Zé Grande”, o empresário que dá prendas de milhões de eurosZé Grande”, o Zé GrZé Grande”, o empresário que dá prendas de milhões de eurosande”, o empresário que dá prendas de milhões de eurosempresário que dá prendas de milhões de euros (...)

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