30 de Novembro de 2010

Autopsicografia da Sperança. Regresso à poesia "sociologizada"

Eis um gatafunho meu publicado algures em 2004, e como o texto está eivado de legados - o de Pessoa e com a "poesia sociologizada" de José Adelino, só podia ser creditada a ambos. Estão ambos vivos, com a particularidade de só um aparecer mais, mas às vezes revezam-se...
Ao diagnóstico da crise sucede a autopsicografia da Sperança, pois só ela regenera nesta conjuntura de turbulência, feita mais de recuos do que de avanços. Seguindo o habitual exercício de teoria política e cidadania activa, buscamos criar esse transcendente, ensaiar o voo guiado pela teoria da globalização cultural (generalizada pelos satélites), sócia de Fernando Pessoa e tendo o Infante como destinatário e que diz: Deus quer, o homem sonha, a obra nasce…
O mundo pós-Guerra Fria mudou, anda traumatizado por causa das grandes mutações contemporâneas: tecnológica (informática e digital), económica (financiarização das actividades) e sociológica (com info-exclusões massivas, crises de identidade e transformações de poder).
Tais mutações (revolucionando o trabalho, a educação, o lazer, as comunicações e a criação) são de tal modo profundas que tanto a direita como a esquerda se revelam impotentes para criar alternativas: aquela gaba a globalização; esta está atordoada ante ela, e ambas incapazes de propor novas perspectivas de solução política. As desigualdades sociais em massa, o gap profissional de competências, os flagelos sociais como o desemprego, a imigração económica, a violência, a corrupção e o sentimento geral de insegurança não são bons sinais para (re)construir a Europa liberal (e social).
Deste nó górdio nasce a questão: como regular o processo (selvagem) de globalização cujo modelo de desenvolvimento já não é constante nem regular?! Vejamos a natureza das sociedades actuais e como se articulam: no topo (classe A), estão entidades e grupos sociais integrados na globalização competitiva (multinacionais, instituições e governos, altos quadros, operadores financeiros, geradores de informação) que têm a responsabilidade de criar normas e riqueza e de a distribuir, e gerir a economia. No segundo nível (classe B) estão todos aqueles sujeitos à precariedade e incerteza quanto às oportunidades de futuro, hoje diminuídas pela fragmentação das relações laborais, recessão da economia mundial e o anacronismo de contratos eternos com as empresas e com o Estado. No 3º nível (classe C) estão os excluídos de qualquer emprego regular, os deserdados da vida para quem tudo está perdido, habitando as periferias das cidades europeias.
A articulação estável destas três camadas é impossível, daí resultando a consequente perda de legitimidade das instituições políticas que têm como primeira responsabilidade garantir a ordem, o desenvolvimento e a confiança no futuro. É, desde logo, uma dificuldade para a legitimação do poder democrático, já que o n.º de eleitores da classe A é insuficiente para definir uma maioria eleitoral que permita capturar o poder. Embora seja com esse grupo que as elites políticas mais se identifiquem e é deles que também depende o crescimento económico e o emprego de luxo quando os governos mudam.
Assim se cria um gap na condução política das sociedades, em que por um lado as elites políticas convergem com as elites económicas e financeiras mas, ao mesmo tempo, oferecem um sistema de promessas sociais ao povo que sabem não poder cumprir frustrando a imensa classe média (B e C) que faz ganhar e perder eleições. Privadas de segurança, protecção e certos equilíbrios sociais os níveis B e C ameaçam instabilizar as sociedades, degradar o poder político e dispensar a mediação das suas instituições.
Mas também aqui a desigualdade entre as três camadas sociais da pirâmide do poder é visível: os ricos (A), embora em menor número, têm a coesão interna e dominam os instrumentos essenciais da sociedade da informação, pois é aqui que se racionalizam as dinâmicas sociais e se tomam as principais decisões sobre a mobilidade competitiva dos novos factores produtivos. As classes B e C são em maior número, mas são forças sociais fragmentadas, dispersas e com interesses contraditórias que apesar de resistirem às ondas de desenvolvimento superiormente formuladas, não controlam os novos aparelhos produtivos que estruturam a nova ordem social. Restando-lhes, um pouco como a raça cigana, o reagrupamento com base na etnia e noutras diferenciações primitivas como a xenofobia, a religião, o nacionalismo e o regionalismo que facilmente os conduz para posições de rejeição à modernização (globalização) abrindo caminho a formas de autoritarismo político.
Que fazer perante este confronto interno às sociedades marcadas pela globalização? Como reconstituir uma base efectiva de legitimidade política dividida em três níveis (A, B e C)? Como harmonizar sociedades diferenciadas em múltiplas soberanias: conhecimento, polivalência, flexibilidade, capacidade de invenção e de realização de objectivos estratégicos por convergência de esforços?
A ideia de criação dum Observatório de Alerta Social registando os riscos e ameaças teria a função de recolher, tratar e difundir informação bem como planear e fazer prospectiva nos domínios sociais que afectam a governabilidade. Este modelo da conferência temática e aberta visaria coadjuvar as sociedades criativas que buscam a transformação dos sistemas económico e político sob orientação de valores humanistas que se sobrepõem ao triunfo dos mercados e à lógica das vizinhanças turbulentas, impostas pela ditadura do dinheiro e pela imigração económica e terrorismo político.
O Observatório seria assim o alter-ego do poder, o "cão-de-guarda" moral que evitaria erros anti-sociais e se destinaria a elaborar um Livro Verde capaz de reunir as melhores ideias e projectos portadores de futuro e imagens de possíveis evoluções sociais e de mobilização e criatividade políticas. O método de trabalho observaria a lógica antecipativa, normativa, informativa e participativa equacionando as ligações da prospectiva social à acção política. Como a sismologia, é preciso agir antes das coisas acontecerem.
Seria útil seguir este filão na XX Conferência Mundial para a Gestão e Promoção da Inovação. Mitigando as questões da Ciência & Tecnologia com as questões sociais, mostrando que não há muros mas condições para regular e gerir os processos críticos que existem no seio das estratégias de modernização social em contextos de globalização competitiva.
O objectivo é fundar uma nova política que torne mais fluidos (e justos) os movimentos (e os rendimentos) entre os três níveis em que se organizam (e hierarquizam) as sociedades actuais. É aí que a Sphera se converte em Spera, e ambas em Sperança (in J. A. Maltez, Sphera, Spera, Sperança, Ed. Sopa das Letras, 2002, pp. 19-20 ) num revolucionário regresso com tradição e progresso (e aqui).
As obras de poesia, mas feitas por juristas que são politólogos e historiadores, revelam-se o melhor antídoto para a crise. É tempo de voltarmos a ser homens de Deus.. e de ter a coragem de as reler.

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