quarta-feira

A sorte de vivermos neste Arco-íris do tempo finito

Mais um ano que finda e outro que começa na rotina dos tempos
Creio ser uma bela mensagem de Ano Novo recuperar Richard Dawkins que nos lembra os priviligiados que somos por termos ganho a "lotaria do nascimento", in A Desilusão de Deus, casa das letras, 2008, pág. 32.
Vamos morrer e por isso somos nós os bafejados pela sorte. A maior parte das pessoas nunca vai morrer, porque nunca vai chegar a nascer. As pessoas potenciais que poderiam ter estado aqui em meu lugar, mas que na verdade nunca verão a luz do dia, excedem em número os grãos de areia do deserto do Sara. Seguramente que nesses fantasmas que não vão chegar a nascer se incluem poetas maiores do que Keats e maiores cientistas do que Newton. Sabemos isto porque o conjunto de pessoas potenciais permitido pelo nosso ADN é esmagadoramente superior ao conjunto de pessoas com existência efectiva. Não obstante esta ínfima probabilidade, sou eu, somos nós, que, na nossa vulgaridade, aqui estamos.
  • ESTE ESPAÇO DESEJA A TODOS QUE O VISITAM UM PRÓSPERO ANO DE 2009.
    Bebel Gilberto - Aganju

Bellini - Samba De Janeiro

Mais Que Nada(Original)1963

MESA - Luz Vaga

Donna Maria - Quase Perfeito

Massive Attack - Live With Me

Cavaco-sitiado

Cavaco Silva arrancou com o seu mandato presidencial em pleno consenso: Sócrates e o Governo andavam com ele ao colo, o que deu azo até a um "sukete" do Gato fedorento pondo Belém e S. Bento trocando mimos para sinalizar essa excelente entreajuda. Eram tão amigos tão amigos que nem uma guerra civil os separaria.
Depois Cavaco viu-se confrontado com a sucessão de Luís Filipe Meneses no PSD, o tal que julgava poder sentar-se no cadeirão de S. Bento encomendando uns serviços às agências de comunicação - cuja missão era embrulhar Meneses num papel de embrulho de 5* e, assim, convencer o eleitorado de que se estava perante um George Clooney da política à portuguesa.
Infelizmente, a realidade foi outra, e Meneses - que desceu do Norte para a Lapa pensando conquistar Portugal do Algarve ao Minho - passando por Timor-Leste - foi recambiado para Vila Nova de Gaia a toque de caixa. Para o seu lugar foi Manuela Ferreira leite, a fada má do lar, uma pupila de Cavaco que se dizia perceber de finanças (qual "Cavaco de saias") - que este se esforçou por ajudar, dando-lhe a mão, o pé, o braço, o antebraço, a coxa até que percebeu que Leite era uma politica kamikase em quem não valia a pena investir. Ou seja, Ferreira Leite é um nado-morto, o seu peso sobre os ombros de Cavaco representa um fardo superior ao passivo do BPN com o seu conselheiro à ilharga. Persistir no apoio a Manela seria acelerar um afundanço colectivo e morrer na praia. E isso Cavaco não queria.
Como se vê, Cavaco está sitado. Para onde quer que se vire, em busca de O2, inspiração, motivação, apoios só encontra paredes d'aço, lâminas e tanques repletos de alcóol. Ninguém o ajuda, mesmo quando as intenções não visam minar-lhe o terreno ou sabutar-lhe os planos, se é que os tem.
Os seus assessores ou o enganam ou Cavaco não os entende ou, pura e simplesmente, o PR não ouve ninguém no solipsismo do poder. Medina Carreira - ex-mandatário, ex-ministro das Finanças e especializado em catastrofismo social e económico virou entertainer na tv de Balsemão. Não é ajuda para Cavaco. Por cada boca de Medina debita a cotação das acções em bolsa tendem a desvalorizar-se. É um espanta investidores. Há já quem lhe chame o "espantalho de Belém". Tal como fez Cavaco há uns anos quando disse o que disse - que os portugueses não deviam comprar gato por lebre... Belmiro enriqueceu. O que me leva a supôr que aprenderam todos na mesma Escola de Economia alí ao Quelhas...
Sitiado pela líder do PSD, Ferreira leite, anomizado pelos assessores, desnutrido pelos conselheiros (quando não é Dias Loureiro a abir uma cova - é Marcelo a desautorizar publicamente Cavaco no seu tempo de antena dominical) resta a Belém - Paulo Rangel, o gongórico líder parlamentar cuja missão na vida política é servir de almofada aos dislates de Ferreira Leite. Foi assim com a política de investimentos públicos (Não, Sim, Nim) e verificou-se agora com o volte face relativamente ao Estatuto dos Açores, em que após o PSD ter votado favoravelmente o referido Estatuto no Parlamento (ao lado do PS e dos outros partidos) - se absteve para se alinhar com Cavaco (ao fim do 2º veto) e, assim, não se revelar desagradável com Belém.
Mas já foi tarde, o mal já estava feito e os portugueses perceberam a cambalhota e a hipocrisia política do PSD e do melífluo Paulo Rangel em particular. Uma cambalhota maior do aquela que Marcelo deu ao criticar o nome de Santana para a capital - e agora, só porque é o menos mau dos piores candidatos, veio ratificar o seu nome para a autarquia. É pena que Marcelo não tenha - ele próprio - avançado para essa luta política, até poderia dar outro um mergulho no rio Tejo como take-of para a campanha autárquica.
Cavaco, de facto, está rodeado de inimigos políticos, de pessoas que lhe colocam pedrinhas, pedras e pedregulhos no caminho. Cavaco vai-se desviando de algumas, mas por vezes cai, como ora se constatou ao desafiar a maioria rosa através dum psicodrama que encenou através dos media televisionados a 31 de Julho último. Se no passado - em S. Bento - alguns desses psicodramas tinham eficácia junto da oposição e da opinião pública, hoje, em Belém, investido noutras funções e para as quais não tem nem jeito nem perfil, Cavaco acaba por se denunciar e deixar o "rabo à mostra", como diz o povo.
Ante este cenário, pergunta-se: o que resta a Cavaco?
Procurar restabelecer a cooperação estratégica com o Governo. Rezar para que o PSD nos próximos anos consiga arranjar um líder de jeito. E, já agora, ter um projecto credível e uma identidade - de modo a que aquilo não se pareça com um albergue espanhol, que sempre foi. Pedir a Paulo Rangel que não seja mais papista que o Papa, senão Jaime Gama e Cavaco terão de dizer: "ó mãos de manteiga, deixas sempre cair tudo pá..."[link]
Já agora, repensar o leque de assessores disponíveis a fim de enriquecer o processo de tomada de decisão, passar a ouvir outros conselheiros, não aparecer em público ao lado da srª Ferreira leite - porque isso cola em Cavaco uma imagem de ausência agravada de democracia - que a actual locatária da Lapa propôs como forma de fazer reformas no País e mais uns etcs.
Alguma media, como o Público do sr. José Fernandes, não bastam para fazer um bom majistério presidencial. Que só se realiza com ideias inovadoras, com ligações à sociedade que sejam coadjuvantes de projectos competitivos, com uma relação mais interactiva com o Governo e com os centros de decisão empresariais. E também com uma ideia e uma visão para Portugal neste 1º quartel do séc. XXI.
Mas com as limitações políticas que Belém hoje enfrenta, esvaziando Cavaco boa parte da autoridade que tinha no exercício das suas funções, arrisco-me a dizer que, por ironia do destino, Cavaco tem hoje como aliados pessoas fracturantes: Al berto João Jardim da Madeira é um deles. O que lhe chamou "sr. Silva", foi o mesmo que agora o apoiou. Irónico. Mas, convenhamos, as expectativas que Cavaco desencadeou nos portugueses quando arrancou com a sua campanha presidencial, gerou um élan que hoje manifestamente não existe na sociedade portuguesa.
Receio mesmo que Mário Soares ou, como extrema ratio, o poeta Manuel Alegre, fariam um melhor desempenho do que Cavaco tem tido nestes dois anos de mandato. E Cavaco, em boa medida, sabia disso: ele tem um perfil mais executivo do que presidencial. Não se sente confortável naquele papel.
E a natureza das coisas, assim como a natureza das pessoas, não se altera com um estalar de dedos...
A consumação do Estatuto dos Açores foi um excelente (e fracturante) laboratório político, um momento intenso de experimentalismo em que Cavaco averbou a maior derrota política e sofreu o maior abalo psicológico em toda a sua carreira pública.
O Estatuto insular, além de ter esmagado Cavaco, pôs também a nú a própria perenidade e evanescência do poder. Hoje, curiosamente, e passe o paralelo, ninguém já quer cumprimentar G. W. Bush nos fora internacionais onde tem que ir para cumprir calendário.
Nem o próprio Durão Barroso - que beneficiou da sua ajuda politico-diplomática no quadro da Cimeira dos Azores (para fazer a guerra ilegítima e ilegal ao Iraque) para se fazer eleger Presidente da Comissão Europeia - lhe estende a mão para o cumprimentar.
Por este andar, receio que a teoria do homem-cato se comece a colar a Belém, posto que ela já é uma realidade com a actual presidente do PSD que Cavaco não se cansou de apoiar - até perceber que Ferreira Leite é uma política-kamikase.

Evocação de Seal: um homem simples mas com imenso valor e talento. Dispensa estatuto

Seal abraçando a sua mãe adoptiva no programa de Oprah. Tem hoje 44 anos, e nunca mais a viu desde os 4 anos. Quarenta anos passaram. Nasceu pobre. Enriqueceu com valor e talento. Mas não deixa de ser um homem simples e com personalidade, além de um talentoso músico e compositor. Um exemplo a evocar.

Este não precisa de "Estatuto", já o tem por inerência...

Procura-se, vasculha-se toda sua "frota" músical e nem uma só música mediana encontramos.

Merece bem a vida que tem. E, já agora, também a mulher que o acompanha Heidi Blum.
Seal - Amazing (official clip!)

Seal - My Vision (Feat. Jakatta)

Seal, Dreaming in Metaphors

Seal - If I Could

terça-feira

Cavaco é forte com os fracos. Racionalização política do ressentimento

Cavaco foi forte com os fracos - tentando cilindrar os Açores - cujo Governo regional é verdadeiramente democrático e pluralista;
Mas tem sido fraco com os fortes - vide a relação medrosa com Al berto da Madeira - podre durante décadas. Em S. Bento Cavaco era anualmente chantageado com o Orçamento porque Al berto queria comer sempre uma fatia cada vez maior do bolo; já em Belém - o líder da Madeira, para achincalhar Cavaco, chamava-lhe o "sr. Silva", como se fosse um mero empregado duma charcutaria da Morais Soares. Este nunca reagiu.
Cavaco ao não remeter para o TC o diploma que considerava inconstitucional quis medir forças - públicamente - e testar o seu poder com a maioria rosa. Tramou-se.
Hoje o ambiente é de desconfiança recíproca, e tudo porque cavaco quis condicionar a vontade da maioria de deputados na AR através do seu demo-populismo feito nos media, marginalizando os órgãos de soberania competentes para o efeito.
Cavaco preferiu os media ao Tribunal de Contas, perdão, Constitucional...
Não obstante Cavaco ter razão na substância, perdeu na forma. E, pelos vistos, citar o eminente constitucionalista de Coimbra, Vital Moreira, que é da área do Governo, só ridicularizou ainda mais a autoridade e a credibilidade de cavaco em Belém. Ter que citar um constitucionalista, só porque ele integra a área do actual poder, denuncia uma concepção provinciana da política, do País e até das relações humanas.
Cavaco, como aqui temos dito, tem feito o seu mandato de forma muito semelhante à de Américo Tomáz antes do 25 de Abril: corta fitas, inaugura estátuas, estradas, hospitais, escolas e monumentos, faz turismo diplomático mas, na realidade, a sua capacidade para atrair IDE, dinamizar os principais indicadores sociais e económicos, é práticamente nula. Bem sei que as funções presidenciais são mais de representação do que executivas, mas, ao menos, o turismo diplomático que Cavaco tem feito com a sua entourage ao exterior, poderia saldar-se em algum investimento positivo para Portugal, mas o saldo é indiferente.
Cavaco apenas diz que recebe centenas de cartas do zé povinho sem dinheiro para comer, etc, etc... Mas, para além da denúncia pública desta pobreza que alastra em Portugal, Cavaco não tem feito mais nada. Limita-se a ser o pombo correio das cartas do zé povinho ao país. É uma espécie de carteiro de Belém que anuncia as más novas da pobreza em Portugal. E Cavaco, recorde-se, é o PR, não é um cidadão comum.
A dois anos de mandato, não tenho dúvidas que se Mário Soares tivesse ganho Belém, mesmo com aquela provecta idade, o quadro de relacionamento entre órgãos de soberania já teria promovido uma melhor imagem de Portugal no exterior e, por consequência, Portugal também teria conseguido captar mais investimentos infra-estruturantes que hoje estariam a contribuir para valorizar os nossos recursos humanos potenciando também as exportações do país.
Cavaco tem um baixo perfil democrático, a sua personalidade adaptou-se a um cargo executivo num país subdesenvolvido - a sair da grelha agrícola e rural que nos tolhia no post-25 de Abril.
O Portugal da post-modernidade precisa em Belém de um perfil mais desenvolvimentista, mais cosmopolita, mais dialogante e interactivo com a sociedade e com o Governo - e Cavaco, pelo seu perfil e provas que deu nestes dois anos - tem-se revelado um player que paralisa mais do que dinamiza. Até o poeta Manel Alegre, entre poesias e gaffes económicas, faria uma melhor performance.
A cooperação estratégica é, afinal, uma fórmula vã. Se não deu para apoiar a sua amiga e discípula Ferreira leite (que é o maior fiasco político de que há memória, seguida de Santana Lopes), se não deu para coadjuvar o Governo nas questões ligadas ao desenvolvimento e à coesão social, tenho sérias dúvidas que dê para dinamizar o crescimento e o desenvolvimento económico e social em Portugal.
Infelizmente, não é com o Estatuto dos Açores, que Cavaco reputa uma questão crucial (sendo, na realidade, uma matéria esotérica para a maior parte dos portugueses), que aumentamos a nossa taxa de empregabilidade, combatemos a pobreza, coadjuvamos o empresariado a sobreviver à crise dos mercados e, em suma, fazemos de Portugal uma nação moderna e desenvolvida.
Veremos como cavaco irá racionalizar políticamente o ressentimento que acumulou com o averbamento duma derrota que o afectou psicológicamente.
Cavaco promulgou o Estatuto dos Açores porque era obrigado a tal pela CRP, veremos, doravante, se as fiscalizações preventivas, os vetos e outras armas constitucionais em seu poder para paralizar a governação - decorrem duma vontade autentica ou, simplesmente, emanam duma implicância presidencial resultante do ressentimento - ainda que escudadas naquilo que Vilfredo Pareto designou de sistemas intelectuais de justificação.

Miguel de Cervantes e o "Estatuto" do artista. Santana no seu melhor...

Não raro a frustração assalta-nos: na economia, na sociedade, na política. Não há área em que não ocorram frustrações, quando o técnico, o político, o artista desenvolve noções que depois entram em desacordo com a realidade que visava explicar. Naturalmente, este gap gera ânsias e frustrações nas pessoas. De resto, as pessoas felizes nunca têm fantasias, só os insatisfeitos, como diria Freud.
E o artista, para evocar Miguel de Cervantes, é ecce hommo que está em desacordo com a vida, porque a concebe de modo diferente daquele que ela é na realidade. Aqueles que se conformam com ela são, no dizer de Virginia Woolf, os silenciosos, e destes não reza a história.
Decorre isto do facto de Dom Quixote ser o símbolo clássico, imortal do artista em desacordo com a realidade. Do mesmo modo que não se consegue chegar a um acordo na política, e o caso flagrante do Estatuto dos Açores revela o ponto a que chegou o absurdo da política em Portugal (com tanto irracionalismo, de parte a parte), do mesmo modo que também não se consegue chegar a um acordo com a rotina da vida vulgar. Quando se identifica este limite, esta finitude - é quando se abre a porta para criar um mundo imaginário próprio, que cada um de nós, no plano pessoal e/ou institucional - acaba por criar.
E criando esse universo imaginário acentua-se o afastamento da realidade. A delusão de D. Quixote nem sequer é uma caricatura exagerada da auto-desilusão do artista, mas uma tentativa de ajustar o mundo às reivindicações de um indivíduo que reage contra a realidade intolerável através de ideias imaginárias.
Ora, tanto o artista como o louco preferem sacrificar o mundo em vez das suas próprias pretensões ou, como preferem chamar-lhes, ideias. Aquilo que creio ter-se passado no lamentável e até ridículo caso em torno do Estatuto dos Açores foi a derrota da razão perante os comandos dos caprichos e dos egos políticos inflamados que atingiram todos os absurdos.
E aqui temos de ser sérios: Cavaco esteve mal porque deveria ter solicitado o diploma/Estatuto dos Açores ao TC para que este expurgasse as normas inconstitucionais nele inclusas; e o grupo parlamentar do PS na AR deveria ser mais humilde e não converter a maioria em supremacia que, a prazo, pode sofrer de um efeito de boomerang político. Embora tenha sido Cavaco que tivesse averbado a derrota política (imediata) é, doravante, a maioria de deputados no hemiciclo que joga à defesa na aprovação de futuros diplomas com os quais Belém pode "querer" implicar, nunca se sabendo, verdadeiramente, qual ou quais deles o são por vontade autêntica ou qual ou quais deles resultam de mera implicância política de Belém - ainda que adornado pelos sistemas intelectuais de justificação usados para dourar a pílula. Logo, o confusionismo e a litigância política em Portugal tenderá a aumentar em 2009.
Esta falta de equilíbrio no jogo de poderes constitucionais levou a que o artista se afastasse mais da realidade, a distância que separa hoje a realidade interior da realidade exterior em Portugal aumentou, aumentando o fosso entre o que os actores políticos pensam e fazem, projectam e realizam. É esta falta de autenticidade entre os homens - que hoje alastra ao sistema político - que gera desconfiança nas pessoas e nas instituições, uma fronteira que hoje se agrava em virtude da grave crise de recursos económicos, morais e espirituais que nos encostam à parede - alimentando um universo de fantasias e de fantasmas que nem sempre culminam em grandes obras d'arte.
Por vezes, até o subproduto dessas fantasias conduz a sérias crises políticas que, quando encadeadas com graves crises sociais, económicas e financeiras, criam o molotov explosivo para que passemos a andar todos algemados na nossa própria terra.
E assim fica sempre mais difícil qualquer artista pintar o povo que somos ou retratar os homens que já fomos. Se é útil que o artista se afaste um pouco da realidade, para poder criar e recriar com melhor perspectiva, é bom que esse afastamento não seja radical, sob pena de rompermos equilíbrios sociais importantes que não se restabelecem em duas penadas.
O ridículo Estatuto dos Açores, de que daqui a uns meses já ninguém se recordará, nem o próprio PR, evocou-me a história do artista que entra em desacordo com a realidade. O que também foi uma maneira simpática de evocar Miguel de Cervantes e D. Quixote - que tem andado um pouco esquecido.

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Nota prévia:

UM EXEMPLO DE LOUCURA POLÍTICA NA CAPITAL, UM CASO EM QUE O AFASTAMENTO DO "ARTISTA" DA REALIDADE É GROSSEIRO.

Santana - que gerou a dívida e agravou o buraco financeiro na capital entre outras trapalhadas urbanísticas - propõe-se agora sanear a autarquia, e com a ajuda de quem? - Do Governo.

Ensandeceu.

Para modelo urbanístico - a dupla-maravilha Santana-Carreras - elege Berlim Leste.

Se isto não é um exercício puro e aplicado de demência política na capital, é melhor chamar a polícia que eu não pago...

Com jeitinho ainda integram o deputado Bernardino do PCP - e acabam todos em Pyongyang a tirar as medidas aos centros culturais locais para reproduzir nas avenidas novas.

Hoje o espaço para a fantasia é limitado. A realidade psíquica e política de Santana e seus muchachos ultrapassa sempre a ficção.

É a loucura total no psd de Manela.

PSD prepara programa para Lisboa, in DN

[...]

A renovação urbanística que se fez em Berlim-Leste é um exemplo para o PSD/Lisboa, que, no programa eleitoral com que se vai candidatar às próximas autárquicas, pretende "ver o que os outros fizeram bem" e depois aplicar. "Não são projectos ideológicos", afirma Carlos Carreiras, o chefe do PSD de Lisboa e o principal impulsionador da candidatura de Pedro Santana Lopes à CML.

A primeira prioridade será, contudo, o saneamento financeiro, um drama que "decorre de um tempo anterior à gestão do PSD na câmara". Sem este problema resolvido, qualquer programa "será mera demagogia" e o PSD pretende obrigar o Governo a resolvê-lo, pelo menos parcialmente: "É preciso chamar o Governo à responsabilidade que tem na capital."

Para o partido de Santana Lopes, a cidade deve desenvolver-se com uma estratégia de fixação de "tecnologia", "talento" e "tolerância". Lisboa foi ultrapassada por Barcelona, Valência e Vigo nos campeonatos regionais de cidades e o PSD conta arranjar um programa para travar o avolumar do fosso. [...]

Uma árvore de Natal original...

... e minuciosa que deve ter dado algum trabalho.

Esperemos que o Ano de 2009 seja promissor e próspero para os 10 milhões de portugueses.
Tanto quanto a criatividade realizada nesta árvore da autoria do Fliscorno.

Inominado

Já para o "mediólogo" que acompanha as movimentações do FCP o grande problema que Portugal hoje atravessa não é o Estatuto dos Açores - mas sim a falta de amor entre as pessoas e a escassa confiança nos mercados - que também penalisa a bolsa de valores de Lisboa.

Perguntaram...

... À sr. Ferreira Leite qual era o principal problema actualmente em Portugal:
- ela respondeu que era o Estatuto dos Açores. Como porta-vox de Belém, era uma resposta esperada.
- Depois fizeram a mesma pergunta a Al berto Jardim:
- que alegadamente respondeu que o problema em Portugal residia nos "bastardos" dos jornalistas e nos maçons imperialistas.
Em 3º lugar colou-se a mesma questão a Luís Filipe Vieira - que disse ser o facto de o Benfica já não ganhar um título há anos.
Como se vê a realidade é complexa e multidimensional.
Por fim, colocou-se a referida questão a um "almeida" da CML - que referiu que o grande problema reside no facto de Santana querer regressar à edilidade, o que aumenta exponencialmente a possibilidade de existirem mais buracos na cidade adensando o caos urbanístico.

O sono era um monstro...

... Apoiado em muletas, dizia Salvador Dali - talvez influenciado por Freud - com quem conviveu.
Mas em Portugal, a principal figura do Estado, aquele que ocupa o vértice da pirâmide do poder e chefe supremo das FAs - ocupa boa parte do seu tempo preocupado com um Estatuto insular - que é um "doce" para juristas, mas nada diz aos milhares de portugueses que estão desempregados, aos empresários que hesitam entre abrir falência e continuar a endividar-se, aos milhares de portugueses que fazem uma terrível ginástica para assegurar a prestação da casa ao banco e aos jovens licenciados que terminaram os seus cursos e as caixas dos supermercados - entre outros trabalhos menores - acabam por ser a tábua de salvação para não continuarem a viver em regime de CP (casa dos pais) - o que retarda e amputa a taxa de natalidade e envelhece este nosso querido Portugal.
Mas com este passivo, com este capital de queixa cavaco não está preocupado. Lamentável.
Eis alguns dos problemas sociais dos portugueses, e em vez de verem o PR a ir à TV fazer um comunicado informando o país que conseguiu, em virtude da sua imensa carteira de contactos políticos internacionais feita ao tempo em que foi PM, de um novo investimento por parte de uma multinacional que empregará 2 mil trabalhadores qualificados, aumentando a competitividade da economia portuguesa melhorando também a performance das nossas exportações, aquilo que os portugueses vêm é um PR, com um ar muito enjoado, fazer comunicados à nação sobre o Estatuto jurídico dos Açores.
Na época de excepção em que vivemos, em que os portugueses passam por tantas privações, isto é aviltante para a dignidade colectiva e só reforça a sua crença de que os políticos que têm apenas se preocupam com as aparências e os poderes formais de que são titulares - marginalizando a busca de soluções sociais e económicas alternativas que melhorem as condições de vida dos portugueses, potenciando a sua liberdade de escolha - que é o verdadeiro objectivo do desenvolvimento. Com melhores serviços sociais, de saúde, de educação - interligando todas estas oportunidades sociais num sistema mais personalizado e transparente.
Ora, no discurso de Cavaco nem uma única vez se ouviu a palavra desenvolvimento, modernização, crescimento, emprego (ou empregabilidade), coesão social, combate à pobreza, redes de comunicação, etc.
Cavaco é um político do séc. XX - fechado na sua torre de marfim, recebendo as cartas do zé povinho em Belém, denunciando a sua pobreza nos media, ecoando as suas privações mas, na realidade, na prática, na substância das coisas - cavaco pouco ou nada faz para potenciar o crescimento e o desenvolvimento dos portugueses. Discursos e mais discursos é a especialidade do actual locatário de Belém.
Cavaco anda mal aconselhado, e quando pensa por si assemelha-se a Ferreira leite, denunciando uma visão limitada, sectária e provinciana do país e da sociedade, mas o que os 10 milhões de portugueses precisam é de alargar o seu leque instrumental de liberdade de escolha - que hoje não existe, nem cavaco tem contribuído para que exista.
A resposta que Cavaco encontra - em final de ano - para dar aos desempregados, aos empresários em dificuldades, à classe média-baixa que em Portugal constitui a maioria das pessoas - é o Estatuto dos Açores. É com esse estatuto que os tugas vão arranjar empregos, pagar as prestações da casa ao banco, comer e beber, comprar roupas e garantir bem-estar.
Por este andar, ainda acabo por votar no poeta Manuel Alegre nas próximas eleições presidenciais. Dezenas de pessoas que conheço - que votaram Cavaco nas últimas presidenciais - hoje afirmam já não o fazer.
Porque a perspectiva de liberdade da autoria do sr. PR acerca dos fins que escolhe para presidir a Portugal e desenvolver a nossa sociedade é tão processual e segmentária que nem uma sociedade de grilos gostaria de viver assim no rectângulo.
O rectângulo do estatuto dos Açores. Para um país que enfrenta hoje sérios problemas sociais, económicos e financeiros - isto, no mínimo, é tão lamentável quanto ridículo.

segunda-feira

O lapso do sr. Presidente da República, Cavaco Silva

O sr. PR, Cavaco Silva entende que a qualidade da democracia sofreu um sério revés, e tem razão...

O problema é que todo o seu discurso e a "sua razão política" está montada para criticar a situação política na Madeira e não nos Açores - que tem sido exemplar.
É a Madeira (e não os Açores) que tem, há décadas, violado os princípios elementares da democracia e do estado de direito, e até da boa educação...
A grande questão é perceber por que razão Cavaco se enganou ao ter trocado os nomes das ilhas. Afinal, para Cavaco ter plena razão bastaria que no seu discurso onde lia Açores deveria ler Madeira.
Proponha-se, portanto, o envio dessa errata política ao cuidado do sr. PR.

Cavaco poderia aproveitar a sua mensagem para desejar, ao menos, um Bom Ano aos portugueses. Mas...

Ver aqui o video
Mas, a argumentação do sr. PR é conhecida, gasta e estafada. Nada de novo na república. Embora Cavaco tenha razão na substância, posto que uma lei ordinária não deve limitar uma lei da CRP nem condicionar os poderes do PR - perdeu na forma política ao desafiar a maioria parlamentar do PS na AR a fazer um braço-de-ferro - que perdeu. Cavaco não quis ab initio enviar o Estatuto dos Açores para o TC, como devia, optou pela luta política através dos media com aquela declaração extemporânea a 31 de Julho, deixando os portugueses abananados. Exasperou a maioria, e a maioria desafiada, deu a sua prova de força. Se fosse o PSD que estivesse no poder o resultado seria equivalente, o poder - quando se tem - usa-se.
E já que Cavaco fala em termos de princípios e dos superiores interesses do Estado - esperemos que use do mesmo critério em relação à "república das bananas" - também conhecida pela Madeira de Al berto, a mesma que lhe chama "sr. Silva" - impedindo até que Cavaco - ao visitar a ilha - se prive de ir à Assembleia Legislativa da Madeira e aí ser formalmente recebido pelos deputados regionais. Isto Cavaco já não considera absurdo!!!
Aqui é pena que Cavaco não faça uma declaração ao País, não denuncie as arbitrariedades cometidas pelo presidente do governo regional, Al Berto, pontapeando a democracia e cuspindo no estado de direito, já para não falar quando o dito Alberto designa os jornalistas de filhos da p...
Aqui Cavaco mingua, dissolve-se, esconde-se no pátio dos bichos em Belém e ninguém o vê e ouve. Finge que não vê TV nem lê jornais, como dizia na década de 80. Numa palavra: acobarda-se politicamente, não tem coragem para enfrentar o líder da Madeira que governa a ilha como um quintal, aquele que Jaime Gama - em tempos - apelidara de "bokassa"... É pena que Cavaco hoje use dos dois pesos e das duas medidas na avaliação dos processos de tomada de decisão em que é chamado a intervir.
Resta a Cavaco ficar com a substância da razão e com os améns dos eminentes constitucionalistas (inclusive Vital Moreira), mas em política - a forma de conduzir os processos, por vezes, é mais importante do que a substância, e esta é a principal lição que o PR deverá guardar para si no futuro.
Cavaco já não está em S. Bento a governar, projectando a filosofia "do quero, posso e mando" - sem nunca dar "cavaco" no Parlamento aos deputados da oposição (ao invés de Sócrates que vai lá todas a semanas) - suportado por uma maioria no hemiciclo que o respaldava pela então "máquina laranjinha", e como faz confusão baralha as pistas...
E ao baralhar as pistas adopta uma atitude assertiva e combativa para com os Açores (liderado por um governo regional socialista), e uma atitude complacente e medrosa com a Madeira (liderada pelo Alberto - há 30 anos no poder..) - revelando uma dualidade que em política é tão perigosa quanto enfraquecedora.
Aqui Cavaco já não invoca o superior interesse nacional, nem os princípios nem as toneladas de adjectivos e a gramática política a que recorre para colmatar os chamados sistemas intelectuais de justificação, como diria Pareto que, a dado momento, os actores políticos têm na polis.
No fundo, Cavaco tem razão ao classificar de "absurda" a lei que foi obrigado a promulgar, parecia um leão velho nas paisagens do Serengethi a ser expulso pelos novos leões, mas se ele quisesse ser verdadeiramente justo (e não apenas quando lhe convém) terá de olhar para os Açores com as mesmas lentes com que deverá, doravante, olhar para o jardim da Madeira - que é só uma coutada para alguns: os amigos do Alberto, os mesmos que, lamentavelmente, designa o PR de "sr. Silva" e ganham os concursos públicos adjudicados pelo Estado, preterindo, sem qualquer legalidade, todo aquele empresário que não tenha o cartão laranja ou não contribua para a causa do Al berto.
Confesso, por último, que me desiludiu a mensagem de Cavaco, que a poderia aproveitar para tecer uma mensagem de ânimo e de esperança dirigindo aos 10 milhões de portugueses uma boa nova. Mas a sua obsessão com o Estatuto dos Açores - que nada diz à maior parte dos portugueses, absorveu a totalidade do seu tempo de antena anti-governo regional dos Açores.
É triste que cavaco não tenha reservado um parágrafo social na sua declaração ao País para endossar uma mensagem de esperança aos portugueses mais desfavorecidos, àqueles que vivem com 400 e 500 euros por mês. Poderia até ter copiado um aparte da mensagem do cardeal D. José Policarpo - para esse efeito, mas a obsessão de Cavaco pela forma política fá-lo esquecer da importância da substância das coisas, daquelas que dão de comer e de beber aos portugueses, e essas necessidades não se atendem com a questão dos Estatuto dos Açores - transformada num casus belli por cavaco a 31 de Julho do corrente.
Cavaco foi o detonador de si próprio, por isso não se pode queixar.
Daqui desejamos um Bom Ano ao sr. PR, que era coisa que ele deveria ter tido a consideração de dizer aos portugueses que o ouviram.

Cavaco e o discurso de Ano Novo. O doutrinador

Esteve bem hoje Cavaco ao sublinhar a importância da "autonomia revelada por alguns dos nossos empresários e a sua tendência para o encosto ao Estado têm sido muito nocivas para a economia”.
Ao falar assim, Cavaco está a defender uma sociedade civil mais forte, como na América, em que os agentes económicos e sociais pouco dependem do Estado para realizar os seus projectos. Mas, curiosamente, durante 10 anos em S. Bento, na qualidade de PM, não foi essa a tese vingada pelo chamado cavaquismo. Antes pelo contrário: o aumento do peso do Estado na sociedade só burocratizou a sociedade, os boys laranjas foram uma marca negativa que subtraiu valor e qualidade à política, a criação de departamentos públicos e de dezenas de institutos foram uma marca do cavaquistão - que Guterres e depois Sócrates tentaram reduzir na reforma (possível) do Estado - extinguindo inúmeros desses organismos públicos que eram um sorvedouro de dinheiros públicos sem nenhuma contrapartida para a sociedade, apenas um "encosto" para a máquina laranja - que hoje Cavaco - já em Belém, critica, e bem, em algum empresariado. Os tempos mudam, as pessoas mudam de ideias e tudo na vida é relativo, excepto a morte...
Mais vale tarde do que nunca. Registe-se, pois, a evolução de Cavaco em matéria de pensamento social e político. Hoje defende menos Estado para termos melhor Estado.
Por outro lado, Cavaco, revela confiança "nos jovens empresários. E por isso diz: "não faço visitas de Estado sem levar alguns deles”, referiu o Chefe de Estado após ter manifestado convicção numa alteração de comportamento das novas gerações de empresários.
Estas palavras são sempre muito amáveis e ficam bem, mas se os mecanismos da lei, da qualificação socioprofissional e se o chamado ambiente em torno do qual o mundo das empresas gravita não sofrer uma agilização com vista ao aumento da produtividade e competitividade nos mercados internacionais - os discursos do PR arriscam-se a ter o mesmo valor facial do que os discursos de Américo Tomáz antes do 25 de Abril. São apenas episódios simbólicos, formalidades políticas para preencher calendário, espaços vazios de conteúdo. Tudo para inglês ver. É curto.
Daqui a uma hora Cavaco irá fazer o seu discurso de Ano Novo, e como em Julho último gerou grande expectativa - levando mesmo os portugueses a apostarem no tema objecto do discurso; hoje, é provável que já não se reporte ao Estatuto dos Açores e fale de economia, uma área que gosta, e na necessidade de investimentos públicos em infra-estruturas de que Portugal precisa, não só para crescer e se desenvolver e modernizar, especialamente na sua rede de transportes rodo-ferroviários, como também para manter as PMEs em funcionamento, já que estamos numa fase de estagnação económica em que cabe ao Estado fazer o take-of desses investimentos - que depois serão reforçados pelas parcerias com os privados. O Estado representa hoje a semente da esperança.
Todavia, Cavaco em Belém assume um papel completamente distinto do Cavaco em S. Bento. Desde logo, porque as funções políticas são também distintas, mas também porque Belém permite ao seu locatário, porque não tem funções executivas, dar margem para ser um actor político doutrinário, querendo estabelecer um sistema de pensamento coerente procurando, com a máxima racionalidade, harmonizar as suas decisões com esse sistema.
Ou seja, Cavaco deseja uma sociedade civil mais forte, com empresários menos dependentes do Estado, e bem, mas, para o efeito, tem também que se opôr a que players da sua linha política (alguns até conselheiros de Estado) se permitam ter interesses cruzados (e perigosos) entre a banca e o Estado - de que o BPN - durante uma década foi um mau exemplo.
Razão por que acho que Cavaco, além de admoestar o grupo parlamentar do PS relativamente ao Estatuto dos Açores, ou seja, criticar os deputados eleitos pela Nação, irá centrar-se naqueles que são os desafios económicos e sociais dos Portugueses para 2009, em particular a forma como o OE - pode ou não ser melhorado e ajustado para minorar esse passivo social (desempreo, pobreza, marginalidade, conflitualidade social, falências de PMEs, etc).
Se assim for, Cavaco regressará à sua intenção inicial presente na sua fórmula de cooperação estratégica com o Governo. Se, ao invés, enveredar por desancar no Governo sem critério, entrará pelo caminho do oportunismo e do cinismo fáceis - que também não são seu apanágio. Ainda que todo e qualquer político navegue ao sabor da ditadura das circunstâncias - cuja importância condiciona as decisões a tomar a formata a conduta dos políticos.
Como o ano de 2009 é tão difícil quanto incerto e socialmente problemático - tenho para mim que Cavaco usará do seu habitual taticismo, da sua velha prudência, falando o indispensável. Mitigando ameaças veladas com reconhecimento das dificuldades, mas como não há receitas miraculosas nem teorias económicas e sociais que nos façam sair deste impasse - que é mundial e europeu - com a economia a teimar em não fazer o seu take-of por falta de confiança nos mercados (retraindo o investimento, a procura, o consumo e todos os indicadores que mandam na economia que não passa dum jogo de expectativas) - é natural que Cavaco flexibilize a sua postura com o Governo e consiga dar uma imagem de homem de Estado verdadeiramente preocupado com todos os portugueses, mormente os mais desfavorecidos, e não apenas com aqueles que nele votaram - que hoje, certamente, são em menor número quando o elegeram.
À possibilidade de um Cavaco lutador, oportunista e cínico, creio que o discurso de Belém, atentas as dificuldades macroecononómicas da Europa - e de cada espaço nacional invidualmente considerado - converge no sentido de uma mensagem conciliadora, doutrinária, procurando cerrar fileiras para potenciar a motivação colectiva dos portugueses e, desse modo, arranjarmos todos forças para superar as limitações que hoje nos tolhem e amanhã sairmos de cabeça erguida na empresa, no Estado e na vidinha de cada um de nós: 10 milhões de homens e mulheres plantados neste rectângulo, neste nosso querido Portugal.

Cavaco vai falar à noitinha... O Estatuto dos Açores está-lhe na garganta e o OE/09 pode ser empancado

São conhecidas as relações tensas entre Cavaco e o grupo parlamentar do PS a propósito do Estatuto dos Açores, que se saldou numa derrota política para Cavaco, apesar de ter sido um braço-de-ferro gratuito e inútil - sem aproveitar ninguém. Antes pelo contrário, deixou um traço amargo no ego de Belém que se reflectirá nas relações com S. Bento.
Sucede que na vida, porque o tempo não pára, os factos ocorrem encadeadamente, nada é estanque e, hoje, termina o prazo de promulgação que a Constituição concede ao PR para promulgar o referido Estatuto.
Entretanto, está agendada uma declaração ao País por parte do PR, que será feita à noite - em que Cavaco poderá fazer algo de diferente, inclusive dizer que pensou recusar-se promulgar aquele importante diploma sob justificação de que os seus poderes constitucionais foram tocados, ainda que o PSD se tenha abstido na votação da AR. Mas nesse caso, o Governo caía - e o país teria eleições legislativas antecipadas (o que talvez favorecesse Sócrates e o governo), mas Cavaco jamais queria um fardo tão pesado sobre os seus ombros. Viabiliza.
É aqui que se abre uma bifurcação: ou Cavaco aceita, lambe as feridas e promulga o Diploma - que entrará em vigor a 1 de Janeiro; ou inviabiliza o diploma e solicita que se façam alterações ao mesmo para se acomodar melhor à realidade do sistema de poderes constitucionais vigente em Portugal. Mas já sem tensão política..(na esfera da fiscalização sucessiva da constitucionalidade).
No que diz respeito ao OE/2009 das duas uma: ou Belém manda o Governo afinar o diploma, ou, a prazo, será a realidade económica e social que obrigará o Executivo a adaptar o principal instrumento de política financeira e económica do país a reajustar-se às particularidades e constrangimentos por que iremos todos passar.
Significa isto que mesmo não havendo uma "vingançazinha" de Belém por causa da derrota (com sabor a humilhação) pela obrigatoriedade da aprovação do Estatuto dos Açores - a realidade dos mercados e da economia internacional é hoje de tal forma volátil e imprevisível que os orçamentos - um pouco em todos os países do mundo - têm que ser rectificados à cadência do trimestre ou do semestre - esquecendo a anuidade que hoje vigora na feitura dos orçamentos. A ser assim, teríamos orçamentos plurianuais.
Naturalmente, o Governo - que não é parvo - conhece bem as mudanças micro e macro - nos mercados e as dificuldades sectoriais por que irão passar os portugueses em 2009, por isso é previsível que tenha na manga um Orçamento rectificativo para apresentar, mas isso só ocorrerá quando o Governo entender, e não quando Belém fizer soar o alarme, sob pena de no domínio das percepções públicas essas tomadas de posição se saldarem em derrotas para uns e vitórias para outros. E aqui, naturalmente, também ninguém quer perder.
O Estatuto dos Açores poderá ser a "granada desencavilhada" que levará Cavaco a vetar a promulgação do OE/2009 - que ontem o semanário Sol referenciou, tensão essa que se adensou no último semestre podendo comprometer a única fórmula que Cavaco revelou ao país desde a sua campanha até ao presente - a cooperação estratégica.
Ou seja, poderá passar-se da fase do "enamoramento" institucional para a fase do pré-divórcio - ainda que esteja por cumprir a fase mais difícil dessa relação de cooperação - que será o ano de 2009.
Mas não sejamos ingénuos: Cavaco vetou duas vezes o diploma dos Açores, e a maioria de deputados do PS na AR impôs esse diploma a Belém. À luz dos portugueses, e sabendo-se como Cavaco é orgulhoso, Belém irá querer dizer algo ao País logo à noite, nem que seja debitar um puxão de orelhas ao Governo - e ao seu grupo parlamentar - para dizer que Cavaco só não dissolve a AR porque vivemos momentos de crise social e financeira graves.
Tudo visto e somado, teremos mais um diploma enviado para publicação na folha oficial, e como já passou o Natal é natural que Cavaco, para esfolar o seu orgulho político ferido diga ao Governo - sob o olhar atento da nação - que de futuro não contem com ele para situações semelhantes às do Estatuto dos Açores.
Neste momento, Cavaco não tem mais nenhuma arma política senão fazer uma ameaça velada ao modus operandi como a governação se irá processar em 2009, a de 2008 já transitou, Cavaco cometeu erros grosseiros que lhe servirão de emenda de futuro (como aquela declaração extemporânea a 31 de Julho - quando deveria ter enviado logo o diploma para o TC), mas Cavaco quis alimentar a compita que redundou na tensão conhecida.
Esperemos que Belém tenha aprendido a lição, já que todo o ambiente político afecto à sua linha política - desde os dislates de Ferreira Leite ao caso BPN - contribuiram mais para o enfraquecer políticamente do que para o credibilizar. De modo, que Cavaco é hoje o pássaro ferido cuja credibilidade em Belém é inferior à credibilidade quando estava em S. Bento a desempenhar as funções de PM.
Além de que a experiência política de Cavaco, todo aquele capital de conhecimento consolidado numa década de governação hoje pouco ou nada serviu para ajudar o Governo - e os portugueses - a criarem mais e melhores empregos, terem mais qualidade de vida e mais oportunidades, mais liberdade e igualdades no acesso aos bens sociais e culturais. Cavaco tem sido assim uma espécie de Américo Tomáz do 1º quartel do séc. XXI - cortas as fitas, faz discursos de circunstância mas sem nenhuma ressonância concreta na vida dos portugueses.
Resta a Cavaco, ainda que a contra-gosto e naquele seu registo enjoado que os portugueses já conhecem bem, como se estivesse a fazer um frete ao país por ser PR, desejar um Bom Ano aos portugueses.
Será mais um discurso em que Cavaco só dirá parte [da sua] verdade... Qual espécie de novo tabú à entrada do Novo Ano.
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Medina Carreira, aparte ser um ex-ministro das Finanças, um homem inteligente e culto, senhor duma fina e demolidora ironia, especializou-se em ir para a tv de Balsemão desempenhar o papel de profeta da desgraça. Com ele a realidade só piora pelo efeito psicológico que gera. Se existe violência civil em Atenas, ele teme que a coisa se generalize a Lisboa e às avenidas novas.

Foi também mandatário de Cavaco a Belém, se calhar é por causa disso que Belém tem cometido tantos erros políticos. Deus nos livre que Medina volte a ser governante em Portugal, se fosse os portugueses teriam de vender os anéis e penhorar os fios de ouro e de prata para comprar pão e andar de bus. Além de escavacar a bolsa de valores de Lisboa em 24h. Seria, em rigor, um atentado à economia virtual e um desastre para a economia real. Nenhum investidor viria para Portugal se ouvisse 5 segundos Medina carreira.

Resta a Medina cultivar o papel de entertainer anti-governo (seja ele qual for, porque o seu lema é ser sempre do contra), debitar mais umas piadas finas no domínio económico, entalar o jornalista da Sic, José Gomes Ferreira e, por fim, concordar com o Governo no essencial: aumentar o défice para 2009 (aliás, permitido pelo PEC - agora nos 3%).

No fundo, Medina discorda para concordar. É um prodígio da ciência económica, ainda irá fazer companhia a Paul Krugman...

Ou seja, Medina Carreira até vai atrás do governo, mas não resiste à piada. Em momentos de crise - servem para lavar a alma, e esse é hoje o papel do economista Medina Carreira na sociedade portuguesa.

Antes disso foi ministro das Finanças.

Confesso ter simpatia pelo economista, evoca-me um desenho animado da minha infância, o Mr. Magoo.

Lembram-se do Mr. MaggoO [link]??!!
Mr. Magoo - Magoo's Buggy - 1961

Sem ética não há confiança - por Francisco Sarsfield Cabral -

Sem ética não há confiança, in Público
O capitalismo baseia-se na confiança. O mercado precisa de leis: contra o que pensavam alguns ultra-liberais, não há mercado sem Estado. Mas não basta. Para o sistema funcionar tem que haver uma cultura de confiança, de acreditar nas pessoas e nas instituições com quem se faz uma qualquer transacção.
Nas economias colectivistas tudo é (ou era) regulado, controlado, dependente de autorizações estatais. Em menor grau, o mesmo acontece em países, como Portugal, onde é enorme o peso da burocracia do Estado na vida das pessoas e das empresas. Por isso essas economias são pouco eficientes, ao contrário daquelas onde é elevado o grau de confiança, dispensando burocracias.
O problema actual é ter-se evaporado a confiança. Os bancos não confiam nos outros bancos. Não confiam, até, em si próprios – por isso receiam dar crédito, não vá acontecer terem dificuldade em captar fundos (depósitos e sobretudo créditos estrangeiros) a custo razoável. Entre nós já aconteceu com a CGD, apesar do aval do Estado, que assim teve de a financiar. O negócio dos bancos é emprestar dinheiro. Se o não fazem, não é por ganância, é por medo.
Nada pior poderia ter acontecido nesta conjuntura de desconfiança geral do que o caso Madoff, uma burla tipo D. Branca à escala mundial, envolvendo cerca de 50 mil milhões de dólares. O drama não é existirem burlões, que os haverá sempre, embora Madoff fosse “especial”: muito respeitado em Wall Street, antigo presidente do Nasdaq, filantropo, há décadas dono de uma empresa familiar onde só por convite se podia investir dinheiro e receber as altas remunerações que Madoff oferecia.
O pior deste caso é tanta gente supostamente séria e competente ter durante tanto tempo acreditado em Madoff, que utilizava o clássico e nada sofisticado esquema da pirâmide (remunerar os capitais investidos com a entrada de novos capitais). Isto lança uma terrível dúvida sobre a idoneidade e a competência dos gestores das instituições financeiras.
Não há confiança sem um grau razoável de vigência de princípios éticos, porque as leis e os reguladores dos mercados não podem evitar todas as fraudes. Sobretudo desde o colapso do comunismo, ficando o capitalismo como único sistema viável, a ética começou a ser marginalizada no mundo dos negócios. Muitos agentes económicos e financeiros deslumbraram-se e deixaram de admitir limites.
As aldrabices que levaram à falência de grandes empresas como a WorldCom ou a Enron (esta provocando o desaparecimento da auditora multinacional Arthur Andersen) foram um sinal de que alastrava o vale-tudo para ganhar dinheiro. O mesmo se diga das obscenas remunerações auferidas por muitos gestores, frequentemente sem relação com a “performance” a longo prazo das empresas. Entre nós, tivemos o (mau) exemplo do BCP, além de outros.
Pouco ética foi, também, a irresponsabilidade com que gestores financeiros, recebendo chorudos bónus e comissões, aplicaram o dinheiro que lhes era confiado. Nos Estados Unidos a remuneração média dos operadores no sector de investimentos, títulos e contratos de matérias-primas foi em 2007 quatro vezes superior à remuneração média do resto da economia. No entanto, essa gente andou muitas vezes a vender ilusões ou meros ganhos imediatos que depois se esfumariam.
A visão imediatista que se instalou nos mercados financeiros é consequência de uma imoral avidez pelo lucro fácil e rápido. Na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz (1 de Janeiro), Combater a pobreza, construir a paz, Bento XVI diz que “uma actividade financeira confinada ao breve e brevíssimo prazo torna-se perigosa para todos, inclusivamente para quem consegue beneficiar dela durante as fases de euforia financeira”. E essa lógica “reduz a capacidade de o mercado financeiro realizar a sua função de ponte entre o presente e o futuro: apoio à criação de novas oportunidades de produção e de trabalho a longo prazo”.
Julgo que o fundamento da moral não está na sua utilidade social. Mas não há dúvida de que, sem princípios éticos aceites e praticados pela sociedade, a actividade económica emperra. Por isso não é moralismo fácil concluir que a presente crise evidenciou a importância da ética na economia e nas finanças. É mero realismo. Se não são decentes por virtude, ao menos que o sejam pelo seu próprio interesse bem compreendido.
Francisco Sarsfield Cabral Jornalista
Obs: Divulgue-se - em nome da ética nos negócios. Da ética do mercado. Da ética entre as pessoas.

domingo

GATO FEDORENTO - ZÉ CARLOS 6: Entrevista a Santana Lopes & Ferreira leite

O humorismo é o único momento sério e sobretudo sincero da nossa quotidiana mentira
(G. D. Leoni).
Humorismo é a arte de fazer cócegas no raciocínio dos outros. Há duas espécies de humorismo: o trágico e o cômico. O trágico é o que não consegue fazer rir; o cômico é o que é verdadeiramente trágico para se fazer
(Leon Eliachar).(*)

Provavelmente, Leon desconhece a realidade política portuguesa, mas se conhecesse perceberia que a sua teoria acerca do humor encontra plena aplicação em Ferreira leite (humor trágico) e em Santana Lopes (humor cómico). Com aquela choramos e coramos, com este o riso é um fartar...

Ambos estabelecem o contraste do humor em Portugal, pena é que sejam do mesmo partido...

GATO FEDORENTO - ZÉ CARLOS 6: Entrevista a Santana Lopes

GATO FEDORENTO - ZÉ CARLOS 5: Entrevista a Manuela Ferreira Leite

Sondagens para a Capital

in Expresso
António Costa ganha folgadamente a Pedro Santana Lopes nas eleições para a Câmara de Lisboa (15% de diferença) e elege oito vereadores, insuficientes, contudo, para a maioria absoluta. É o resultado do primeiro estudo de opinião após o anúncio oficial de Santana como candidato do PSD. O trabalho, realizado pela Eurosondagem, foi encomendado pelo PS.
Só Costa e Santana têm subidas significativas e ‘abastecem-se’ sobretudo no eleitorado de Carmona Rodrigues. Este já revelou que desiste de ir novamente a votos.“ O eleitorado de Carmona é o mais disponível e liberto para votar em quem entender”, diz Rui Oliveira Costa, responsável técnico da Eurosondagem.
Cidadãos por Lisboa (de Helena Roseta) e PCP mantêm a expressão de 2007. Os comunistas disputam palmo a palmo o segundo vereador com o CDS/PP, que regista uma subida — em parte com votantes de Carmona, segundo Oliveira Costa. Quem desce (e perde o vereador) é o Bloco de Esquerda. (...)
Obs: Supondo que nas próximas eleições autárquicas o nível de abstenção seja manifestamente inferior ao verificado em 2007 - nas eleições intercalares na sequência da queda do Executivo autárquico de Carmona Rodrigues - é de crer que em 2009 a massa eleitoral seja maior e queira punir o psd e o seu velho candidato a Lisboa - Santana lopes (que a abandonou à 1ª oportunidade de ir para o Governo) - e, desse modo, o PS e António Costa vejam confirmadas as margens de vantagem que esta 1ª sondagem revela sobre a relíquia representada por Santana Lopes, contra a sua própria líder.
Desta feita, António Costa terá uma tarefa complexa, mitigada e abrangente - já que terá de ir buscar eleitorado a Carmona, ao psd mais conservador, ao PCP e ao BE - que já goza do apoio do seu ex-vereador.
Aparte estes floreados eleitorais no plano autárquico, os projectos em curso na capital exigem continuidade, consistência e rigor ao nível da gestão dos recursos financeiros sem, com isso, comprometer uma visão de Lisboa para a próxima década, requisitos que só a candidatura de António Costa hoje está em condições de garantir.
O resto são taticismos de circunstância que não resolvem os problemas da cidade.

My Angel Gabriel Gabriel

Entrevista a José Ribeiro e Castro, ex-líder do CDS

“A reconciliação interna é sobretudo uma questão pessoal. E é quem abriu conflitos que a tem de fazer”, in Expresso
Entrevista a José Ribeiro e Castro, ex-líder do CDS (parte II)
"Não sei se voltarei a ter a ambição de liderar o CDS"

Filipe Santos Costa

Agora é a vez de Paulo Portas, o candidato único ao último Congresso do cds, responder ao repto do antigo-líder do partido, Ribeiro e Castro. Recorde-se que Paulo Portas intrigou, manobrou, pressionou, chantageou para expulsar Ribeiro e Castro da liderança do CDS, conseguiu. Portas receava que a investigação aos sobreiros do Ribatejo denunciada pelo bes e a forma como o o seu partido era financiado - com pessoas que já haviam morrido, mas que continuavam a contribuir com as suas quotas - , havia que condicionar esse fluxo de informações, e estando dentro do partido a "abafagem" seria mais eficaz do que estando fora. Depois, havia o problema da compra dos submarinos e das milhares de fotocópias... Enfim, resíduos do Governo Barroso depois sucedido pelo experimentalismo de Santana.

Mas mais do que reconciliado, o cds carece urgentemente é duma limpeza, duma reciclagem. Sob pena de as demissões se sucederem em massa e Portas ficar no seu Smart-do-Caldas a fazer discursos para ele próprio.

António Lobo Antunes lança críticas: "os livros em Portugal são indecentemente caros"

in Expresso
"Quando há dois anos estive muito doente, recebi sete, oito mil cartas e a maior parte eram do Porto. Isso é uma coisa que nunca poderei pagar", explicou.
O autor falou sobre a sua doença, a morte, a escrita, a cultura, a guerra, o preço dos livros, entre outros temas. Disse por exemplo que os governos pouco têm feito pela cultura desde o 25 de Abril de 1974.
"Quem tem trabalhado com a cultura são as autarquias e são fundações" como aquela a que está ligado o Clube Literário do Porto, a Fundação Dr. Luís de Araújo, defendeu.
Como autor, o que o move é "tentar colocar em palavras o que por definição é impossível contar em palavras, como as emoções ou os impulsos". Lobo Antunes evocou Ernesto Melo Antunes, que foi um dos ideólogos do 25 de Abril e morreu há nove anos, tendo mantido com ele uma grande amizade.
"A morte de um amigo é uma coisa irreparável", resumiu, para depois acrescentar que "o que aparece nos livros são estas coisas todas, ou seja, a vida".
"Os portugueses vivem tão mal e os livros são tão indecentemente caros!", criticou, em seguida, frisando que "que quem lê não são as classes altas, é a classe média baixa, como se pode observar nas feiras do livro".
O presidente da Fundação Dr. Luís de Araújo, Augusto Morais, ofereceu a Lobo Antunes um elefante prateado, que definiu como sendo "uma provocação à memória" do escritor. [...]
Obs: É curioso que da história dos assaltos nenhuma notícia ainda deu conta que andam a roubar livros. Só se assaltam moradias, carrinhas de valor, bancos, carjacking, ourivesarias...
Até aqui as livrarias são os parentes pobres dos assaltos. Como diria António Lobo Antunes, os assaltantes são pessoas de classe social média-baixa, como os leitores. No dia em que os leitores integrarem a classe A - então aí o preço dos livros baixará.
E eu a pensar que eram os accionistas de bancos e administradores e até ex-presidentes dos Conselhos de Administração que concediam empréstimos e perdões aos próprios filhos, como era apanágio de um banqueiro compulsivamente reformado. O mesmo que nas décadas de 80 e 90 proibia que as mulheres fossem funcionárias do bcp porque ao parirem tinham direito a férias que o opus-banco do eng. Jorge Jardim Gonçalves, que viu a sua reputação na lama depois de décadas de trabalho na causa da prelatura financeira, não lhes queria dar.
Ficava caro, mas já não fica caro pagar 70 e 80 mil euros/mês a uma administrador...
Estou convencido que quando se começar a assaltar livrarias em Portugal o preço dos livros baixará.
Até lá os assaltantes serão os analfabetos do costume.

A regulação da República vista por um "economista-sapateiro": Louçã

Louçã vs. Sócrates: Crise financeira e regulação do mercado

Louçã propõe ao PM que mande descer as taxas de juro euribor para poupar os cidadãos com empréstimos à banca, o que para um académico de formação económica é algo do outro mundo; e o PM, revelando que desconhecia o que era a operação short selling (o que só lhe fica bem reconhecer) critica, e bem, essa atitude especulativa que gera mais mais-valias sem nenhuma ligação à economia real - na esperança de que sejam os governadores dos Bancos Centrais da Europa a propôr essa descida duma taxa de juro que o economista Louçã pensava ser da responsabilidade do PM.

Louçã é mesmo economista, não é?! pois...

E depois o Sócrates é que se formou na Independente...

Massive Attack - Live With Me (Terry V.)

O cemitério é um espaço de vivos

Por regra, os cemitérios são espaços que convocam à dor e ao sofrimento de entes queridos e amigos que partiram. Lá se deitam os que deixaram de viver, e perante a dificuldade de serem sepultados nos adros das igrejas - as autoridades encontraram uma forma de os construir fora das igrejas, sepultando aí os mortos. Resolvendo-se assim o problema da falta de espaço - que se agravou com o aumento da população, a partir dum certo momento.
Mas se nos distanciarmos dos afectos e sentimentos destroçados que implica sempre a memória e recordação da partida de um ente querido - acabamos por dar a volta ao "eu" para começarmos a coleccionar as verdadeiras maravilhas que cada um daqueles mortos - em tempos - representou em cada um de nós.
Católico, protestante, judaico, islâmico ou de outra qualquer religião sempre que cada um de nós entra num cemitério e olha em redor é capaz, sem grande dificuldade, de recuperar a pasta dos tributos que cada um dos que jazem nos legou. E por vezes está lá a enciclopédia completa, com todos os seus volumes.
O exercício nem sequer é arriscado, remonta apenas ao bom senso, à memória e à trajectória de cada um nesta breve passagem pela vida, e que talvez não fosse marginal deixar de invocar. Se, por acaso, houver uma vida no além toda aquela gente que partiu ficará a saber que alguém os evoca, mesmo na casa onde julgamos que eles se encontram - dentro daquelas caixas de madeira com umas pegas laterais que, com o tempo, também se partem.
Desta forma, com A aprendemos a ganhar o gosto pela música; com B aprendemos a conduzir (mota primeiro, depois carro); com C cultivámos o gosto pelo desporto, especialmente o futebol; com D aperfeiçoámos o gosto pelo risco que nos permitiu ir mais longe nos projectos pessoais e profissionais; com E aprendemos - tão só - a ver o mundo de diversos ângulos (que já é muito) e assim por diante, quem sabe até esgotar o abecedário e contar a história de muita vida perdida, fragmentada que só ganhará pleno sentido se essa recuperação metafísica se fizer.
Se assim for o cemitério será o espaço de vivos, um gerador de memória, um funil de pensamentos e um intensificador de identidades.
Este exercício de recuperação da memória para perceber o que cada um de nós aprendeu com os que já partiram, mas se encontram naquela morada (o cemitério) - pode designar-se, à falta de melhor conceito, pela teoria do Cemitério dos vivos.
Aos tradicionais ritos fúnebres que nos encostam à parede como se levássemos um soco no estomâgo - recupera-se antes o legado de memórias e de aprendizagens que ficamos a dever a cada um dos familiares e amigos que que já cá não estão.
Durante a vida nem a sociedade, nem a família, muito menos a escola nos prepara para a morte, a Filosofia é, ela própria - uma espécie de curso geral de preparação para ela, e quando se percebe isso é também o momento de compreender que os Pores-do-sol nos cemitérios também têm o seu encanto, com o seu skyline a delimitar aquilo podemos ver, pensar e sentir.
Especialmente, se alí estiverem não as dores deixadas pelos que partiram, mas todo um legado de coisas úteis e de aprendizagens que recuperamos quando batemos com a testa no portão dum cemitério.
A vida, ou melhor, a morte nunca deixa de nos interpelar e de constituir um mistério, ainda que para espantar os males dos que ficam se inventem umas teorias para explicar o inexplicável. Com a vantagem de alguns deles serem quadrados.
PS: Aos que foram e aos que hão-d'ir na eterna roda dentada da produção de memórias, pensamentos e identidades.

sábado

A Desilusão de Deus - de Richard Dawkins -

"A Desilusão de Deus" de Richard Dawkins (editora Casa das Letras) não é apenas uma brilhante obra de divulgação científica, a obra de Dawkins é também uma oportuna obra política. Numa época, em que o fundamentalismo religioso voltou a ganhar terreno, em particular através da progressão do islamismo no Médio Oriente e da ascensão ao poder nos EUA de uma das variantes mais fanáticas de protestantismo evangélico, Dawkins interpela-nos com toda a oportunidade sobre os perigos deste manifesto retrocesso civilizacional.
Artigo de Rui Curado Silva, investigador no Departamento de Física da Universidade de Coimbra
Dawkins actualiza a reflexão científica sobre a existência de Deus ao longo de dois capítulos sucessivos onde analisa a hipótese e os argumentos para a existência de Deus. A tendência dos humanos para acreditar em entidades transcendentes ou espirituais é desenvolvida do ponto de vista da evolução da nossa espécie num capítulo dedicado às raízes da religião. Dawkins desmonta a ideia que a moral só pode existir associada à religião. Através de múltiplos exemplos, Dawkins recorda-nos que há mais de dois mil anos que as maiores atrocidades da nossa história têm sido perpetradas em nome de uma miríade de deuses. Dawkins analisa o papel dos regimes laicos na pacificação da sociedade, sem deixar de caracterizar devidamente o estalinismo e o nazismo. Recorda-se o papel da formação seminarista de Estaline e a espiritualidade maniqueísta de Hitler, bem como a sua cumplicidade com o Vaticano. A intolerância religiosa é analisada por Dawkins, referindo-se este em particular à hostilidade das religiões do livro à homossexualidade, ao modo de vida das sociedades mais abertas, à ciência e às religiões minoritárias.
Dawkins oferece-nos ainda uma reflexão brilhante dedicada às dificuldades do cidadão comum em compreender os problemas cuja escala o ultrapassa do ponto de vista espacial e temporal. O muito grande ou muito pequeno, o Universo ou um quark não são conceitos intuitivos tendo em conta as nossas dimensões naturais e o alcance do nosso campo de visão. Um tempo de vida média de um positrão inferior ao nanossegundo ou os milhares de milhões anos da vida de uma estrela dificilmente são assimilados pela maioria dos cidadãos. A incompreensão da base científica associada a fenómenos cuja escala nos transcende é uma recorrente fonte de espiritualismo e de sentimentos religiosos.
Outras passagens interessantes desta obra são o desmontar do Desenho Inteligente, a análise ao niilismo militante contra o darwinismo e a ciência moderna, bem como a descrição de variadíssimas passagens insólitas da Bíblia onde se relatam genocídios, homicídios e abuso de mulheres e crianças em nome de Deus. Dawkins relata com humor os evangelhos de conteúdo mais embaraçoso, aqueles que foram estrategicamente deixados fora da Bíblia pelos últimos compiladores das escrituras, em que se descreve Jesus Cristo em criança a abusar dos seus poderes divinos como se fosse um mágico, ora transformando os seus colegas em cabras ora ajudando o seu pai nos trabalhos de carpintaria aumentando miraculosamente as dimensões das peças de madeira."
Obs: Sem ainda ter lido o livro, confesso subscrever o esquema mental e a teoria geral a que Richard Dawkins chega neste domínio. As religiões são sempre nocivas, levadas ao extremo são mesmo um convite e uma alavanca de morte em nome de um projecto político ou de poderio que a história testemunha ao longo dos séculos. Especialmente, após a Idade Moderna, a Idade da razão, mas também a idade em que as nações, as sociedades e os povos deram à luz os maiores crimes contra a humanidade. Gerando a Idade das trevas, o que é o contrasenso à medida que avançamos na civilização.
Então, haverá aqui algo de perverso na utilização das religiões para se cumprirem projectos políticos ou de poderio (regional ou global).
Nesta conformidade, sugerimos a Obama e aos principais líderes políticos da Europa que agarrem numas centenas deste livro de Richard Dawkins e o ofereçam aos líderes dos dois lados em conflito no MO: os israelitas e os palestinianos, que desde 1948 lutam por ter um Estado e ainda não conseguiram.
Quanto às crenças.., elas são importantes, desde que não escravizem os homens e os instrumentalizem para pensamentos, actos ou acções contra-natura e anti-civilização - que já foram interiorizados por milhares de operacionais suicidas dispostos a implodirem para contribuírem para aquilo que julgam ser uma causa nobre e justa.
Mas não é...
Richard Dawkins-A Raiz de Todo o Mal-A Delusão de Deus 4/5